3 de junho de 2010

O Que É Que Reencarna?

Investigando a Dimensão Imortal da Consciência  

Robert Crosbie


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O texto a seguir é traduzido do livro  “The
Friendly Philosopher”, de Robert Crosbie,
Theosophy Co., Los Angeles, 416 pp., 2008,
pp. 234-239. Acrescentamos duas notas numeradas. 

(CCA)

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O que reencarna é um mistério para muitos, porque há uma certa dificuldade de compreender a permanência que existe através de repetidas encarnações. Eles sabem que o corpo nasce, e morre, e se dissolve. Mas suas mentes estão tão identificadas com o corpo, em suas relações e sua ambientação, que são incapazes de se dissociar dele.  Eles pensam em si mesmos como pessoas, como corpos de natureza física e, portanto, não conseguem ver onde, neles, pode estar o poder de encarnar através de uma vida e outra.  

A teosofia apresenta uma visão ampliada, ao mostrar que o homem não é o seu corpo, porque o corpo está continuamente mudando; e que o homem não é sua mente, porque ele está constantemente a mudar de opinião; mas que existe no homem algo permanente, que é a sua identidade através de todos os tipos de personificações.

Não houve nenhuma mudança em nossa identidade desde a infância até os dias atuais. O corpo mudou, o ambiente mudou, mas a identidade permanece a mesma e não vai mudar daqui para a frente, apesar de todas as alterações no corpo, ou na mente, ou nas circunstâncias. Só aquilo que é imutável em nós é real. Nada que muda é real. Só o que é real percebe a mudança. A mudança não pode ver a mudança. Só o que é constante percebe a mudança. Apenas o permanente pode perceber a impermanência. Por menos que o percebamos, há algo em nós que é eterno e imutável.

Esta alguma coisa imutável, constante e imortal em nós não está distante de qualquer partícula, nem de qualquer ser. Há apenas uma vida no mundo,  à qual nós pertencemos assim como todos os outros seres. Nós todos viemos da mesma Fonte Única - e não de muitas fontes -, e estamos trilhando o mesmo caminho para o mesmo grande objetivo. Os antigos diziam que o Eu Divino está em todos os seres, mas não brilha em todos. Aquilo que é real é interior, e pode ser reconhecido por qualquer ser humano dentro de si mesmo. Todo ser humano precisa da compreensão de que é capaz de brilhar e manifestar o Deus interior, ainda que todos os seres o expressem apenas parcialmente.

Se, então, a Fonte é a mesma em todos os seres - e a fonte é o Espírito Único -, por que há tantas formas, tantas personalidades, tantas individualizações? 

A teosofia mostra que tudo isso são desenvolvimentos. Nós nos movemos, vivemos e temos nosso ser neste grande Oceano da Vida, que é ao mesmo tempo Consciência e Espírito.  Esse oceano é separável em suas gotas constituintes. A separação é realizada por meio do grande processo da evolução. Mesmo nos reinos abaixo de nós, que são da mesma Fonte, a tendência a se separar em gotas de consciência individualizada acontece em grau cada vez maior. No reino animal, as espécies que estão mais próximas de nós se aproximam da autoconsciência, mas nós, como seres humanos, já chegamos a esse estágio, no qual cada um é uma gota constituinte do grande oceano da Consciência. Assim como acontece com um oceano de água, em que cada gota contém todos os elementos do grande todo, assim também cada gota constituinte da humanidade - um ser humano - contém em si  todos os elementos do grande universo. 

O mesmo poder existe em todos nós. No entanto, desde onde nós estamos na escada da existência, podemos ver muitos seres abaixo de nós, e outros seres maiores acima de nós. A humanidade está agora construindo a ponte de pensamento, uma ponte de ideias, que conecta o inferior ao superior.

O propósito da encarnação ou da nossa descida à matéria não é apenas obter mais conhecimento da matéria, mas também ajudar os reinos inferiores para que subam até onde estamos. Nós somos como deuses, para os reinos inferiores. É o nosso impulso que traz a eles felicidade ou sofrimento.  É a nossa visão errada do propósito da vida que faz da Natureza algo tão duro;  que provoca toda a angústia e as catástrofes que nos afligem em ciclones, tornados [1], doenças e pestilências de todo tipo. Tudo isso é criado por nós próprios; e por quê? Porque há uma sublimação dos reinos  mineral, vegetal e animal em nossos corpos, e estes reinos têm vida em si mesmos.

Cada célula do nosso corpo tem o seu nascimento, sua juventude, maturidade, decadência, e sua morte; e a sua reencarnação. Estamos impulsionando cada uma dessas vidas conforme o pensamento, a vontade ou sentimento que temos, no sentido de ajudar ou de prejudicar os outros. Estas vidas saem de nós para o bem ou para o mal, e voltam para seus reinos como boas ou más. Portanto, devido à nossa falta de compreensão da nossa própria e verdadeira natureza, e sem ter uma compreensão da fraternidade universal, estamos desempenhando mal nossos deveres neste plano, e ajudamos imperfeitamente  a evolução dos reinos inferiores.

Nós só percebemos a nossa responsabilidade para com eles quando  vemos que todo ser está no seu caminho para cima; que tudo o que vive acima do homem foi humano algum dia; que todos os seres abaixo do homem serão, em um momento futuro, elevados ao nível da humanidade, quando nós tivermos ido mais além; que  todas as formas, todos os seres e todas as individualizações são apenas aspectos do Espírito Único.

Partindo, então, do ponto de vista de que  este Espírito Único e imutável está em tudo - e de que ele é a causa de todo desenvolvimento evolutivo, a causa de todas as encarnações - onde está, podemos perguntar, o nosso poder de carregar de uma vida para outra aquilo que vemos e que sabemos?  Como é preservada a continuidade do conhecimento adquirido através da observação e da experiência?  De que modo a individualidade é mantida como tal?

Devemos lembrar-nos de que éramos seres autoconscientes quando este planeta começou; alguns até mesmo eram autoconscientes quando esse sistema solar começou; porque há uma diferença nos graus de desenvolvimento de diferentes seres humanos.

Se o planeta e sistema solar começaram em um estado de substância primordial, ou matéria nebulosa, como diz a Ciência,  então devemos ter tido corpos feitos daquele tipo de substância. Naquela substância mais refinada estavam todas as possibilidades de cada grau de materialidade, e, por causa disso, todas as mudanças de matérias gradualmente mais densas ocorreram dentro do verdadeiro corpo da matéria primordial; e toda a experiência está dentro desse corpo.  Nosso nascimento ocorre dentro desse corpo. Tudo o que nos ocorre está dentro do corpo - um corpo de uma natureza que não muda ao longo de todo o Manvântara [2]. Cada um tem um corpo de substância mais sutil, de natureza interna, que é o real recipiente do indivíduo. Nele o indivíduo  vive, se move e tem o seu ser, e mesmo a grande glória e delicadeza daquele corpo  não é o homem; mas apenas a veste mais elevada da Alma. O  Verdadeiro Homem que somos é o Homem que foi, é, e que sempre será, para quem a hora da morte nunca vai chegar - o Homem  pensador; o Homem observador - sempre pensando e agindo continuamente.

A vida é uma só. O Espírito é um. A Consciência é uma. Estes três são um - uma trindade - e nós somos esta trindade. Todas as alterações de forma e substância são produzidas através do Espírito e da Consciência que se expressam nas várias formas de vida. Nós somos este Espírito Único. Cada um de nós se posiciona na vasta congregação de seres neste grande universo, vendo e sabendo aquilo que consegue perceber através dos instrumentos que tem. Nós somos a Trindade - o Pai, o Filho e o Espírito Santo; ou, na linguagem teosófica, somos Atma, Buddhi e Manas. Atma é o Espírito Único, que não pertence a ninguém, mas a todos. Buddhi é a experiência sublimada de todo o passado. Manas é o poder do pensamento, o pensador, o homem, o homem imortal. Não há ser humano sem o Espírito. E não há ser humano sem a experiência do passado. Mas a mente é o reino da criação, das ideias, e o próprio Espírito, apesar de todo o seu poder, age de acordo com as ideias que estão na mente.

A obra “A Voz do Silêncio” [ de Helena Blavatsky] diz:

“A mente é como um espelho. Ela reúne poeira enquanto reflete.”

A mente necessita da sabedoria da alma para afastar o pó.  Aquilo que chamamos de mente é apenas um refletor que apresenta, conforme a treinamos, diferentes imagens. O Espírito age para o bem ou para o mal, de acordo com as ideias vistas. Existe o mal no mundo? É o poder do Espírito que o causou. Existe o bem no mundo? É o poder do Espírito que o causou. Porque há apenas um poder. A distorção desse poder traz o mal; o seu direcionamento correto traz o bem.

Devemos abandonar a ideia de que somos seres pobres, fracos e miseráveis,  que não podem fazer nada por si mesmos. Enquanto mantivermos essa ideia, nunca faremos nada. Temos de adotar a outra ideia - a ideia de que somos Espírito, somos imortais. E quando percebermos o que isso significa, esse poder irá fluir diretamente em nós e através de nós, sem restrições de qualquer tipo, salvo aquelas que surgem dos instrumentos que nós mesmos tornamos imperfeitos.  Portanto, devemos abandonar a ideia de que somos este corpo físico pobre, miserável, limitado, sobre o qual temos tão pouco controle. Nós não podemos parar as batidas do coração; não podemos parar a respiração sem destruir o corpo; não podemos interromper a constante dissociação de matéria que acontece nele, nem impedir sua dissolução final. Algumas pessoas falam de fazer “demonstrações” contra a morte, mas seria o mesmo que protestar contra a queda das folhas das árvores, quando chegam as rajadas de vento do inverno. A morte acontecerá sempre, e há uma grande vantagem nisso. Se não conseguíssemos trocar de corpos, como haveria qualquer possibilidade de avanço? Será que estamos tão satisfeitos com nossos corpos atuais que não desejamos mudar? Certamente que não.

Há apenas uma coisa nesta vida que pode ser preservada permanentemente, e esta coisa é a natureza espiritual, a grande compaixão divina que podemos traduzir pela palavra “amor”.

Nós somos os Eus Superiores reencarnantes, que continuarão a renascer até que a grande tarefa à qual nos propusemos esteja concluída. Essa tarefa é a elevação de toda a humanidade para o estágio mais elevado possível de perfeição numa Terra deste tipo.

Nós encarnamos de tempos em tempos para a preservação do que é correto, para a destruição da maldade e o estabelecimento da justiça. É para isso que estamos aqui, quer saibamos ou não, e devemos alcançar um reconhecimento da imortalidade na nossa própria natureza, antes de poder libertar-nos da angústia que aflige a humanidade por toda parte. Temos de nos manter em contato e em  sintonia com o grande propósito da natureza, que é a evolução da Alma, e em função do qual existe todo o universo.

NOTAS:

[1]  “É a nossa visão errada do propósito da vida que faz da Natureza algo tão duro;  que provoca toda a angústia e as catástrofes que nos afligem em ciclones, tornados...”.  Nesta frase, Robert Crosbie menciona a relação direta que há entre os pensamentos e as ações da humanidade, de um lado, e os ciclos geológicos e ecológicos do planeta Terra, de outro lado. A humanidade responde, de certo modo,  pela vida mental do planeta.  Cada vez que a vida do planeta decai no plano da mente da humanidade, a vida geológica também decai. O  processo é regulado pela Lei dos Ciclos.  Todos os níveis de consciência estão carmicamente interligados e interagem ativamente entre si.  (CCA)

[2] Manvântara: um período de manifestação do Universo, ou de um sistema solar. Cada Manvântara é seguido de um Pralaya ou período de descanso, e depois surge outro Manvântara. (CCA)

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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