9 de outubro de 2011

Wen-tzu, a Teosofia da China

Trechos do Clássico Taoista Que
Expõe os Ensinamentos de Lao-tzu

Thomas Cleary (trad.)




Nota Editorial:

O grande público conhece apenas uma obra atribuída a Lao-tzu, o lendário fundador do taoismo.

Trata-se do famoso “Tao-te King”.

Em “A Doutrina Secreta”, no entanto, Helena P. Blavatsky afirma que há grande número de tratados desconhecidos do público e cuja autoria, direta ou indireta, é de Lao-tzu. [1] 

De fato, em língua portuguesa, já há hoje pelo menos duas obras clássicas além do Tao-Te King com ensinamentos do fundador do taoismo. Uma é “Hua-Hu-Ching”, publicada pela Ed. Pensamento. A outra é “Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios”, da Editora Teosófica. 

Assim como os demais tratados de Lao-tzu, o Wen-tzu é uma obra extraordinária. Em 2002, tive o prazer de traduzir ao português a versão em língua inglesa de Thomas Cleary. [2] Reproduzo a seguir as páginas 27 a 35, capítulos quatro a nove. A ortografia está atualizada.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios

[Capítulo 4]

Lao-tzu disse:

A sabedoria nada tem a ver com governar os outros, mas é uma questão de ordenar a si mesmo. A nobreza nada tem a ver com poder e posição social, mas é uma questão de autorrealização; obtenha a autorrealização e o mundo inteiro poderá ser encontrado dentro de você. A felicidade nada tem a ver com riqueza e posição social, mas é uma questão de harmonia.

Aqueles que sabem o suficiente para considerar o ser interior como importante e o mundo como secundário estão perto do Caminho [3]. Portanto eu digo: “Alcançando o extremo do vazio, mantendo-me totalmente imóvel enquanto miríades de seres agem em concerto, assim eu observo o retorno”.

O Caminho molda miríades de seres, mas é sempre sem forma. Silencioso e imóvel, ele inclui totalmente o desconhecido indiferenciado. Nenhuma vastidão é suficientemente grande para estar fora dele, nenhuma pequeneza é suficientemente pequena para estar dentro dele. Ele não tem casa mas dá origem a todos os nomes do que existe e do que não existe.

As pessoas verdadeiras corporificam isso através de uma vacuidade aberta, de um sossego equânime, uma clara limpeza, uma tolerância flexível, uma pureza não-adulterada e uma plena simplicidade, sem confundir-se com as coisas. A sua perfeita virtude é o Caminho do céu e da terra, por isso elas são chamadas de pessoas verdadeiras.

As pessoas verdadeiras sabem de que modo considerar o ser interior como grande e o mundo como pequeno. Elas preferem o autogoverno e desprezam o ato de governar os outros. Elas não deixam que as coisas perturbem a sua harmonia, e não permitem que desejos desorganizem os seus sentimentos. Ocultando seus nomes, elas se escondem quando o Caminho é acatado e aparecem quando ele não o é. Elas agem sem artifícios, trabalham sem esforço e sabem sem intelectualizar.

Apreciando o Caminho do céu, aceitando o coração do céu, as pessoas verdadeiras respiram escuridão e luz, exalando o velho e inalando o novo. Elas se fecham com a escuridão e se abrem com a luz. Elas se enrolam e se desenrolam junto com a firmeza e a flexibilidade, se contraem e se expandem junto com a escuridão e a luz. Elas têm a mesma mente que o céu, o mesmo corpo que o Caminho.

Nada as agrada, nada é penoso para elas, nada as delicia e nada as irrita. Todas as coisas são misteriosamente iguais, não há nem certo nem errado.

Aqueles que são fisicamente feridos pela tortura das condições climáticas extremas percebem que o espírito é sufocado quando o corpo fica exausto. Aqueles que são psicologicamente feridos pela aflição das emoções e dos pensamentos percebem que o corpo é abandonado quando o espírito fica exausto. Portanto, as pessoas verdadeiras retornam deliberadamente à essência, confiam no apoio do espírito, e assim alcançam a plenitude. Deste modo elas dormem sem sonhos e despertam sem preocupações.

[Capítulo 5]

Quando Confúcio perguntou-lhe sobre o Caminho, Lao-tzu disse:

Endireite seu corpo, unifique sua visão, e a harmonia do céu chegará. Concentre seu conhecimento, corrija sua capacidade de avaliar, e o espírito virá para ficar. A virtude será receptiva para você, o Caminho estará à sua disposição.

Olhe diretamente para a frente como um bezerro recém-nascido, sem procurar as razões; deixe que o seu corpo seja como uma árvore seca e sua mente como cinzas de um fogo morto. Compreenda o conhecimento autêntico, e não use raciocínio distorcido. Mantenha-se aberto, despreocupado, e você poderá alcançar clareza e uma maestria diante de tudo. Como isso poderia ser considerado não-saber?

[Capítulo 6]

Lao-tzu disse:

Aqueles que servem à vida se adaptam às mudanças enquanto agem. As mudanças surgem dos tempos; aqueles que conhecem os tempos não agem de maneiras fixas. Portanto eu digo: “Os caminhos podem ser guias, mas não trilhas fixas; os nomes podem servir para designar, mas sem rótulos fixos.”

Os escritos são produzidos por palavras, e as palavras vêm do conhecimento; os intelectuais não sabem que elas não constituem um caminho fixo. Os termos que podem ser usados não fazem os livros que são apreciados. Os eruditos chegam a um impasse uma e outra vez, e isso não é tão bom quanto permanecer centrado. Ponha um fim ao exagero da teorização e não haverá preocupações, acabe com a astúcia, abandone o conhecimento e o povo se beneficiará cem vezes mais.

Os seres humanos são tranquilos por nascimento; essa é a natureza celestial. Percebendo as coisas, eles agem; assim é o desejo natural. Quando as coisas vêm a eles, eles respondem; essa é a ação do conhecimento. Quando o conhecimento e as coisas interagem, surgem as preferências e as aversões. Quando se formam as preferências e as aversões, o conhecimento vai para as coisas externas e não pode voltar ao ser interior, e assim o plano celestial desaparece.

Portanto os sábios não substituem o que é celestial pelo que é humano. Externamente eles evoluem junto com as coisas, porém, internamente eles não perdem sua verdadeira condição. Assim, aqueles que compreendem o Caminho retornam à clara tranquilidade. Aqueles que compreendem as coisas se afastam dos artifícios. Eles alimentam a inteligência através da calma, unificam o espírito através da abstração e avançam para o portão do nada.

Aqueles que seguem o céu viajam com o Caminho, aqueles que seguem os humanos se misturam com o que é vulgar. Portanto os sábios não deixam que o trabalho perturbe o mundo e não deixam que os desejos confundam os sentimentos. Eles fazem o que é adequado sem produzir esquemas, eles inspiram confiança sem falar. Eles têm êxito sem pensar sobre isso, e vencem sem torcer as coisas para obtê-lo.

Portanto, quando eles estão acima, o povo não vê o fato como uma ameaça, e quando estão à frente os outros não os atacam. O mundo todo recorre a eles, e o traidor os teme. Pelo fato de que não brigam com ninguém, ninguém se atreve a brigar com eles.

[Capítulo 7]

Lao-tzu disse:

Quando as pessoas perdem sua natureza essencial por seguir desejos, as suas ações nunca são corretas. Governar uma nação dessa maneira resulta em caos; governar a si mesmo deste modo resulta em decadência.

Portanto aqueles que não ouvem o Caminho não têm meios de retornar à sua natureza essencial. Aqueles que não compreendem as coisas não podem ser claros e calmos.

A natureza essencial do ser humano original não tem perversão ou degeneração, mas depois de uma longa imersão em coisas ela muda facilmente; assim nós esquecemos nossas raízes e nos adaptamos à natureza aparente.

A natureza essencial da água gosta de claridade, mas o cascalho a polui. A natureza essencial da humanidade gosta de paz, mas os desejos habituais a danificam. Só os sábios podem deixar as coisas e voltar ao ser interior.

Portanto os sábios não usam o conhecimento para explorar as coisas e não deixam os desejos romperem a harmonia. Quando estão felizes não ficam eufóricos, e quando sofrem não ficam irremediavelmente abalados. Assim, eles não estão em perigo mesmo quando em posições elevadas; estão seguros e estáveis.

Desse modo o planejamento imediato ao ouvir boas palavras é algo que mesmo o ignorante sabe o suficiente para admirar; a ação elevada de acordo com as virtudes dos sábios é algo que mesmo aquele que não é digno conhece o suficiente para olhar com satisfação.

Mas enquanto aqueles que admiram isso são muitos, os que o aplicam são poucos; e enquanto aqueles que olham isso com satisfação são numerosos, os que o põem em prática são raros. A razão disso é que eles se agarram às coisas e estão atados ao que é mundano.

Por isso se diz: “Quando eu não planifico nada, as pessoas evoluem por si. Quando eu não me esforço por nada, as pessoas prosperam por si. Quando eu gozo de tranquilidade, as pessoas corrigem a si mesmas. Quando não tenho desejos, as pessoas são naturalmente sinceras.”

A clara serenidade é a realização da virtude. A tolerância flexível é a função do Caminho. A calma vazia é o ancestral de todos os seres. Quando esses três são postos em prática, você entra na condição do que não tem forma. A condição do que não tem forma significa unidade; unidade significa unir-se com o mundo sem preocupações.

A prática da virtude não é agressiva; o seu uso não é forçado. Você não vê a virtude quando a olha, e não a ouve quando tenta escutá-la. Ela não tem forma, mas as formas nascem nela. Ela não tem som, porém todos os sons são produzidos nela. Não tem sabor, no entanto todos os sabores se formam nela. Não tem cor, entretanto todas as cores são feitas nela.

Assim, o ser nasce do não-ser, a realização nasce do vazio. Há apenas cinco notas musicais, no entanto as variações daquelas cinco notas são tantas que ouvi-las está além do nosso alcance. Há apenas cinco sabores, mas as variações desses cinco sabores são tantas que experimentá-las está fora do nosso alcance. Há apenas cinco cores, mas as variações dessas cinco cores são tantas que vê-las está além do nosso alcance.

Em relação ao som, quando se estabelece a primeira nota as cinco notas são definidas. Em relação ao sabor, quando se estabelece a doçura os cinco sabores são formados. Em relação à cor, quando se estabelece o branco as cinco cores se formam. Em relação ao Caminho, quando o Uno se estabelece, todas as coisas nascem.

Portanto, o princípio da unidade é válido em todas as partes. A vastidão do uno é evidente em todo o céu e em toda a terra. A sua totalidade é sólida como um bloco não-esculpido. A sua dispersão é total, como no processo da suspensão. Embora esteja em suspensão, a unidade gradualmente se torna clara; embora seja vazia, ela gradualmente preenche. Ela é profunda como um oceano, ampla como as nuvens flutuantes. Ela se parece ao nada, no entanto, existe; ela parece ausente, porém, está presente.

[Capítulo 8]

Lao-tzu disse:

A totalidade dos seres passa por uma só abertura; as raízes de todas as coisas surgem de um só portão. Portanto, os sábios medem uma trilha a seguir uma só vez e não mudam o que é original nem se alteram em relação ao que é perene. A liberdade se baseia em seguir a orientação, o tato se baseia na honestidade, a honestidade se baseia na normalidade.

Contentamento e raiva são desvios do Caminho, ansiedade e lamento são perdas de virtude, preferências e aversões são excessos da mente, desejos habituais são pesos para a vida. Quando as pessoas se tornam muito irritadas, isso destrói a tranquilidade; quando as pessoas ficam muito contentes, isso elimina a ação positiva. Com a energia diminuída, as pessoas perdem a fala, ficam espantadas e assustadas, enlouquecem. A ansiedade e o lamento queimam o coração, e assim a doença cresce. Se as pessoas puderem libertar-se de tudo isso, poderão unificar-se com a luz espiritual.

A luz espiritual é a realização do que é interior. Quando as pessoas alcançam o que é interior, os seus órgãos internos estão calmos, os seus pensamentos são equânimes, os seus olhos e ouvidos funcionam com nitidez, e seus tendões e ossos são fortes. Elas são poderosas mas não agressivas, são firmes e fortes porém nunca se exaurem. Não cometem excesso em nada, e tampouco são inadequadas em coisa alguma.

Nada no mundo é mais suave do que a água. O caminho da água é infinitamente largo e incalculavelmente profundo; ele se estende indefinidamente e flui ilimitadamente longe. O aumento e a diminuição passam sem ser notados. No alto do céu a água se transforma em chuva e em orvalho; embaixo, na terra, ela se transforma em umidade e em áreas inundáveis. Os seres não podem viver sem ela, e os trabalhos não podem ser realizados sem ela. Ela abrange toda a vida, sem preferências pessoais. A sua umidade alcança até os seres que se arrastam, e ela não busca recompensa. Sua riqueza torna todo o mundo mais rico, sem que se esgote. As suas virtudes são usadas pelos agricultores, sem que sejam desperdiçadas. Não há um final para suas ações. A sua sutileza não pode ser captada. Bata nela, e ela não fica prejudicada; perfure-a, e não fica ferida; atravesse-a com uma faca, e ela não é cortada; queime-a, e ela não faz fumaça. Suave e fluida, não pode ser dispersada. Ela é suficientemente penetrante para perfurar metais e pedras, suficientemente forte para submergir todo o mundo. Haja excesso ou falta, ela permite que o mundo receba e dê. Ela é distribuída a todos os seres sem ordem de preferência; não é privada nem pública, é inseparável do céu e da terra. Isso se chama suprema virtude.

A razão pela qual a água pode corporificar essa virtude suprema é que ela é suave e escorregadia. Por isso eu digo que o que é mais suave no mundo dirige aquilo que é mais duro no mundo, o não-ser não entra em espaço algum.

O que não tem forma é o grande ancestral dos seres, o que não tem som é a grande fonte das espécies. As pessoas verdadeiras podem comunicar-se com o diretório espiritual, aqueles que participam da evolução como seres humanos levam a virtude mística em seus corações e a empregam criativamente como um espírito.

Assim, o Caminho não-falado é de fato grandioso. Ele muda os hábitos e costumes sem que quaisquer ordens sejam dadas. Ele é só ação mental: todas as coisas têm resultados, mas ele só vai à raiz; todos os assuntos têm consequências, mas ele só fica pelo portão. Desse modo é possível encontrar o fim do que não tem fim e o supremo do infinito, perceber coisas sem estar cego e responder como um eco sem preocupar-se.

[Capítulo 9]

Lao-tzu disse:

Aqueles que alcançam o Caminho são fracos em ambição mas fortes no trabalho, as suas mentes são abertas e suas respostas adequadas. Os que são fracos em ambição são flexíveis e tolerantes, pacíficos e quietos; eles se escondem na ausência de possessividade e fingem ser inábeis. Tranquilos e sem artificialidades, quando agem, eles não perdem o sentido de tempo.

Portanto a nobreza deve estar enraizada na humildade, o que é elevado deve estar baseado no que é inferior. Use o pequeno para conter o grande, permaneça no centro para controlar o externo. Comporte-se com flexibilidade, mas seja firme, e não haverá poder que você não possa vencer, nenhum inimigo acima do qual você não possa erguer-se. Responda aos fatos novos, avalie o momento, e ninguém poderá prejudicá-lo.

Aqueles que quiserem ser firmes devem preservar a firmeza com flexibilidade; aqueles que quiserem ser fortes devem proteger a força com fraqueza. Acumule flexibilidade e você será firme, acumule fraqueza e você será forte. Observe o que os outros acumulam e você saberá quem sobreviverá e quem perecerá.

Aqueles que vencem os que são menores pela força chegam a um impasse quando encontram outros cuja força é igual à sua. Aqueles que vencem os que são maiores pela flexibilidade têm um poder que não pode ser medido. Portanto, quando um exército é forte ele é derrotado, quando uma árvore é forte ela se quebra, quando o couro é forte ele se rasga; os dentes são mais fortes que a língua, mas são os primeiros a morrer.

Assim a flexibilidade e a tolerância são os administradores da vida, a dureza e a força são os soldados da morte. Abrir caminho é a estrada que leva à exaustão, agir mais tarde é a fonte de êxito.

Manter-se em estreito contato com o Caminho para ser um parceiro da evolução implica liderar para regular os que seguem, e seguir para regular os que lideram. O que é isso? Isso significa não perder os meios de regular as pessoas que não podem controlar a si.

Seguir significa combinar os elementos dos acontecimentos de modo que eles se harmonizem com o momento. As mudanças no momento não permitem descansar nos intervalos: se você agir antecipadamente, irá demasiado longe; se agir tarde demais, não poderá acompanhar os fatos.

À medida que os dias passam e os meses se sucedem, o tempo não se demora com as pessoas. É por isso que os sábios dão mais valor a um pequeno intervalo de tempo do que a uma enorme pedra preciosa. O tempo é difícil de achar e fácil de perder.

Por isso os sábios realizam seus objetivos de acordo com o tempo e levam adiante suas obras de acordo com os recursos disponíveis. Eles se mantêm no caminho da pureza e são fiéis à disciplina do feminino. À medida que avançam e respondem às mudanças, eles sempre seguem e nunca precedem. Flexíveis e tolerantes, eles são, por isso, calmos. Pacíficos e despreocupados, eles estão, por isso, em segurança. Aqueles que atacam os grandes e derrubam os poderosos não podem entrar em conflito com eles.


NOTAS:

[1] A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky, tradução passo a passo publicada em nossos websites associados. Veja “Introdução”.

[2] Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios”, Ensinamentos de Lao-tzu. Tradução do chinês, Thomas Cleary. Tradução do inglês, Carlos Cardoso Aveline. Brasília, Editora Teosófica, 2002, 198 páginas, 180 capítulos.

[3] Isto é, estão perto do Tao, o princípio supremo. (N. ed. bras.)

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Sobre o “Wen-tzu”, veja também o texto “O Tao da Paz”, de Carlos Cardoso Aveline, que está disponível em nossos websites associados.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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