27 de setembro de 2012

O Papel das Palavras na Vida

   Cada Som e Cada Frase Têm um Efeito de Mantra

Carlos Cardoso Aveline



Cabe examinar o perigo e a oportunidade criados pelo uso da fala ao longo da existência humana.

As palavras são instrumentos comparáveis aos bens materiais. Devem ser administradas com prudência e coragem. Quando sabemos que as palavras são úteis a longo prazo se forem usadas com ética, olhamos para elas como uma parte sagrada da vida. Passamos a falar desde o coração e assumimos responsabilidade pelas nossas ações e intenções. 

É ilusório pensar que as palavras têm algum valor em si mesmas, isto, é, quando desvinculadas da realidade. Palavras não podem  substituir a substância que elas simbolizam. Elas  só têm valor e efeito durável quando são usadas com sinceridade. Caso contrário, geram mais confusão do que comunicação entre as pessoas.

Saber usar corretamente as palavras é uma das áreas do conhecimento teosófico. Quando se avança um pouco neste campo de investigação, se chega ao tema dos Mantras.  A Ioga dos Sons estuda o uso correto de palavras sagradas para expressar e manifestar a vida universal na alma humana.  

O emprego eficiente da energia dos mantras começa com a prática do correto falar budista: é preciso dizer sempre a verdade, sem intenção de ferir, mas por devoção à Verdade em si.

A Verdade  não depende de nada externo a si mesma e tem um valor próprio incondicional. A palavra valiosa é a palavra verdadeira, e a palavra verdadeira é aquela que soa em unidade com o coração de quem fala.

A Força dos Mantras

Mantra é um som que evoca algo maior.

A percepção da vida como um mantra surge aos poucos na consciência do estudante. Ela não é resultado do estudo deste ou daquele texto, mas emerge como uma compreensão interior.

Cada palavra é rítmica e possui uma componente mágica. Este fato ilustra o conceito pitagórico de Música das Esferas. Tudo é ritmado no universo, incluindo a evolução  das galáxias, o fluxo das marés, as batidas do coração humano, e a conexão de ideias e sinapses no cérebro.  

Os diferentes aspectos da vida fazem parte da Dança de Shiva, do Ritmo universal que anima desde um átomo até as estrelas reunidas no Centro da Galáxia. Há um “batimento cardíaco” no nosso Sol, e na vida da Terra, e da Lua.  

Um Mantra despertou o Universo da longa  Noite de Brahma, o pralaya, a noite do tempo, a “ordem implícita” de David Bohm.  E assim surgiu um novo Dia de Brahma, o manvântara, o tempo cronológico, a “ordem explícita”. 

O grande está contido no pequeno: antes de nascer, e sendo ainda um feto, a criança escuta. Quando nasce, antes de abrir os olhos, a criança escuta. No plano do uso das palavras, sabemos que todo texto escrito tem um ritmo latente, oculto. Ainda que o texto esteja em prosa, este ritmo é ocultamente musical.  

Todo texto é potencialmente uma conversa. No fundo, ele é a transcrição de um diálogo interior e inaudível que o autor mantém consigo mesmo, e com os leitores; e que o leitor mantém consigo mesmo, e com a vida.

A palavra escrita tem seu alicerce na tradição oral da humanidade. Na literatura oral, existem sempre um ritmo e uma melodia, e eles são usados também como uma mnemotécnica, uma maneira de memorizar, de guardar e não esquecer.

Daí o fato de a literatura oral acontecer frequentemente em versos, ou seja, em mantras, especialmente na Índia e na Grécia.

Os textos de real valor sobre a misteriosa Mantra Ioga  são  raros e pouco divulgados.  Há um motivo para isso. Não faz sentido começar o caminho esotérico através da Mantra Ioga no seu aspecto aparente e formal. Cabe, isso sim, praticar a arte do uso correto das palavras.  Esta é a verdadeira ioga dos sons. 

O eu inferior é o Instrumento da música das esferas. O Músico é  o eu superior. Na primeira etapa do aprendizado, é preciso aprender a manejar o instrumento, e a mantê-lo afinado. Esta tarefa pertence ao eu superior ou alma espiritual, e à parte do eu inferior que é leal ao eu superior.  

O estudante deve trasladar pouco a pouco o foco central da sua consciência desde os setores “surdos e cegos” do seu eu inferior,  até os setores da sua “alma terrestre” que estão em unidade com a alma imortal. Surge então uma combinação entre o céu e a terra na consciência do indivíduo que o capacita para ouvir a música do universo.  

A aprendizagem é gradual. Ela se desdobra pelas 24 horas do dia, durante longos anos. A cada passo ela amplia e liberta um pouco mais a mente. O centro da consciência passa a ser capaz de tocar o instrumento de modo coerente, sem mais ser arrastado por ele, desafinando cada vez menos e corrigindo cada vez mais rapidamente os seus erros.

O ser humano precisa alcançar o silêncio, para então perceber a música do universo e poder emitir o seu próprio e verdadeiro Mantra. O nível central do seu Mantra não será feito necessariamente de palavras audíveis. O supremo som é silencioso, e um Mestre de Sabedoria escreveu:

Ousar, querer, agir e manter silêncio é o lema nosso e de todo cabalista e ocultista.” [1]

A duração das etapas prévias do aprendizado é bastante variável. O tempo cronológico tem importância secundária.

Em muitos casos, o ensinamento meta-verbal começa a surgir diante do estudante de modo espontâneo depois de algumas décadas de estudo dedicado de filosofia esotérica clássica.  
As palavras e os pensamentos que ele emite ganham uma força crescente à medida que surgem daquele silêncio iluminado e modesto que acolhe todos os sons mas não está preso a nenhum deles: está preso ao dever e ao privilégio da verdade.  

NOTA:

[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editadas por C. Jinarajadasa, Ed. Teosófica, Brasília, 1996, 295 pp., ver p. 241.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada de forma anônima na edição de agosto de 2008 de “O Teosofista”.

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Veja também os textos “A Palavra Correta” e “A Arte de Ler”, de Carlos Cardoso Aveline, que estão disponíveis em nossos websites associados.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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