9 de setembro de 2012

Sabedoria Hermética no Século 21

Como o Corpus Hermeticum 
Ensina o Cidadão  a Viver Melhor

Carlos Cardoso Aveline




O estudo do “Corpus Hermeticum” − antiga coletânea de textos atribuídos a Hermes Trismegisto − produz um efeito que pode ser descrito como “calmamente revolucionário”. Ele dirige a mente do cidadão moderno de volta para o alto, e o liberta das estreitas preocupações de curto prazo do eu pessoal.

Foi em pleno século 19 que a pensadora russa Helena P. Blavatsky questionou os alicerces da civilização materialista enquanto fazia renascer a tradição esotérica. HPB desmascarou as ilusões das religiões sacerdotais e monoteístas e estabeleceu as bases de uma aliança de longo prazo entre três aspectos saudáveis da consciência humana: o pensamento científico, o pensamento filosófico e a religiosidade não-dogmática.

Ela forneceu as chaves que permitem interpretar e ver a sabedoria comum aos principais textos filosóficos e religiosos de todos os povos e de todas as épocas. Ao propor a criação de um núcleo de fraternidade universal que ignore fronteiras nacionais, classes sociais ou ideologias políticas e religiosas, ela formulou a base filosófica da futura civilização global e solidária que irá emergir durante o século 21.  

HPB foi atacada quase por unanimidade pelos setores dominantes da sociedade do seu tempo. Isso era inevitável. Assim como outros grandes místicos e sábios de séculos e milênios anteriores, ela foi criticada e perseguida − mas cumpriu sua missão. Hoje, o conhecimento universal de todos os tempos está mais perto do cidadão comum. A filosofia teosófica inspira a vida diária de dezenas de milhares de pessoas de todos os povos e, em grande parte do mundo, já é fácil para qualquer indivíduo questionar o domínio autoritário desta ou daquela igreja ou religião.  

A sabedoria esotérica liberta a consciência humana, porque ensina a alcançar a paz sem a intermediação deste ou daquele ritual ou sacerdote. Sentimentos menores como medo, raiva, ambição e preocupações pessoais perdem sentido quando o indivíduo contempla as verdades universais. Se olharmos para o alto, o céu noturno nos mostrará um número ilimitado de estrelas situadas a milhões de anos-luz. Quando pensamos no cosmo a partir de uma visão teosófica ou hermética, redescobrimos com humildade a nossa pequena existência como indivíduos. A grande tarefa existencial é tornar a nossa breve vida física muito mais significativa, através da ampliação dos nossos limites de espaço e tempo. Os sábios colocam conscientemente a sua existência individual dentro do contexto imenso do espaço e tempo infinitos.

No entanto, enquanto a cabeça se eleva, é necessário manter os pés firmemente no chão. Excessos de sonho ou de ambição atrapalham. Mesmo os sonhos “espirituais”, se não forem acompanhados e testados pela ação prática correspondente, serão muito mais parte do problema do que da solução. Para ligar o sonho com a realidade, é preciso desenvolver três virtudes ao mesmo tempo: paciência para aceitar o que não pode ser mudado, coragem para mudar o que pode ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

Isso não é tudo. Devemos também simplificar a nossa vida. É recomendável diminuir a quantidade de metas e de preocupações. Assim, o aprendiz aprende pouco a pouco que renunciar à pressa é libertar-se interiormente. E só então a prática da contemplação ganha um espaço duradouro em sua existência. A partir deste momento o sentimento de paz se faz mais presente, porque ele começa a transcender a ilusão. Apesar das suas limitações, os textos atribuídos a Hermes Trismegisto ajudam a mapear o caminho deste aprendizado. 

Há hoje várias versões dos fragmentos reunidos no Corpus Hermeticum , e uma das melhores é a compilação feita por um dos discípulos diretos de H. P. Blavatsky.[1] O Corpus Hermeticum parece ter sido organizado na forma atual entre os séculos II e III da era cristã, e, sem dúvida, recebeu uma dose considerável de enxertos teológicos cristãos, durante as recompilações feitas na idade média. Para HPB, na verdade, eles são “lembranças mais ou menos vagas” dos textos autênticos que haviam sido destruídos. Ela aponta como texto diretamente autêntico apenas a Tábua de Esmeralda.[2]  

“Hermes” é o nome grego de uma figura mítica transcendente, um deus conhecido no Egito como Thot e no mundo romano como Mercúrio, mas que também está ligado ao mistério de Buddha. 

Helena Blavatsky esclarece:

“Thot-Hermes é um nome genérico, como é Enoch (....). Não é o nome próprio de nenhum homem que tenha vivido, mas o título genérico de muitos sábios. (....) Eles são todos patronos representativos da Sabedoria Secreta.” [3]

A personalização das inteligências divinas e cósmicas é um antigo recurso poético e simbólico, mas também uma alegoria que, infelizmente, com frequência se transforma em dogma autoritário a serviço das castas sacerdotais. Os sacerdotes geralmente preferem manter os povos na dependência e na ignorância, mas, da sua parte, a ciência esotérica é impessoal, independente de burocracias, e gira em torno das leis do universo. Ela ensina que o caminho da libertação deve ser trilhado individualmente pelo aprendiz, e que o ato de aprender, para ser eficaz, exige uma autonomia solidária.

A filosofia hermética é tão velha quanto o hinduísmo, e a sra. Blavatsky escreveu:

“Todas as verdades fundamentais da natureza eram universais na antiguidade, e as ideias básicas sobre espírito, matéria e o universo, ou Deus, Substância e ser humano, eram idênticas. Examinando com base nas escrituras da Índia e do Egito as duas filosofias religiosas mais antigas do globo, o hinduísmo e o hermetismo, vemos que a identidade das duas é facilmente reconhecível.” [4]

Pouco conhecidos em português, os textos herméticos são inspiradores, e vale a pena abandonar os assuntos de curto prazo para poder apreciá-los sem pressa e meditar sobre seu conteúdo, que possui várias camadas de significado.

Regente das ciências ocultas, Hermes Trismegisto – “Hermes o Três Vezes Grande” – era na Grécia antiga um deus agrário que também protegia as estradas e os processos de comunicação. A compilação do Corpus Hermeticum parece ter sido feita no Egito quando este país já fazia parte do império romano. A proposta do Corpus inclui a ideia de promover a síntese das diferentes religiões e filosofias, e a elevação da consciência humana até o mundo divino, o Logos, a mente universal. Seu conteúdo é, em grande parte, comum ao pitagorismo e ao platonismo, mas também está ligado aos movimentos gnósticos e ao cristianismo primitivo.  

Como compilação, o Corpus possui um território em comum com a teosofia eclética de Amônio Sacas de Alexandria e, naturalmente, com a filosofia de Plotino e Porfírio, discípulos de Amônio. Quase dois mil anos depois, seu conteúdo e sua visão da vida respondem adequadamente aos desafios enfrentados pelo cidadão da primeira parte do século 21. Um deles é a ilusão materialista que domina as mentes de milhões de pessoas. A visão meramente material da vida está na origem da injustiça social, da destruição do meio ambiente, das guerras, do crime, da violência urbana e da corrupção na política.

Vítimas da premissa materialista, alguns cidadãos explicam a sua situação da seguinte maneira:

“Eu gostaria de estudar filosofias e religiões orientais, mas como posso fazer isso tendo tantas contas por pagar?”

E outros garantem: 

“Minha prioridade pessoal é realmente aprender mais sobre a vida, conhecer a mim mesmo e fazer o bem aos outros. Antes disso, porém, preciso ganhar dinheiro.”  

Este tipo de atitude é frequente mas não é realista. A chave da transição pessoal para os padrões vibratórios da sociedade saudável do futuro está em aceitar aqui e agora a simplicidade e aquela paz interior que é incondicional e não depende de condições externas para acontecer. Isso não significa abandonar as responsabilidades pessoais diante da vida, mas implica fazer um uso correto do tempo.

O Corpus Hermeticum fala de uma realidade suprema que está além deste pequeno mundo egoísta, e que, uma vez percebida, nunca mais se esquece.

No décimo texto desta compilação milenar, Hermes diz a seu filho Tat que a Divindade e o Bem são a essência de tudo o que há, e que nada pode existir sem a vontade divina; porém os seres humanos estão agora numa situação tão precária que o  seu intelecto não pode captar este Bem. E ele explica:

“Só o perceberás quando chegares ao que é indescritível. Este saber é o silêncio divino, que ultrapassa todos os sentidos. Quem o percebe uma vez já não pode pensar em outra coisa, nem quer ouvir falar de mais nada. (....) A beleza terá banhado com luz todo o seu intelecto. Sua alma ficará iluminada e atuará de tal modo sobre o corpo que transformará o homem inteiro.”

Mais adiante, o filho Tat pergunta a Hermes:

“E quem pode conseguir tal coisa?”

Resposta do Mestre:

“Aquele que não se perde pronunciando ou escutando palavras.” [5]

Fica clara, deste modo, a importância do silêncio interior. E a leitura, como a meditação, é silenciosa.

Cada vez que lemos um texto, ele precisa ser recriado por nós. Ele só ganha significado real quando interage com nosso mundo psicológico e interno. Somos todos coautores do que lemos e ouvimos. Este fato é decisivo no aprendizado espiritual. Ele significa que as palavras não podem substituir os fatos e, portanto, não devemos deixar-nos hipnotizar por elas.

Um dos ensinamentos do Corpus Hermeticum elimina um grande medo subconsciente do ser humano. Trata-se de algo de que muitos já ouviram falar, mas poucos compreenderam: o fato concreto de que a morte para o verdadeiro eu não existe, e constitui apenas “um conceito nascido da ficção”. 

O oitavo tratado hermético ensina:

“Devemos levar em conta que a morte é associada à aniquilação, mas que nada é aniquilado neste mundo.”

Este princípio hermético corresponde à moderna e científica Lei de Lavoisier, que afirma: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ou seja, tudo se recicla constantemente na natureza e, portanto, a lei da reencarnação é a lei da reciclagem.

Helena Blavatsky chama atenção para o fato de que os textos do Corpus Hermeticum foram em grande parte “adaptados” aos dogmas cristãos durante a idade média. [6] No estado em que chegaram a nós, eles insistem em falar de um “Deus Criador”, um personagem pensante e excessivamente humano, que manipularia o universo de modo casuísta e conforme seus caprichos. Com efeito, não faltam ilusões sacerdotais e imagens antropomórficas nas versões disponíveis dos textos herméticos. 

Para a filosofia esotérica, as divindades ou inteligências cósmicas são plurais e constituem apenas manifestações transcendentes e aspectos da Lei Una. Elas receberam uma aparência pessoal nos contos e mitos populares de todos os povos, e mais tarde, infelizmente, foram absolutizadas e transformadas em dogmas e deuses pessoais pelas religiões exotéricas. No tratado número doze, por exemplo, Hermes – ele próprio um dos deuses antigos – refere-se de modo contraditório à Inteligência Universal como se ela fosse um Deus pessoal e monoteísta. Porém, basta usar a chave interpretativa e traduzir a palavra “Deus” pela expressão “Inteligência Universal”, para que o texto faça sentido. Hermes pergunta a seu discípulo Tat: 

“Como poderia ser, meu filho, que houvesse algo morto no que é Deus, no que é a imagem do todo? A morte é decadência e destruição. Pois bem, como podemos admitir que decaia e seja destruído algo do que é divino e indestrutível? (....) Os seres humanos não morrem, mas se dissolvem, já que são corpos compostos. Esta dissolução não é a morte, e sim a modificação de um composto. Se os corpos se dissolvem, não é para que sejam destruídos, mas renovados. Qual é a energia da vida? Não é movimento? Pois bem, o que há de imóvel no mundo? Nada, meu filho.”[7]

Quando definimos “Deus” como mente universal e entendemos os vários níveis do universo físico como aspectos externos desta mente, vemos que os textos herméticos se harmonizam com a filosofia esotérica; e antecipam, ao lado da teosofia, as teorias científicas de físicos recentes como Fritjof Capra, Fred Hoyle e David Bohm, além de biólogos como Rupert Sheldrake. [8]

Tat, o discípulo, pergunta a Hermes no tratado número doze se “Deus”, a mente cósmica, está presente também no mundo material. O mestre, o mensageiro dos deuses, responde:

“Imagine por um momento, meu filho, que a matéria estivesse fora de Deus. Onde a poderias colocar, fora Dele? Já dissemos que as energias ativas são parte de Deus. Quem dá vida aos seres vivos? Quem provoca as mudanças? Quando falares de matéria, de corpo ou de substância, lembra que são energias de Deus; (....) e Deus é o todo. Nada há, no todo, que não seja Deus.”

A Física moderna especula sobre o início e o fim do universo conhecido.

Os buracos negros da astronomia atual absorvem toda matéria e energia que passam por perto deles, lançando-as necessariamente em outra dimensão, que David Bohm chama de “ordem implícita”. O paralelo com a filosofia hermética é claro: para Hermes Trismegisto, o universo ocupa um lugar imaterial. 

No tratado número dois, o discípulo Asclépio pergunta como se pode chamar o lugar em que está o universo: “É um incorpóreo”, responde Hermes. “Um incorpóreo é um intelecto (uma mente) que se move a si mesmo, livre de todo corpo, impassível, intangível, imutável em sua plena estabilidade. Contém a todos os seres, que são como uma irradiação de bem e da verdade.”

O “incorpóreo” em que está o universo físico corresponde não só à ordem implícita de David Bohm, mas também ao akasha da tradição oriental, à luz astral ou éter da tradição esotérica ocidental. E também é equivalente ao campo mórfico , conceito criado nos anos 1980 pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake. Os nomes mudam mas a realidade permanece a mesma.

Para os autores que escreveram em nome de Hermes Trismegisto, o universo é omniforme ou oniforme, isto é, tem todas as formas. Ao mesmo tempo – dizem eles no tratado número onze – existe uma forma ideal, incorpórea, que é a origem de todas as formas. Esta realidade sutil e abstrata corresponde igualmente às ideias ou formas abstratas e arquetípicas de Platão, e aos números de Pitágoras. Platão, como se sabe, foi um pitagórico.

O nível supremo e último do incorpóreo é o puro espaço infinito, abstrato e universal, que contém todas as coisas mas não se compromete com nenhuma delas, e que equivale ao conceito oriental de Parabrahman.

Estas ideias e realidades são de grande utilidade prática para o cidadão atento do século 21, e isso por um motivo muito simples. Cada ser humano mantém, inevitavelmente, um contato direto com o universo, em todos os seus níveis de sutileza e de densidade, e obedece sempre às suas leis, seja consciente ou inconscientemente. 

É sempre possível libertar-nos da escravidão submissa às formas externas, e isso se dá  através da percepção direta da essência incorpórea da vida.

O conceito budista de vazio, Sunya, entra neste contexto de percepção da realidade maior que está além de maya, a ilusão. Em si mesmo, o mundo físico é “vazio”. A física quântica tem demonstrado este fato. A verdadeira natureza do mundo é incorpórea e está no plano sutil e interior. É apenas a incapacidade de compreender a essência que nos faz ser dogmáticos, teimosos ou inflexíveis. O mundo da energia pura transcende a forma, e os vários níveis de consciência cósmica são centros de energia sutil. A Lei Universal é o aspecto dinâmico do Princípio Supremo indescritível, a Causa Sem Causa, a fonte primeira das energias que mantêm ativa a Roda da Vida universal.

O que os textos herméticos chamam de Intelecto corresponde à Razão dos gregos, ao Nous, o eu superior, a consciência da alma imortal, que se expressa racionalmente através do equilíbrio, da harmonia, da percepção da verdade e da sua expressão.

No tratado número doze, o Mestre Hermes ensina:

“Quando a alma [eu inferior] se deixa conduzir pelo intelecto [eu superior], este a banha com sua luz e se opõe às suas tendências nocivas. Do mesmo modo que um médico pode provocar sofrimento tratando da parte danificada quando o corpo está doente, assim também o intelecto pode provocar dor na alma ao afastá-la do princípio do prazer, do qual surgem todas as doenças anímicas.”

Para a filosofia hermética, as dores humanas − físicas ou emocionais − são uma doença que surge da busca instintiva do prazer.

Quando a alma [emocional] segue a razão ou intelecto [sede da sabedoria], ela é banhada pela luz da verdade que tudo harmoniza. Mas ocorre o contrário, quando as almas não conseguem a orientação do intelecto e ficam reduzidas à condição de animais. Neste caso, a lei divina, isto é, a lei do Carma, irá fazer com que colham o que plantaram, até que compreendam o seu erro e o corrijam na prática.

Para Hermes, a vida superficial é uma corrente imensa de automatismos cegos e reações impensadas que transformam o cidadão ingênuo em objeto e em observador passivo da sua própria vida. O mestre faz um apelo à humanidade, cujas massas ingênuas, tomadas pela pressa, ele compara a um bando de homens inebriados pelo vinho da ignorância. Ele pergunta, no tratado número sete:

“Para onde correm vocês, bêbados? (....) Recuperem a lucidez e abram os olhos dos seus corações. Se nem todos podem consegui-lo, pelo menos que alguns o tentem. Pois o açoite da ignorância domina a Terra e corrompe a alma aprisionada no corpo. Não se deixem levar pela corrente. Retornem, se puderem, ao porto da boa saúde. Busquem um piloto que os conduza até as portas da gnose, onde brilha uma luz deslumbrante, livre da escuridão, na qual ninguém se embriaga, na qual todos estão sóbrios e dirigem os olhos do coração para aquilo que merece ser contemplado, o inaudito, o inefável, invisível aos olhos físicos, mas visível para a inteligência e o coração.” 

A gnose é o conhecimento direto (interior) das coisas sagradas.

Há evidências de que os cristãos primitivos estavam ligados aos gnósticos, além de serem influenciados pelo budismo. Eles se organizavam em sociedades esotéricas ou semiesotéricas.  São Paulo, por exemplo, é considerado um iniciado nos mistérios. O objetivo comum de gnósticos, herméticos e cristãos primitivos não era apenas adorar alguma divindade, mas trilhar diretamente o caminho da libertação e vivenciar o mundo sagrado. “A virtude é a gnose, o conhecimento, porque quem tem conhecimento é bom, piedoso e quase divino”, ensina Hermes no parágrafo nove do décimo tratado. E no tratado número onze, ele acrescenta:   

“Se tu não te fazes semelhante a Deus, não poderás compreendê-lo, porque só o semelhante pode entender o semelhante”.

“Deus” é a Lei Universal impessoal  que se mostra em pelo menos sete níveis de inteligência cósmica. E “tornar-se semelhante” à Lei do Universo é algo que exige ir além de todo apego a  coisas pequenas. Hermes dá outras instruções práticas, em um trecho que faz referência sutil aos mistérios das iniciações:

“Mediante um salto que supere todos os corpos, adquire a condição do que é imenso. Supera todos os tempos, converte-te na própria eternidade! Então poderás compreender Deus [a Lei]. Aceita a ideia de que nada é impossível para ti. Imagina-te imortal e capaz de compreender todas as coisas; toda a arte, toda a ciência, e o interior de todo ser vivo. Sobe até acima da maior altitude. Desce até a mais funda profundidade. Abraça as sensações de tudo o que existe, do fogo e da água, do seco e do úmido, imaginando que estás em toda parte, sobre a terra, no mar, no céu, e que ainda não nasceste, que estás no ventre materno, que és adolescente, que  estás velho, que morreste e estás já além desta existência. Se dominas com o teu pensamento todas estas coisas simultaneamente, os seus tempos, lugares, substâncias, quantidades e qualidades, então poderás conhecer Deus.”

A Lei do Universo regula todas as coisas e conduz a consciência humana ao mundo divino. À medida que o indivíduo se liberta da ilusão das formas externas, ele aprende a navegar no oceano insondável e sem limites da verdade suprema. No mundo externo, ele se afasta gradualmente das ilusões teológicas criadas por igrejas. Ele passa a vivenciar pessoalmente uma ética universal que resulta da percepção da sua própria unidade individual com todos os seres. 

Ele sabe que o universo é um ecossistema. Assumindo responsabilidade por seus atos e por tudo o que lhe acontece, ele abandona a ignorância espiritual para cruzar o portal da gnose , o conhecimento sagrado, a sabedoria divina ou theos-sophia, que o liberta gradualmente dos ciclos de vida inconsciente.

NOTAS:

[1] “Thrice Geatest Hermes”, de G.R.S. Mead. São três volumes publicados em um só, edição fac-similar, Kessinger Publishing Co., EUA, 560 pp. G.R.S. Mead foi secretário particular de HPB durante alguns anos, até a morte dela em 1891. Pouco tempo depois, afastou-se do movimento teosófico.

[2] Sobre a afirmativa de que os textos atribuídos a Hermes, com exceção da Tábua de Esmeralda, são “recordações vagas”, veja o artigo “Alchemy in the 19th Century” em “Collected Writings”, H.P. Blavatsky, TPH, India/USA, 1973, vol. XI, p. 549. Leia também o texto “A Tábua de Esmeralda”, que está disponível em nossos websites associados.  

[3] “The Secret Doctrine”, Helena Blavatsky, edição fac-similar da edição original de 1888, dois volumes, Theosophy Company, Los Angeles, 1982, volume II, p. 211.

[4] “The Secret Doctrine”, obra citada, volume I, p. 285.

[5] “Tratados del Corpus Hermeticum”, Hermes Trismegisto, Introducción y Notas de J. García Font, MRA Editorial, Barcelona, 1997, 255 pp., ver pp. 162-165.

[6] “The Secret Doctrine”, obra citada, volume I, pp. 285, 286 e 287.

[7] “Tratados del Corpus Hermeticum”, obra citada, pp. 145-146 e 203-204. Há outra versão interessante desta obra em espanhol: veja “Corpus Hermeticum”, Hermes Trismegisto, Selección y Notas de Walter Scott, Editorial EDAF, Madrid, 247 pp. A editora Hemus, de S. Paulo, publicou uma edição brasileira preparada por Márcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima. Intitulado “Corpus Hermeticum, Discurso de Iniciação”, o volume tem 126 pp.

[8] Veja a este respeito o capítulo 17 do livro “A Vida Secreta da Natureza”, Carlos Cardoso Aveline, terceira edição, 156 pp., Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, 156 pp. O título do capítulo é “A Ciência Exata Descobre a Ecologia Profunda”. 

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A respeito da tradição hermética e alquímica,  leia em nossos websites associados “A Tábua de Esmeralda”.

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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