19 de junho de 2013

Duas Orações Pela Paz

A Dimensão Universal da Tradição Judaica

Carlos Cardoso Aveline





A sabedoria da tradição judaica é tão rica em ensinamentos profundos que, ao fazer uma comparação, o estudante poderá perceber o cristianismo como “uma religião demasiado jovem”.

Seria exagero pensar que o cristianismo é apenas uma cópia mal feita do judaísmo. A tradição cristã tem seus pontos altos. Entre eles estão os ensinamentos do Novo Testamento, de São Francisco de Assis, de São João da Cruz, de Teillard de Chardin e outros. Porém o judaísmo, mais antigo que o cristianismo, tem uma profundidade filosófica e mística sem par nas religiões ocidentais. 

A religião hebraica possui a vantagem cármica de ter sido sempre perseguida e não haver caído na lógica do poder centralizado, na lógica do aparelho de Estado, do Império e da burocracia ritualizada.  Por isso a filosofia esotérica tem mais pontos em comum com o judaísmo do que com o cristianismo institucionalizado. Os 16 séculos de influência dogmatizante e autoritária do Vaticano não passaram em vão.
 
No entanto, mesmo ao abordar uma cultura purificada pelo sofrimento, como o judaísmo, deve-se tomar cuidado com as personificações do mundo divino.

A mística judaica  (assim como fez depois a cristã, ao imitá-la) personifica a figura de um “Senhor”. Para evitar a ilusão antropomórfica, que leva ao dogmatismo, o estudante de filosofia esotérica deve perceber que esta ideia é apenas um símbolo. Não há um “Senhor” governando o cosmo. Existe a Lei Universal, impessoal e eterna, a Lei da Justiça e da harmonização constante, a lei do Carma. A ideia de “Senhor” também simboliza o eu superior de cada ser humano, a fonte interna de paz.
  
Traduzo a seguir duas orações presentes em um velho livro de orações judaico, publicado nos Estados Unidos em 1953 pela Conferência de Rabinos Norte-Americanos. 

Para evitar a falsa noção de que só um povo é “o escolhido” pela lei universal, coloco na primeira oração as palavras “ou o país em que vivo”, entre colchetes, na altura em que o texto fala de Israel. A oração vale para qualquer povo e qualquer país. Seria desejável que os palestinos também rezassem assim, colocando apenas “Palestina” como o país de que trata a evocação.  

Oração Pela Paz  

Dá-nos paz  -  o Teu mais precioso presente -  ó Tu, eterna fonte de  paz;  e permite que Israel [ou o país em que vivemos] seja o teu mensageiro junto aos povos da terra.

Abençoa o nosso país para que ele possa ser um bastião da paz, e o seu defensor no conselho das nações.

Que o contentamento reine dentro de suas fronteiras, e saúde e felicidade  dentro das suas casas. 

Fortalece os laços de amizade e cooperação entre os habitantes de todas as terras.

Planta virtude em cada alma;  e que o amor ao Teu nome santifique cada casa e cada coração.

Que sejas homenageado, ó Senhor, fonte de paz.


A tradição hebraica gira em torno da ética aplicada, e não apenas em torno da crença em algum salvador externo.

A lei do carma - que recomenda plantar corretamente o bem para ter uma boa colheita - é parte central do judaísmo. 

Fica claro, para os leitores atentos, que a ética é a grande fonte central de paz. No mesmo livro de orações, podemos encontrar a oração a seguir, em que o estudante evoca a Ética e aspira a agir corretamente, para obter a paz interior:

Oração Pela Ética

Faze, ó Senhor Nosso Deus, com que nos deitemos cada noite em paz, e despertemos a cada manhã com vida e forças renovadas.

Espalha sobre nós o tabernáculo da Tua paz.

Ajuda-nos a organizar nossas vidas de acordo com o Teu conselho, e leva-nos pelos caminhos da retidão.

Que Tu sejas um escudo ao nosso redor, protegendo-nos do ódio e da guerra, da pestilência e do sofrimento. 

Que Tu refreies também dentro de nós a inclinação a fazer o mal; e protege-nos,  colocando-nos sob a sombra das Tuas asas. 

Protege as nossas idas e vindas, para que fiquemos com vida e em paz, no tempo presente e em todos os tempos.

Os cidadãos de todas as religiões e filosofias têm a ganhar se meditarem calmamente e com alguma regularidade sobre estas duas orações. [1] 

NOTA:

[1] As orações foram traduzidas do volume “Union Prayer Book for Jewish Worship”, Part I, Newly Revised Edition, The Central Conference of American Rabbis, Cincinnati, USA, 1953, 396 pp. A primeira oração, que aqui chamamos de “Oração Pela Paz”, está na página 22. A segunda oração, que aqui chamamos de “Oração Pela Ética”, está à p. 56.

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