3 de novembro de 2013

Teósofo ou Teosofista?

Refletindo Sobre a Escolha da Palavra Certa

Carlos Cardoso Aveline




Desde a segunda metade do século 20, a necessidade de escolher entre os termos “teósofo” e “teosofista” tem inspirado ocasionalmente algum debate no mundo lusófono.

Há teosofistas que preferem usar o termo “teósofo”, e alguns pensam que só esta palavra é adequada. Alegam que “teosofista” é uma tradução demasiado literal do inglês - “theosophist” - e que em português o termo mais correto seria “teósofo”, equivalente à palavra “filósofo”.

Para examinar serenamente a questão, vale a pena levar em conta em primeiro lugar o fato de que inúmeros termos da filosofia teosófica estão sujeitos a ser qualificados de anglicismos, isto é, de expressões transplantadas do inglês. E há motivos reais para isso. A teosofia moderna surgiu, de fato, em língua inglesa. Ainda hoje a literatura teosófica é imensamente mais forte em língua inglesa do que em qualquer outro idioma. A influência do inglês nos termos teosóficos é, pois, enorme e inevitável.

Em segundo lugar, cabe registrar que, se em inglês o termo é “theosophist”, esta não foi a única opção disponível para os principais fundadores do movimento esotérico moderno - Helena Blavatsky, Henry Olcott, William Judge - e mesmos para os Mestres de Sabedoria que supervisavam de perto a criação do movimento teosófico em 1875.

É inegável que a teosofia tem muito em comum com a filosofia, e H.P. Blavatsky poderia ter designado o membro do movimento teosófico como “theosopher”, em inglês, o que seria linguisticamente coerente com “philosopher”, isto é, “filósofo”.
  
Neste caso, nós teríamos tido “theosopher” em inglês, a língua-mater do movimento. A tradução para “theosopher” teria sido “teósofo”, assim como a tradução de “philosopher” é “filósofo”.
  
Implícita ou explicitamente, porém, optou-se, em 1875, por incluir a componente ativista, a ideia da defesa ativa dos princípios da filosofia teosófica -; esta ideia está presente no sufixo “phist”, mas não tanto no sufixo “pher”. E escolheu-se a palavra “theosophist” ao invés de “theosopher”.

Quem pode alegar que Helena Blavatsky e os outros fundadores erraram ao optar pelo termo “theosophist”?

Cabe acrescentar, por outro lado, que os especialistas e estudantes de inúmeras áreas científicas são chamados em inglês por termos que terminam com o sufixo “ist”, como é o caso de “physicist”, “físico”, o conhecedor da Física. 

Em português, várias destas áreas de conhecimento dão lugar a termos que terminam com o sufixo “ista”. É o caso, entre muitos exemplos, do médico “otorrinolaringologista”, ao qual ninguém se refere, no Brasil, pelo menos, como “otorrinolaringólogo”.

É verdade que temos o termo técnico “odontólogo”. Mas usamos de fato o termo popular “dentista”. E os exemplos são vários, e eles recomendam flexibilidade.

Deve-se registrar que, em português brasileiro, a terminação “ólogo” ou “ósofo” também parece possuir uma acepção ou tonalidade pretensiosa, como se o indivíduo que usa este título pretendesse assumir a atitude de um profundo conhecedor, um “doutor” na matéria.

Em compensação, “teosofista” também tem suas desvantagens. A prática demonstra que não há palavras perfeitas, mas, se o pensamento for lúcido, haverá compreensão.

O movimento teosófico, nos países ibéricos, tem uma influência francesa inegavelmente maior. Em francês, a palavra para teosofista é “théosophe”, que corresponde a “teósofo”. Na América do Sul, em compensação, a influência norte-americana é mais forte. Como os Estados Unidos são o berço do movimento teosófico, e também são o país em que o núcleo de teosofia autêntica e original foi melhor preservado, podemos encarar esta influência como algo que é perfeitamente aceitável.

O processo cultural dos Estados Unidos (muito próximo do processo do Reino Unido) está relacionado com o núcleo preparatório da sexta sub-raça da nossa quinta raça-raiz, e por isso é natural que esteja - com seu idioma predominante, o inglês - na vanguarda da civilização. Do ponto de vista da filosofia esotérica, não há nada de surpreendente nisso. Ao mesmo tempo, a Índia está na base e no alicerce da evolução humana, porque é o berço e o centro de toda a quinta raça-raiz, que abrange basicamente a humanidade inteira. Na Índia de hoje também é predominante o uso da língua inglesa.

Já que a literatura da filosofia esotérica é muito maior e mais completa em inglês do que em qualquer outro idioma, o movimento teosófico não é prejudicado pelo fato de que, a cada dia que passa, o idioma coloquial falado em qualquer país do mundo parece ser mais e mais influenciado pelo idioma inglês.

A Loja Independente de Teosofistas, LIT, aceita ambas as designações, teósofo e teosofista. Não vemos motivo para uma grande polêmica, assim como não há notícias de amargas discussões entre aqueles que preferem o termo odontólogo e aqueles que usam a palavra dentista. É oportuno tomar uma posição inclusiva. Considerar os dois termos como corretos constitui um exercício saudável de flexibilidade mental, e este exercício é possível não só nos países de fala portuguesa, mas, também, nos países de fala hispânica. Em espanhol, usa-se quase em todos os casos o termo “teósofo”. No entanto, o “Diccionario de la Real Academia” - principal dicionário da língua - menciona a palavra “teosofista” como uma alternativa correta e aceitável.  

Estudar vivencialmente a filosofia esotérica - ou teosofia - é um processo complexo e abrangente.

É algo que implica desenvolver passo a passo uma capacidade de ter clareza mental sem apego impensado a esta ou aquela palavra. Cabe usar as palavras corretamente, lembrando que elas são instrumentos valiosos, mas limitados. 

É recomendável ter plena atenção, para perceber em que sentido as palavras são usadas. E também devemos possuir uma certa grandeza interior, para fazer delas pontes, que unem, e não muros, que separam.

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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