28 de janeiro de 2017

James Lovelock e o Planeta Gaia

Para Compreender Melhor a Vida da Nossa Terra

Carlos Cardoso Aveline

Lovelock e a capa da obra discutida no presente artigo



O livro “A Vingança de Gaia” é valioso mas o seu autor comete alguns erros ao avaliar a situação planetária atual.[1]

O principal equívoco de Lovelock está em propor a energia nuclear como uma alternativa para a crise ambiental e geológica do planeta. O ex-vice-presidente norte-americano Al Gore não comete esse erro em seu livro “Uma Verdade Inconveniente”.

A ideia de usar energia atômica como saída para a crise climática causada pelo excesso de dióxido de carbono na atmosfera só poderia vir de alguém que não conhece o terceiro mundo e ignora a monumental irresponsabilidade de governos espalhados por vários continentes. Seria exigir demais de um bom pensador científico que tivesse também algum realismo social.

Mesmo geologicamente, a ideia do uso da energia nuclear como alternativa não faz sentido. Com os movimentos sísmicos cada vez mais frequentes, nenhuma usina atômica estará segura. Por outro lado, até hoje nenhum técnico ou governo sabe o que fazer com o crescente lixo radiativo, cujo efeito mortal dura milhares de anos.

Há outros erros no enfoque de Lovelock, e um deles é compartilhado por Al Gore: Lovelock deixa no ar a fantasia de que a humanidade, ou o planeta,  estão em perigo de cair em uma “morte biológica”. Na edição inglesa, o livro inclusive mostra uma foto da paisagem desértica de Marte, indicando que este seria um possível cenário futuro da Terra. A ideia de uma morte biológica de Gaia neste ponto da evolução é vista como ingênua e desinformada por quem está familiarizado com a sabedoria oriental e com a sua visão de longo prazo da evolução da vida.

Para a filosofia esotérica, as crises geológicas fazem parte natural da evolução planetária, assim como, na vida de um indivíduo humano, as crises na adolescência e em outras idades são necessárias para a obtenção de uma experiência mais profunda de vida.

Em termos gerais, no entanto, a tendência predominante do livro “A Vingança de Gaia” não é catastrofista. Em vários momentos o livro parece sugerir que o estado normal de Gaia/Terra é a era glacial, e que voltaremos a ela. Lovelock supõe que isso será ruim especialmente para o hemisfério norte, e não tanto para o hemisfério sul. Ele considera que Gaia, o planeta visto como ser vivo, prefere as eras glaciais; e por isso os períodos interglaciais ou temperados, como este que está possivelmente terminando, são muito mais curtos que os períodos glaciais. O atual esquentamento, como se sabe, pode ser o “gatilho” que produz uma nova era glacial.

Lovelock não chega a criar uma expectativa de “final de humanidade”, mas mostra que a civilização atual não tem futuro e tem de optar definitivamente entre “mudar por bem” (se ainda houver tempo para isso) ou terminar por meio de cataclismas e mudanças geológicas. Citando diferentes estudos e cientistas, Lovelock insinua que já passamos pelo ponto de não-retorno. Em relação ao cenário futuro, ele não diz nada muito definido, mas sugere várias possibilidades diferentes, principalmente a de uma nova era glacial.

“A Vingança de Gaia” é fascinante como um exercício de consciência planetária. Nisso, a obra é melhor que o livro “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore, e muitos outros livros sobre o tema.

Também é simples e didático em seu enfoque científico, e sua leitura é tão interessante como qualquer história bem contada. O que explica o fato de ser um best-seller.

O texto é interessante até nas coisas em que podemos discordar dele. O leitor não tem vontade de largar o livro até terminá-lo. Basicamente, “A Vingança de Gaia” nos possibilita perceber a vida planetária como a existência de um ser dotado de inteligência e capacidade de regular a si mesmo. 

A principal limitação de Lovelock como estudioso da vida planetária está na falta de uma sólida formação em filosofia oriental ou esotérica - algo que lhe permitiria saber intuitiva e profundamente que nem o planeta nem a humanidade estão em risco, mas apenas a forma atual de civilização.

Apesar das limitações, Lovelock dá uma grande contribuição à filosofia e à consciência planetária, e a sua leitura é altamente complementar à leitura de “A Doutrina Secreta”, de H. P. Blavatsky.

O autor possui talento para pensar e escrever e revela a seus leitores uma perspectiva fascinante da vida. Lendo Lovelock, o estudante pode perceber a relação umbilical que tem, como indivíduo, com a inteligência abrangente do nosso planeta. O livro prepara o cidadão para a ruptura com o passado e para a renovação cultural que são indispensáveis no século 21.  

NOTA:

[1] “A Vingança de Gaia”, James Lovelock, Ed. Intrínseca, RJ, 2006, 160 pp. Edição inglesa: “The Revenge of Gaia”, Penguin Books, London, 2007, 222 pp.

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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