29 de outubro de 2019

A Filosofia do Entusiasmo

O Primeiro Mandamento da Lei Humana é
Aprender a Pensar; o Segundo é Agir à Altura

José Ingenieros


José Ingenieros (1877-1925) e uma página dos seus manuscritos




1. Entusiasta e Ousada Deve Ser a Juventude

Sem entusiasmo não se pode servir a formosos ideais, sem ousadia não se empreendem empresas honrosas. Um jovem cético é como se estivesse morto em vida, quer para si, quer para a sociedade. Um entusiasta, exposto a equivocar-se, é preferível a um indeciso que não se equivoca nunca. O primeiro pode acertar; o segundo jamais.

O entusiasmo era já para os platônicos uma exaltada inspiração divina que acendia no ânimo o desejo do melhor. O entusiasmo é saúde moral: embeleza o corpo mais do que qualquer exercício; prepara uma maturidade otimista e feliz. O jovem entusiasta corta as amarras da realidade e faz convergir sua mente para o ideal; a vontade põe as suas energias em tensão e aprende a buscar a quimera sonhada. Olvida as tentações egoístas que surgem na prudência e acabam na covardia: adquire forças que os tíbios e os timoratos desconhecem.

O apaixonado por um Ideal, qualquer que este seja - pois somente é triste não ter nenhum - é uma chispa; contagia a quantos o rodeiam o incêndio de seu espírito apaixonado. Os entusiastas despertam os temperamentos afins, e comovem-nos e incendeiam-nos, até atraí-los ao próprio caminho que trilham; agem como se tudo obedecesse ao seu gesto, como se houvesse força de ímã nos seus desejos, nas suas palavras, no próprio som de sua voz, na inflexão do seu acento.

2. A Juventude Finda Quando se Apaga o Entusiasmo

Não há maior privilégio do que o de conservá-lo até a mais avançada idade viril; é dom de poucos e parece milagre por parte de quem consegue entesourá-lo até a ancianidade, como Sócrates o seu gênio inspirador. É nesse único segredo que reside a eficácia dos escritores, fieis à sua doutrina, e que sabem afirmá-la, proclamá-la, repeti-la; em torvelinho, por cem maneiras apaixonadas. São os arautos do seu tempo e encontram eco no coração da juventude, sempre esquiva aos frios argumentos, inimiga dos sofistas solapados e dos capciosos contemporizadores. Somente podem colher simpatia os que semeiam o seu próprio entusiasmo.

A juventude cética é flor sem perfume. De jovens sem credo formam-se cortesãos que mendigam favores nas antecâmaras, retóricos que pronunciam palavras ocas, abúlicos que julgam a vida sem a ter vivido: valores negativos que põem pedras em todos os caminhos, para evitar que outros percorram o espaço que eles não podem percorrer.

O homem enfraquecido por uma juventude apática, logo atinge uma velhice pessimista, porque não a viveu a tempo. Cumpre descobri-la depressa, a beleza de viver; ou não se descobre nunca. Somente aquele que povoou de ideais a sua juventude e soube servi-los com fé entusiasta, pode esperar a maturidade serena e sorridente, bondosa com os que não podem, tolerante com os que não sabem.

3. Os Ideais Inspiram Confiança nas Próprias Forças

Para ser entusiasta não é o bastante ser jovem na idade; necessário é construir um ideal, sobrepondo-se às imperfeições da realidade e concebendo pela imaginação suas possíveis perfeições. Para servi-lo eficazmente é preciso entregar-se a ele sem reservas. E deve ser fruto da própria experiência desde que se destine a embelezar a vida; aquele que se apaixona cegamente é um fanático ao serviço de paixões alheias. Sem estudo não se pode ter ideal, senão fanatismo; o entusiasmo vidente dos homens que pensam não se confunde com a exaltada cegueira dos ignorantes.

O entusiasmo é incompatível com a superstição; um é fogo criador que acende o porvir, outra é medo paralisador, que se refugia no passado. O entusiasmo segue as crenças otimistas, a superstição as pessimistas. Aquele é confiança em si mesmo, esta é renúncia e temor ao desconhecido. Os entusiastas escalam em cada amanhecer a cerca de um jardim para aspirar o perfume de novas flores; os supersticiosos entram em cada crepúsculo no mesmo cemitério. O entusiasmo é chama; a superstição é cinza.

4. A Inércia em Face da Vida é Covardia

Um homem incapaz de ação é uma sombra que se escoa no anonimato de seu povo. Para ser chispa que incendeia, fogo que tempera, arado que sulca, deve-se levar o gesto até onde chegue a intenção.

Não basta na vida pensar num ideal; é preciso aplicar todo o esforço no sentido da sua realização. Cada ser humano é cúmplice do seu próprio destino; miserável é o que malbarata a sua dignidade, escravo o que forja as próprias algemas, ignorante o que despreza a cultura, suicida o que verte a cicuta em sua própria taça. Não devemos maldizer a fatalidade para justificar a nossa indolência; deveríamos, antes, perguntar-nos em secreta intimidade: empenhamos, em tudo quanto fizemos, as nossas energias? Pensamos bem, primeiro, sobre nossas ações, e demos-lhes, depois, ao praticá-las, a intensidade necessária?

A energia não é força bruta; é pensamento convertido em força inteligente. Aquele que se agita sem pensar no que faz não é alguém que sabe usar sabiamente a sua energia; tampouco o é aquele que reflete sem executar o que concebe. Devem seguir juntos o pensamento e a ação, como a bússola que dirige e a hélice que impulsiona, para que possam ser eficazes. Afunde mais o lavrador o arado, a fim de que a colheita seja abundante; dê à luz a mãe mais filhos para ajardinar o seu lar; ponha o poeta mais ternura em seus cantos para atrair corações; bata com mais força na forja o ferreiro que pretenda vencer o metal.

A ação carece de eficácia quando escasseia a energia. Para adaptar a natureza e transformá-la em benefício próprio, o homem deve obter o máximo rendimento do seu esforço metódico e continuado. Nas grandes e nas pequenas contingências, a ação deve ser suficiente para se alcançar o resultado, sem que se vacile em meio do caminho, sem que se desfaleça ao atingir a meta.

5. O Pensamento Vale Pela Ação Que Permite Desenvolver

O homem pensa para agir com mais eficácia, bem como para multiplicar a área em que desenvolve a sua atividade. Corrompem a alma da juventude os filósofos retardatários, detendo-a ainda com questões sem valor, ao invés de a tornarem capaz para enfrentar os problemas que interessam ao presente e ao futuro da humanidade. Os jovens devem ser atores no cenário do mundo, medindo suas forças para realizar ações possíveis e evitar a perplexidade que nasce do meditar sobre finalidades absurdas.

O primeiro mandamento da lei humana é aprender a pensar; o segundo é fazer tudo quanto se pensou. Aprendendo a pensar, evita-se o desperdício da própria energia; o fracasso é devido à simples ignorância das coisas que o determinam. Para fazê-las bem, é necessário refletir maduramente. Não as fazem bem os que refletem mal, equivocando-se na avaliação de suas forças; como a criança que, errando o cálculo da distância, brinca de atirar pedras contra o sol que desponta no horizonte.

Nunca se engana quem aprendeu a medir as coisas a que aplica a sua energia; jamais se afasta quem educou a sua eficácia, mediante o esforço coordenado e sistemático. A confiança em si mesmo é uma elevação da própria temperatura moral; chegando ao vermelho vivo, converte-se em fé, que faz transbordar a vontade com pujança de avalanche. Assim acontece com os gênios; vivem todo o ideal que pensam, sem se deterem com a incompreensão dos demais, sem perder tempo em discuti-lo com os que não o pensaram.

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O texto acima foi publicado nos websites associados dia 29 de outubro de 2019.  Está  reproduzido do livro “As Forças Morais”, de José Ingenieros, Livraria Progresso Editora, Salvador, BA, Brasil, 1958, 172 pp., ver pp. 24-29.

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