1 de outubro de 2019

O Movimento Teosófico na Internet

Os Desafios e as Bênçãos
de Ampliar os Horizontes   

Carlos Cardoso Aveline


 



Fundada em 2016, a Loja Independente de Teosofistas é uma das primeiras associações teosóficas a trabalharem predominantemente no mundo online. Compreender o projeto teosófico no mundo virtual não é tarefa simples. As diferenças entre o trabalho presencial e o trabalho virtual são grandes. No entanto, até o momento em que este texto é publicado praticamente não há artigos sobre a ação teosófica online. Quase todos os estudos sobre a história do movimento teosófico estão presos à fase presencial da sua evolução.

A construção da Loja avança em território pouco explorado desde o ponto de vista organizativo. É preciso examinar a natureza específica do funcionamento da LIT como um esforço na Internet, ou seja, um projeto em que o contato presencial entre as pessoas é pouco frequente.

Cabe analisar vantagens e desvantagens, avaliando o aspecto interno do trabalho. Há um duro preço a pagar pelo fato de a LIT não ser presencial. Ao mesmo tempo, os associados dispõem de potencialidades positivas quase ilimitadas.

Um dos recursos bibliográficos para a investigação do tema é o livro “The Paradox of Internet Groups” (“O Paradoxo dos Grupos na Internet”), do psicólogo israelense-californiano Haim Weinberg.[1] Além das obras teosóficas, levo em conta Enrique Pichon Rivière, Sigmund Freud, Erich Fromm, Viktor Frankl, Karen Horney e outros autores da área da psicologia com ética. 

Em 2014, quando seu livro foi publicado, Haim Weinberg tinha 30 anos de experiência como psicólogo clínico. Dirigia desde 1995 um grupo de discussão online sobre psicoterapia. Sua área principal de estudos estava centrada em torno do tema dos grupos, da cultura grupal,  do “inconsciente dos grupos” e temas similares.

No prefácio da obra “The Paradox of Internet Groups”, o editor Earl Hopper, PhD, demarca uma característica fundamental da vivência coletiva online: os chamados “grupos virtuais” não estão confinados pelo tempo e pelo espaço, ou pelo menos não estão confinados pelo espaço-tempo convencional. (Ver metade superior da p. xii.)  Hopper pensa que os grupos online deveriam ser chamados de “agrupamentos” - groupings, em inglês - devido à natureza peculiar do seu funcionamento, que depende por completo da tecnologia da comunicação.

A Internet é Irreal?

Uma primeira crítica ao trabalho teosófico na Internet consiste em afirmar que a vida online é ilusória e só a vida física é real. “O que não está no plano físico não é verdadeiro”, diz a tese. Haim Weinberg escreve:

“O ponto importante aqui é que o que nós consideramos ‘real’ depende de interpretações e não é necessariamente percebido pelos nossos sentidos [físicos]. O significado mais comum de ‘real’ é aquilo que percebemos pelos nossos sentidos [físicos]. Será que nós não podemos confiar nem sequer nos nossos sentidos [físicos]? Na verdade, não. O cérebro só interpreta o estímulo que é transmitido pelo neurônio e nós acreditamos que isso mostra ‘a verdade’.” (“The Paradox of Internet Groups”, p. 76)

Embora na Internet a verificação da sinceridade seja em princípio mais difícil, sabemos que tampouco há garantia alguma de veracidade para o convívio entre pessoas no plano físico. O caráter autêntico das relações e diálogos deve ser verificado com mais cuidado e ao longo de um tempo maior nos espaços virtuais de ação. Eles devem ser impessoais e filosóficos, no caso dos grupos espirituais.

As ações práticas verificáveis são um critério fundamental da verdade. A verificação prática da verdade e a transparência das ações são mais necessárias no mundo online, porém são também decisivas no mundo presencial, onde a hipocrisia e a infantilidade são fáceis de localizar. Em quaisquer circunstâncias, a verdade não é física. O sentido de verdade é uma função da consciência. É preciso ter lucidez para perceber as camadas superiores da verdade, seja no mundo denso e material, seja no mundo sutil e imaterial, como na Internet.

A garantia da autenticidade passa pelo nosso conhecimento direto da vida. Passa pelo bom senso, pelo realismo e pela ausência de ilusões egocêntricas no plano emocional. Exige-se do teosofista ativo online mais discernimento, mais altruísmo e rigor do que do teosofista presencial.

A “realidade” não se alcança por funcionar no plano físico. Nem tampouco por estar online. A realidade e o discernimento se alcançam estando fora do jogo do egocentrismo, tão frequente no plano material, e também no mundo online. 

As Frentes de Trabalho da Loja

O trabalho da LIT inclui hoje centralmente seus websites associados, as publicações mensais, os grupos em Yahoo e as frentes de trabalho no Facebook. Como apoio, são usados o trabalho presencial, o Twitter, o Instagram, as pequenas livrarias online, o WhatsApp, o YouTube, o telefone (convencional e por WhatsApp), o Skype, e o correio convencional. Alguns dos associados podem perceber (com vários graus de consciência) as correntes magnéticas e telepáticas que os unem. E podem ter consciência de outras correntes magnéticas com as quais interagem, algumas delas benéficas, outras desafiadoras.

As raízes da LIT estão em 1875, quando Helena Blavatsky funda o movimento teosófico. A fase mais recente do histórico tem um momento marcante em 29 de agosto de 2005, quando foi criado o grupo SerAtento em Yahoo. Já no final de março de 2019 o SerAtento possuía pouco mais de 1340 membros.

Em fevereiro de 2007 foi divulgada a criação do site FilosofiaEsoterica, com cerca de cem artigos. Em outubro de 2019 o acervo dos nossos vários websites associados contava com 2542 itens, incluindo artigos, poemas, livros, áudios e vídeos. O e-grupo Yahoo da LIT em inglês, E-Theosophy, foi criado em julho de 2010 e reunia 462 endereços em outubro de  2019. O trabalho em espanhol avançava, contando com cerca de 146 itens em nossos sites e uma força crescente no Facebook.

Os dois canais da LIT no YouTube (um em português, um em inglês) possuem um pequeno acervo que expressa um começo de presença ativa em âmbito importante. Também há vídeos em espanhol.

Desde o ponto de vista numérico, a frente de ação mais central é o Facebook. Nele o mantra do nosso ensinamento soa de modo amplo e aberto, com forte dinamismo. Continuamos dando prioridade relativa ao Yahoo, devido à sua natureza mais quieta e sossegada. 

Merecem destaque nossas publicações mensais, “O Teosofista”, fundado em maio de 2007, e “The Aquarian Theosophist”, fundado por Jerome Wheeler em novembro de 2000 e publicado pelos nossos websites desde fevereiro de 2012.

O espaço mais interno da LIT é o Círculo de Pesquisa e Estudo Sobre o Discipulado, CPED, que não constitui uma escola esotérica, mas administra o desafio da busca do discipulado em termos práticos e com pedagogia transparente. O tema do discipulado, como se sabe, é abordado em todas as frentes de ação da LIT.

Depois do CPED vem o âmbito dos associados, reunidos no e-grupo privativo dos associados ativos da Loja. E a LIT tem realizado anualmente um curso sobre busca do discipulado leigo.   

Espaço e Tempo Ficam Elásticos  

Nas diversas instâncias do trabalho da LIT, lida-se conscientemente com o mistério e as limitações do trabalho filosófico online.

No prefácio ao livro de Haim Weinberg, Earl Hopper destaca o fato de que o espaço e o tempo no mundo online não são convencionais. Vejamos dois aspectos disso.

Em primeiro lugar, o espaço.

Quando publico um post no Facebook, onde é que ficam o texto e a imagem? Tudo o que se pode saber é que o computador físico que usei está situado neste ou naquele país, assim como os computadores dos meus colegas editores, que também publicam, estão situados em diferentes cidades de vários países. O local exato do post e da página de Facebook em que ele está não podem ser delimitados geograficamente. Estão na luz astral, no mundo online, na quarta dimensão. Não pertencem ao mundo material denso.

Em segundo lugar, o tempo.

O momento da interação na LIT é também imaterial. Há algumas horas de diferença entre o “agora” da Europa e o “agora” brasileiro. Temos leitores em dezenas de países, em todos os fusos horários, com destaque para EUA e países latino-americanos, além de Europa, Ásia e África. Nosso trabalho vive a simultaneidade de tempos diferentes. Cada um lê as mensagens e textos à hora que lhe é mais cômoda, e no dia que lhe parece mais adequado. O tempo é elástico. O que escrevemos hoje pode ser apreciado por alguém dentro de um ano ou dois, ou mais.

Earl Hopper escreve:

“Do mesmo modo que a eletricidade tornou possível ter luz ao longo das 24 horas do dia e portanto fez com que as pessoas pudessem trabalhar constantemente, sem depender dos ritmos naturais do sol, da lua, e das estrelas controlados pela natureza, nós agora podemos estar em comunicação virtual, instantânea, com pessoas particulares, amigos, colegas, e mesmo estranhos situados em todo mundo, o que coloca questões a respeito de satisfação postergada, para não mencionar a necessidade de pensar antes de falar, que tem sido tradicionalmente a base para uma comunicação boa e clara.” (p. XIV)

Aprofunda-se, no plano físico, o distanciamento entre os ritmos da vida humana e os ritmos da vida nos ambientes naturais. E este fato coloca desafios:

* Como resgatar nossa harmonia com as leis da natureza?

* Como manter ritmos de vida compatíveis com o bom carma, isto é, com a ação construtiva, que preserva a vida?

As soluções têm pelo menos dois aspectos.

De um lado, cabe observar dentro do possível os ritmos naturais da vida física, acordando cedo pela manhã, dormindo cedo à noite, descansando o suficiente, mantendo uma alimentação equilibrada e não-violenta, e assim sucessivamente. Cada pequeno avanço neste sentido faz uma diferença positiva.

De outra parte, é fundamental viver em harmonia com a voz da consciência, que expressa a Lei Natural presente em nosso eu superior.

A Internet coloca diante do peregrino o desapego e o afastamento como formas de  liberdade e também como desafios. Quando alguém ou um grupo qualquer contraria ou discorda das  opiniões do estudante, basta um clique para afastar-se daquela situação online e buscar outras pessoas ou grupos com quem tenha, supostamente, mais afinidade. Por isso muitos oscilam para lá e para cá sem colocar-se de fato em situação alguma. Só há constância se houver um aprofundamento.

Hopper constata:

“Sei por experiência própria como é difícil manter um equilíbrio razoável entre participação e desapego quando somos submetidos ao poder dos processos de comunicação de grupos virtuais. Já vi a mim mesmo em processo de identificação com um grupo imaginado inconscientemente, e mergulhando num papel que está sujeito a [processo de] projeções [psicológicas]. É muito fácil ficar preso em processos de projeções e introjeções que normalmente eu pensaria que ocorrem apenas em comunicações presenciais.” (p. XIV)

Temos aqui uma referência ao processo de projeções psicológicas a que estamos sujeitos no trabalho da LIT e em todos os níveis da vida coletiva.

O que vemos no outro nem sempre decorre de uma percepção objetiva. Enxergamos nos colegas algumas coisas “reais” e outras coisas que vêm do nosso próprio subconsciente. Atribuímos ao outro características que pertencem ao nosso próprio mundo emocional, ao nosso passado, aos nossos temores ou esperanças de ordem pessoal. Num grupo teosófico todos funcionam como espelhos psicológicos uns dos outros, e os espelhos são inexatos, produzindo graus variados de distorção.

Os teosofistas não inspiram apenas o melhor uns nos outros. Eles também ameaçam a comodidade mútua no plano dos sentimentos. A filosofia esotérica clássica aponta para o melhor em cada um e faz com que apareça ao mesmo tempo o pior de todo estudante. As relações solidárias entre os peregrinos não são sempre fáceis e não são sempre cômodas.

Devido a esse e outros desafios, o movimento teosófico convencional e presencial está amplamente desvitalizado nos diferentes países hoje, desde o ponto de vista do espírito. Os primeiros passos do renascimento fluem, anunciando um novo amanhecer.

O Arsenal da Loja

A LIT reúne em seu arsenal de trabalho instrumentos valiosos da psicanálise de Freud, de Fromm, e de Karen Horney, da logoterapia de Viktor Frankl, da psicologia de Maxwell Maltz e outros campos de saber. Estes reforços práticos permitem identificar, elaborar e processar pelo menos em parte o lixo emocional da civilização que circunda o verdadeiro movimento teosófico e cada teosofista lúcido.

O trabalho da Loja chega a dezenas de milhares de pessoas, em dezenas de países. No entanto seus associados são poucos. E por que motivos são Poucos?

Por que razões, exatamente?

Para uma primeira resposta parcial à questão, vejamos sete aspectos do projeto da LIT.  

1) Em primeiro lugar, sempre foram Poucos os que fazem a diferença no carma humano. Buscar a maioria seria buscar a irrelevância. Levamos o ensinamento a muitos, mas nivelamos por cima.

2) Em segundo lugar, é mais difícil ir do mundo online para o mundo físico do que do mundo físico para o universo online.

A tendência geral é transferir as atividades para o mundo sutil. As lojas teosóficas físicas perdem geralmente força, hoje, enquanto as atividades teosóficas online florescem, ainda que enfrentando problemas variados como descompromisso, curiosidade superficial, ilusão acentuada, inconstância e egoísmo narcisista. E, no mundo online, é mais difícil que no mundo físico formar um compromisso durável: a menos que este compromisso ocorra primeiro na alma da pessoa.

3) Em terceiro lugar, a LIT está apenas começando um trabalho. É preciso investigar e compreender da melhor maneira possível a natureza do mundo online em que nos movemos, e processar a substância dos desafios probatórios que o movimento teosófico enfrenta hoje e enfrentará no futuro.

4) Em quarto lugar, os escritos da LIT deixam claro que, conforme Blavatsky ensinou (e William Judge apenas popularizou a ideia) “cada estudante é um centro”. Em outras palavras, tudo depende do “centro do círculo de Pascal”, isto é, de cada associado e de cada leitor da LIT.

5) Um quinto fator é que a humanidade não vive hoje um momento de expansão da ética, que é o âmago da proposta da LIT. O trabalho ainda precisa remar contra a maré, o que, naturalmente, constitui um privilégio e permite fortalecer a estrutura da alma.

6) Um sexto fator é que a Loja não prioriza o número de associados, mas sim os trabalhadores afinados com a proposta. Vale o critério da afinidade.

7) Um sétimo aspecto do esforço é que nos recusamos a usar instrumentos “fáceis” para atrair gente, e não deixamos de lado itens difíceis, como o combate ao antissemitismo, o tema de Israel, o desafio da ética na política, a tarefa de desmascarar a pseudoteosofia, o combate aos mecanismos da autoilusão e assim por diante.

A demagogia esotérica não nos interessa. Mesmo assim, chegamos a muita gente, selecionada por afinidade natural entre milhões e milhões de habitantes da Internet. A proposta da sinceridade atrai as pessoas na medida certa. É uma bênção ver leitores sendo beneficiados pela busca da verdade. Vamos derrotando as ilusões pouco a pouco, e fortalecendo o nosso arsenal contra as superficialidades. Para isso, somos convidados a construir uma vida de oração e contemplação.

O mundo online é real na medida em que o antahkarana do estudante se expande.

A vida inteira se torna mais verdadeira graças à presença crescente do eu superior nas diferentes situações enfrentadas. A força da LIT é a força da alma de cada amigo e associado seu, e dos seus leitores. A sede própria desta loja é a consciência mais interior dos associados e leitores que se sentem responsáveis pelo futuro humano. O eixo presencial e físico da LIT no mundo é a vida de cada um dos seus associados e leitores conscientes.

Entre as principais desvantagens de um trabalho online está o fato de que o contato humano entre as pessoas é incompleto. A falta de convívio presencial dificulta o sentido de companheirismo e torna provavelmente menor a força da confiança mútua no plano pessoal. Cada um precisa conviver presencialmente com um mundo egoísta e com pessoas marcadas pela falsidade, enquanto no plano virtual e interior há uma sutil atmosfera de altruísmo para compartilhar.

Neste sentido a LIT é uma “federação de almas solitárias”.

Trata-se de uma limitação pouco agradável. Em compensação, a Loja pode chegar a milhares de almas solitárias e isoladas devido às circunstâncias do capitalismo atual, que destrói os vínculos solidários e torna difíceis as relações humanas.

Podemos levar a muitas pessoas a noção da fraternidade universal, da autorresponsabilidade, da amizade interior e impessoal com outros buscadores, e o ensinamento da filosofia esotérica autêntica.

A “federação de solitários” tem limitações, e também pontos fortes. Ela pode abranger pessoas dos lugares mais distantes, e no entanto tem pouca capacidade de tornar-se material. Ela opera num plano conceitual e sutil, e precisa que haja uma grande vigilância diante de processos ilusórios, em alguns casos inevitáveis.

Entre as garantias e salvaguardas do trabalho da LIT está o fato de que os recursos internos de cada estudante são em última instância ilimitados. A LIT existe para estimular a autorresponsabilidade planetária de cada um dos seus amigos associados.

NOTA:

[1] The Paradox of Internet Groups”, Haim Weinberg, Karnac Books Ltd., Great Britain, UK, 2014, 195 pp.

000

Uma versão inicial do texto acima faz parte da edição de abril de 2019 de “O Teosofista”. Veja, na mesma edição, testemunhos de outros teosofistas sobre o desafio da ação filosófica online.  O Movimento Teosófico na Internet” foi publicado como item independente nos websites associados no dia 01 de outubro de 2019.

000

O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


Para ingressar no SerAtento, visite a página do e-grupo em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo. O link direto é este:  


000