9 de janeiro de 2014

Agora Sei Quando Começa a Velhice

Uma Reflexão Sobre o
Passado, o Futuro e a Coragem

Carlos Cardoso Aveline





Meu pai, Carlos Lima Aveline, nasceu em 1913 e foi um ativista social desde 1941. A contar do golpe militar de 1964, ele lutou de modo não-violento pela volta à democracia. Fez isso até sua morte, dez anos mais tarde.   

Em fevereiro de 1970, o Velho protagonizou um caso raro na história da ditadura.  Preso político condenado pela justiça militar, ele se ausentou da penitenciária em que estava, sem solicitar a aprovação das autoridades, e sem tampouco avisá-las do fato.  Uma curiosidade até agora não publicada é que ele saiu de táxi, em dia de visitas: tinha documentos pessoais com nome falso, mas não foi necessário usá-los. Depois de abandonar a prisão ele passou um ano no exterior, até que a frustração policial-militar se acalmasse.

Viveu seus últimos dias livre, junto à natureza, usando nome falso.  O Velho morava no interior de Porto Seguro, na Bahia - na região onde o Brasil foi descoberto em abril de 1500.

Era o início de 1974 quando o visitei pela última vez. Ele estava revisando o passado pessoal e se preparava conscientemente para o fim. Fazia leituras teosóficas sobre o pós-morte, e partilhou uma descoberta: 

“Agora eu sei quando começa a velhice. Começa quando ficamos pensando muito no passado.”

De fato, no instante preciso da morte há uma revisão profunda de toda a encarnação, e ela não necessita mais que 60 ou 90 segundos para ocorrer. Mas na etapa final da existência, o passado já começa a ser revisado e revisitado.  O grau de velhice de alguém está, pois, relacionado com uma desistência psicológica do futuro e do presente, e um apego ao passado, quando não um remoer de fatos passados. 

A memória do passado é boa, quando vamos a ela em busca de lições para o presente e para o porvir. Uma das grandes lições do Velho para aqueles com quem conviveu foi sua capacidade de sonhar o melhor e de alimentar e manter visões generosas de tempos futuros.  Foi um otimista e pagou de bom grado o preço dos seus sonhos.

O passado é um reservatório de sabedoria: ele nos ajuda a viver melhor no presente e no futuro, mas não devemos viver nele como numa prisão. Nossos pais nos ensinam até muito depois de deixarem de viver fisicamente. Através deles, ficamos sabendo de erros a evitar, e de acertos que podemos confirmar e consolidar.   Seja qual for nossa idade, sempre há muito por aprender: a vida toda re-começa a cada novo dia de 24 horas.

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Veja também o texto “O Olhar ao Longe, a Visão Ampla”, que está disponível em nossos websites associados.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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