9 de junho de 2014

Borges, o Sábio Cego na Biblioteca

A Dimensão Filosófica de Jorge Luis Borges

Carlos Cardoso Aveline

Jorge Luis Borges (1899-1986) e a capa do livro “Conversas na Biblioteca”



Em outubro de 1977 eu morava na Argentina. Um jornalista peruano que visitava a cidade conseguiu, graças à minha ajuda indireta, uma entrevista com o escritor Jorge Luis Borges. A amiga que obteve a conversa privada insistiu em convidar-me: eu deveria ir junto.

“Será um prazer”, respondi. 

Entardecia quando nós três chamamos ao porteiro eletrônico, no pequeno prédio da rua Maipu, no centro da cidade. Ao atender, a governanta disse:

“O senhor saiu, mas mandou dizer que não tarda. Vocês podem voltar dentro de 15 minutos?” A espera não durou muito. Dez minutos mais tarde um Galaxie estacionou junto à calçada oposta, e o motorista ajudou o escritor de 78 anos, cego e trôpego, enquanto ele começava a atravessar a rua movimentada e em obras. O trânsito parou, reverentemente. Borges era um símbolo nacional, um sábio, quase um santo. Todos queriam escutá-lo, e nas ruas não havia quem não o reconhecesse. Embora as suas opiniões políticas paradoxais desagradassem a muitos, ele brilhava como um raio de sol em meio à noite negra da ditadura militar e da violência autoritária. 

O escritor avançou passo a passo e com ajuda de uma bengala, experimentando o terreno incerto sob os pés, enquanto mantinha o olhar sempre fixo no alto. Depois de completar a travessia, parou à frente da sua porta e tirou, trêmulo, uma chave do bolso. Procurou com os dedos o buraco da fechadura, sustentado pelo motorista, e finalmente abriu a porta do edifício.

Estava ali a personalidade mais polêmica da Argentina. O seu apoio ao general chileno Augusto Pinochet e a sua opinião cética em relação à realização de eleições no seu próprio país mereciam destaque no jornalismo de Buenos Aires, onde tantas coisas não podiam ser ditas. Mas por detrás das aparências, como eu saberia mais tarde, o velho e sábio escritor estava, misteriosamente, emitindo sinais que preparavam um renascimento da paz. Trazia à tona energia positiva do inconsciente coletivo, e plantava sementes para uma cultura baseada na ética.

Através de incontáveis palestras e entrevistas, Borges recriava a sua própria pessoa. Construía-se a si mesmo em público como um grande personagem saído das páginas de algum livro mágico, que fascinava com os seus paradoxos, as suas tiradas de humor e ironia profunda em relação aos diversos aspectos da vida: política, literatura, turfe ou futebol. Na sua atitude, colocava sempre em primeiro lugar o assombro diante da vida e, em distante segundo plano, os fatos, opiniões e circunstâncias que rodeiam cada ser humano.

Falava longamente de sua árvore genealógica, da sua sensação de que o tempo é cíclico e a realidade labiríntica. No seu talentoso monólogo, a intervenção deste ou daquele jornalista era frequentemente dispensável, embora na verdade tampouco chegasse a prejudicar. A fala de Borges era entremeada por longos silêncios em que ele fitava o vazio com uma expressão de profundo esforço estampada no rosto, enquanto parecia buscar a melhor palavra ou modo de dizer. Mas era uma fala tão abundante e encantadora que aceitava facilmente as interrupções e até algumas mudanças aparentes de tema. No fundo, porém, Borges estava sempre falando de si mesmo, isto é, do seu mundo, do universo segundo a sua sensibilidade.

Durante nossa conversa, chocou-me a inutilidade das palavras. O silêncio parecia mais eloquente. A percepção da minha própria ignorância limitava o diálogo verbal da minha parte. A presença de Borges parecia esmagadora, porque impunha a seus interlocutores uma atenção total e profunda diante de qualquer tema que fosse abordado. Eu estava impressionado pela sensação de que as palavras faziam mais ruído do que comunicavam, e de que Borges dominava a arte de conversar em silêncio.

“Quais foram as suas primeiras leituras?”

“Não me lembro de uma época em que não soubesse ler e escrever. Se me dissessem que essas são condições inatas, inerentes ao homem desde o seu nascimento, eu acreditaria, baseado na minha experiência pessoal. Criei-me na biblioteca do meu pai, composta em grande parte por livros ingleses. Li os contos dos irmãos Grimm, li Kipling e mais tarde os contos de Andersen. Me criei lendo.”

Borges elogiou o poeta norte-americano Walt Whitman. Disse que George Orwell, autor do romance futurista “1984” (publicado em 1948) e da parábola sobre a revolução russa “A Revolução dos Bichos”, havia sido um tanto pretensioso, e acusou-o de ter pouca imaginação. Para bom entendedor, Borges - um habitante do mundo dos sonhos - criticava Orwell por não ter ido além de denunciar, com realismo e amargura certeira, as ideologias opressoras da primeira metade do século 20.

Não conhecia Khalil Gibran, e tampouco Krishnamurti, uma influência da minha juventude. Borges lamentou: desde os anos 1950, já não podia ler, devido à gradual cegueira que lhe havia trazido para os olhos as sombras da noite.

“O homem se vê frequentemente indefeso diante de uma realidade externa que é muito complexa”, disse eu. “Arma, então, esquemas e racionalizações para interpretar essa realidade. A história humana é a história dessas tentativas racionalizantes que tantas vezes fracassam. Você pensa que tais tentativas têm algo de ilusório na sua origem, que sua validade é só parcial?”

Eu estava querendo fazer aqui uma crítica krishnamurtiana, e zen, das ideologias políticas. Mas a resposta foi curta.  

“Não”, disse Borges. “O que acontece é que essas racionalizações são parte da realidade que elas querem explicar. Nós vivemos dos sonhos dos mortos, dos esquemas dos mortos. O mundo pode parecer um caos, mas nós tratamos de que seja um cosmos, uma ordem.”

A conversa deveria durar sessenta minutos, mas prolongou-se durante mais de quatro horas. Por coincidência, um compromisso do escritor foi desmarcado e ele convidou-nos a jantar em um restaurante simples, a um quarteirão de distância. 

O seu jantar consistiu de arroz puro com queijo ralado, e uma banana como sobremesa. Foi interrompido várias vezes por pessoas pedindo autógrafos. Escrevia seu nome por extenso, a mão trêmula fazendo uma letra de pessoa semialfabetizada. 

Borges escreveu um livro sobre Buda, em coautoria com Alicia Jurado.[1] Entre seus autores preferidos estava William James, respeitado pelos estudiosos de ocultismo. Pesquisou e escreveu sobre a Cabala. Foi admirador de Emanuel Swedenborg, o grande místico sueco do século XVIII. Um dos seus livros mais interessantes é “História da Eternidade”, em que discute a teoria oriental dos ciclos e a ideia do tempo circular. Numa palestra sobre imortalidade, Borges citou repetidamente Pitágoras, fazendo um elogio da sua doutrina sobre a transmigração da alma (reencarnação), e investigando a sabedoria de Sócrates e Platão.[2] A dimensão transcendente de Borges ficou mais clara nos últimos anos de sua vida.

“Perguntaram um dia a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia”, contou Borges em uma palestra pública certa vez. “E Bernard Shaw respondeu: ‘Todo livro que valha a pena ser lido foi escrito pelo Espírito’.”[3] 

De fato, Borges percebia o livro como algo quase mágico. Mesmo cego - podia distinguir apenas o vulto de alguém à sua frente - ele seguia comprando livros.

“Eu tenho esse culto ao livro. Posso dizê-lo de um modo que talvez pareça patético e não quero que seja patético; quero que seja como uma confidência que faço a cada um de vocês; não a todos, mas a cada um de vocês, porque todos é uma abstração e cada um é verdadeiro. Eu sigo brincando de não ser cego, sigo comprando livros, sigo enchendo minha casa de livros. Outro dia deram-me a Enciclopédia de Brockhause. Senti a presença desse livro em casa, senti-a como uma espécie de felicidade. Aí estavam vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver e, no entanto, o livro estava ali. Sentia como que uma gravitação amistosa vinda do livro. Penso que o livro é uma das formas de felicidade que temos, os homens.” [4]

Borges escreveu:

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões da sua vista; o telefone é extensão da sua voz; em seguida temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.” [5]

Polêmicas à parte, quais eram as ideias políticas de Borges? Na entrevista conosco em 1977, ele disse que no fundo se considerava um anarquista. Alguns anos depois, ele afirmou que via o mundo todo como uma comunidade. “O nacionalismo é o maior problema do nosso tempo. Infelizmente para os homens, o planeta foi parcelado em países, cada um provido de lealdades, de memórias queridas, uma mitologia particular, direitos, fronteiras, bandeiras, escudos e mapas. Enquanto durar esse estado arbitrário de coisas, as guerras serão inevitáveis. (...) Na Grécia, onde cada homem se definia por sua cidade - Heráclito de Éfeso, Zenão de Eleia - os estoicos se declaravam cosmopolitas, cidadãos do mundo. Devemos tratar de ser dignos desse antigo propósito.” [6]

E afirmou a outro jornalista, após a derrota na guerra das Malvinas e reforma das forças armadas argentinas:

“Quero insistir no fato de que sou pacifista. Neste país havia 82 generais, que foram reduzidos a quarenta: agora há, pois, um excesso de quarenta generais. Não há nenhuma razão para que os militares governem um país, é algo tão absurdo quanto que o façam os escritores ou os dentistas.”[7]

Sobre a rotina das crenças religiosas e partidos políticos, Borges afirmou:

“O homem, em geral, é muito acomodado e prefere que outros assumam a responsabilidade por seus atos. Professar uma religião ou afiliar-se a um partido político é um bom pretexto para não pensar”. [8]

O cineasta Ruy Guerra contou que Borges, já quase com 80 anos, passou certa vez três dias intensos dando palestras, participando de almoços e recebendo homenagens na capital do México. Depois disso tudo, havia apenas um dia livre antes de voltar a Buenos Aires. Borges pediu a um amigo argentino que morava na capital do México que o levasse às pirâmides aztecas em Yucatán. O amigo explicou ao velho escritor cego que se tratava de uma viagem extremamente cansativa, entre táxis e aviões. Teriam de viajar o dia inteiro, e só poderiam ficar uma hora no local das pirâmides. Mas Borges não mudou de ideia, e foram até Uxmal. Frente à pirâmide azteca do século 10, o escritor sentou-se sobre uma pedra, com o queixo apoiado sobre a velha bengala, os olhos fixos em algum lugar desconhecido. Levantou-se exatamente uma hora mais tarde. Ao final do passeio qualificou a visita à pirâmide como “inesquecível”. [9] Os seus olhos vazios brilhavam, mas ninguém sabe o que ele viu ou percebeu por lá.

“O que é o tempo?”, perguntou Borges durante uma palestra pública em Buenos Aires. “Não sei se, mesmo depois de 20 ou 30 séculos de meditação, já avançamos muito na questão do tempo. Eu diria que sempre sentimos esta antiga perplexidade, esta que Heráclito sentiu, mortalmente, naquele exemplo a que eu volto sempre: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Porque é que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio? Em primeiro lugar, porque as águas do rio fluem. Em segundo lugar - e isto é algo que nos toca metafisicamente, que nos dá uma espécie de horror sagrado - porque nós mesmos somos também um rio, nós também somos flutuantes. O problema do tempo é este. É o problema da fugacidade: o tempo passa.” [10]

Pouco depois, nesta palestra, Borges retomou o tema da transmigração ou reencarnação. E acrescentou:

“Talvez sejamos ao mesmo tempo, como creem os panteístas, todos os minerais, todas as plantas, todos os animais, todos os homens. Mas felizmente não o sabemos. Felizmente acreditamos na existência de indivíduos. Porque senão seríamos esmagados, aniquilados por essa plenitude.”

Para Borges, o tempo é a imagem móvel da eternidade. “O tempo é sucessivo porque, tendo saído do eterno, quer voltar ao eterno. Quer dizer, a ideia de futuro corresponde ao nosso desejo de voltar ao princípio. Deus criou o mundo. E todo o mundo, todo o universo das criaturas, quer voltar a esse manancial eterno que é intemporal, não anterior nem posterior ao tempo, mas que está fora do tempo.”

No final da sua vida, de certo modo, Borges tinha a sensação de que o tempo não havia transcorrido. Dois anos antes de morrer, ele, que havia nascido entre os livros, visitou a capital de São Paulo e, entre uma palestra e outra, confessou:

“Apesar de ter percorrido o mundo todo, tenho a impressão de nunca haver saído da biblioteca do meu pai.”[11] A figura de pai, para ele, tinha algo de arquetípico. Seu pai era também seu mestre.

Uma vez perguntaram-lhe se acreditava em Deus. “Não acredito em Deus, não consigo”, respondeu. “Mas um dia meu pai disse que este universo é tão estranho que pode ser, subitamente, que a Santíssima Trindade exista. Não posso acreditar na pessoa de Deus, mas consigo acreditar em um Deus que está em transformação, como Bernard Shaw disse, um Deus que trabalha através de nós, através das plantas e dos animais.” [12]

Quando lhe perguntaram se aceitava ser chamado de gênio, defendeu-se:

“É uma injúria. Eu sou apenas um homem lúcido, que não tem valor e com pouca esperança. Não há muito o que esperar na minha idade. Eu só gostaria de poder ver mais moralidade, mais ética ao meu redor. Em outros planos e esferas, a economia sempre encontrará alguma solução.” [13]

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Algumas Palavras de Borges

1. Do Evangelho de um Herege:

*“Nada se edifica sobre pedra, tudo sobre areia, mas o nosso dever é edificar como se fora pedra a areia...”

*“Não odeies teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. O teu ódio nunca será melhor que tua paz.”

[Do volume “Elogio da Sombra e Um Ensaio Autobiográfico”, Ed. Globo, São Paulo, 1993, 122 pp., ver. pp. 59-60, no texto “Fragmentos de um Evangelho Apócrifo”.]

2. De um Relato sobre Si Mesmo:

* “Não mais considero a felicidade inatingível como há muito tempo eu a considerava. Agora sei que ela pode acontecer a qualquer momento, mas que nunca deveria ser buscada. Quanto ao fracasso ou à fama, são muito irrelevantes e nunca me preocupei com eles. O que estou procurando agora é a paz, a alegria de pensar e da amizade, e, embora possa parecer demasiada ambição, uma sensação de amar e de ser amado.”

[“Elogio da Sombra e Um Ensaio Autobiográfico”, obra citada, p. 122.]


NOTAS:

[1] “Buda”, Jorge Luis Borges e Alicia Jurado, trad. de Cláudio Fornari, ed. Difel, SP, 1977, 103 pp.

[2] “Borges, Oral”, Emecé Editores/Editorial Belgrano, Buenos Aires, 1979, 105 pp., pp. 27 a 41.

[3] “Borges, Oral”, Emecé Editores/Editorial Belgrano, Buenos Aires, 1979, 105 pp., ver pp. 17-18.

[4] “Borges, Oral”, obra citada, p. 23.

[5] “Borges, Oral”, obra citada, p. 13.

[6] “Diálogos”, Jorge Luis Borges e Nestor J. Montenegro, Nemont Ediciones, Buenos Aires, 1983, 93 pp., ver pp. 24-25.

[7] Jornal quinzenal “La Gaceta Porteña”, Buenos Aires, Ano 1, número 1, de 9 março 1984, ver p. 02. Entrevista de Borges com o jornalista Rodolfo Balocco.

[8] “Diálogos”, obra citada, p. 73.

[9] Jornal “O Estado de S. Paulo”, 22 maio 1994, artigo de Ruy Guerra intitulado “O Velho Escritor Cego e a Pirâmide Azteca”.

[10] “Borges, Oral”, obra citada, p. 85. As duas citações seguintes são das pp. 88 e 94-95, respectivamente.

[11] Jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, edição de 15 de agosto de 1984.

[12] “South”, revista mensal publicada no Reino Unido, edição de novembro de 1984, pp. 110-111, reportagem do correspondente Edgardo Antoñana, em Buenos Aires. Ver p. 111.

[13] Revista “South”, publicação citada, p. 111.

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O texto acima é reproduzido do livro “Conversas na Biblioteca, um diálogo de 25 séculos”, de Carlos Cardoso Aveline, Edifurb, Blumenau, 2007, 170 pp. A ortografia foi atualizada.   

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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