20 de julho de 2019

Pedro Nunes e a Teosofia

Um Astrônomo Estudante da Sabedoria Antiga

Carlos Cardoso Aveline


Efígie de Pedro Nunes no Padrão dos Descobrimentos, o monumento em Lisboa



Habitante do século 16, o cosmógrafo, astrônomo e matemático Pedro Nunes (1502-1578) foi um precursor da teosofia no mundo lusófono. 

Seu conhecimento científico era usado para a arte de navegar ao redor do mundo. Seus estudos técnicos deram apoio prático às expedições portuguesas. Foi um dos grandes humanistas da Renascença europeia, o vasto renascimento cultural em cujo contexto ocorreu o ciclo dos Descobrimentos.  

Nunes acreditava na sabedoria universal e na fraternidade sem fronteiras, e foi um amigo pessoal de John Dee, o astrólogo, cosmógrafo e conselheiro da rainha Elizabeth I, que é citado nas Cartas dos Mahatmas. Um mestre de sabedoria menciona John Dee ao abordar os obstáculos enfrentados pelos grandes ocultistas da época em que a ciência moderna nascia:

“O enorme conhecimento dos Paracelso [1], dos Agrippa [2]  e dos Dee foi sempre contestado.” [3]

Nascido em 13 de julho de 1527, John Dee foi contemporâneo de Francis Bacon e William Shakespeare e tinha profunda confiança em Pedro Nunes. Em 1558, sofrendo tipos variados de perseguição e poucos meses antes de Elizabeth I subir ao trono, Dee escreveu em uma carta ao cosmógrafo Gerardus Mercator:

“Deves saber que, além de uma doença extremamente perigosa, (…) tenho suportado (…) muitas outras perturbações que atrasaram em grande medida os meus estudos e já as minhas forças não conseguem suportar o peso de um esforço e tarefa tais que quase requerem (…) trabalho próprio de um Hércules. Por isso leguei a minha obra, se ela não puder ser ultimada ou publicada enquanto eu próprio for vivo, a Pedro Nunes, de Alcácer do Sal, varão mais que erudito e ponderado, pessoa que para nós se mantém como eminência e pilar únicos das artes matemáticas. Não há muito roguei-lhe com insistência que, no caso de que lhe chegasse esta minha obra postumamente, a assumisse para si com benevolência e caridade, e que se servisse dela de todas as maneiras, como se fosse sua, e por último se dignasse completá-la, emendá-la e corrigi-la para pública utilidade dos homens de ciência, tal como se fosse inteiramente sua.”[4]

Cientista ético, Nunes conhecia as lutas que ocorrem na alma que busca a verdade. Realista, escreveu: 

“É (...) próprio da fragilidade humana desacertar muitas vezes, coisa que penso pode vir a acontecer-me a mim. Julgo que é dever de todo homem de bem não dissimular os enganos dos outros, mas antes conduzir todos os homens, sempre que seja possível, das trevas da ignorância para a luz da verdade.” [5] 

Vivendo na mesma época que Giordano Bruno (1548-1600) e que o português Damião de Góis (1502-1574), Pedro Nunes considerava que todo saber deve ser colocado a serviço da vida:

“... Porque é dever de homem honesto não ocultar o saber que possui, mas antes comunicá-lo para proveito de todos.” [6]

Segundo o estudioso Joaquim de Carvalho, Pedro Nunes viveu tanto a pesquisa original como a reflexão erudita:

“Comprazia-se em salientar as raízes antigas de concepções modernas, em abonar com a autoridade de gregos a sua própria opinião e em pôr a nu o erro de contemporâneos relativamente às suas próprias explicações.” [7]

Nunes estudou astrologia, pois fez algumas recomendações e conselhos com base nesta área de conhecimento. Pelo menos um dos seus conselhos astrológicos à nobreza lusitana está documentado de maneira palpável, e não faria sentido pensar que este foi um evento inteiramente isolado.[8]

A nação portuguesa sofreu com a doença do antissemitismo, mas também possui uma longa tradição humanista. De origem presumivelmente judaica [9], Pedro Nunes foi apoiado pelo trono do seu país até completar sua encarnação, em 11 de agosto de 1578, e sua memória continuou a ser respeitada desde então.   

NOTAS:

[1] Veja o artigo Paracelso e o Livro da Natureza”. 

[2] Heinrich Cornelius Agrippa (1486-1535), médico, soldado, escritor e ocultista alemão. Entre suas principais obras está “Da Filosofia Oculta” (cerca de 1510). (Nota da edição brasileira de “Cartas dos Mahatmas”)

[3] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes. Ver volume I, carta número 1, p. 39.

[4] “Pedro Nunes e Damião de Góis: Dois Rostos do Humanismo Português”, Coordenação editorial de Aires A. Nascimento, Guimarães Editores, Lisboa, 2002, 179 pp., ver pp. 59-60.

[5] Palavras citadas no livro “Pedro Nunes e Damião de Góis: Dois Rostos do Humanismo Português”, Guimarães Editores, Lisboa, 2002, 179 pp., ver p. 67.

[6] “Pedro Nunes e Damião de Góis: Dois Rostos do Humanismo Português”, obra citada, pp. 73-74.

[7] “Pedro Nunes e Damião de Góis: Dois Rostos do Humanismo Português”, obra citada, p. 31.

[8] O conselho foi dado a D. Catarina de Áustria, esposa do rei português D. João III. Dizia respeito à necessidade de retardar a entrega do reino a D. Sebastião, cujo reinado poderia ser instável e breve. Ver “Pedro Nunes e Damião de Góis: Dois Rostos do Humanismo Português”, p. 87. Pedro Nunes, aliás, foi professor de Dom Sebastião. O reinado do jovem foi de fato breve e instável, e terminou com a morte do rei em agosto de 1578, por coincidência o mesmo mês e ano em que morre o seu mestre Pedro Nunes.

[9] “Pedro Nunes e Damião de Góis: Dois Rostos do Humanismo Português”, obra citada, pp. 74-75.

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O texto “Pedro Nunes e a Teosofia” foi publicado em nossos websites associados dia 20 de julho de 2019. Uma versão inicial do artigo, sem indicação de nome de autor, faz parte da edição de  agosto de 2014 de “O Teosofista”, p. 04.    

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Veja nos websites associados os artigos A Arte de Descobrir o Brasil  e  O Brasil Universalista”.

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