16 de agosto de 2017

O Teosofista - Agosto de 2017





A edição de agosto abre com o seguinte pensamento:

“Em qualquer comunidade, o que é manipulador e ilusório tem vida curta.”

O artigo “Uma Questão de Equilíbrio: Lentamente a Democracia Ganha Força”, começa à página um e conclui na página quatro.

Em seguida, uma nota sobre a publicação mais recente de um livro em nossos websites: o clássico “A Alma das Árvores”, de 1913, obra raríssima em papel, escrita pelo poeta António Corrêa D’Oliveira.

Na página cinco, a nota “Somos Todos Imperadores na Democracia Ocidental Moderna”. “A Força da Sabedoria Oriental” está à página seis. Na página sete, “O Propósito do Conhecimento” e “A Escada de Ouro”.

Estes são outros assuntos abordados em “O Teosofista” de agosto:  

* Esquecendo a Si Mesmo;

* Paz, Vigilância, Ação;  

* N. Sri Ram, Sobre Uma Palavra Extraordinária;

* Ideias ao Longo do Caminho - ao Vivenciar o Silêncio, Vemos a Verdade;

* Democracia e Hábitos de Pensamento, a Influência da Mídia;

* Ministro do STF, Gilmar Mendes Defende o Semiparlamentarismo; e

* Ensinamentos de um Mahatma - 02, Trechos das Cartas do Mestre de Blavatsky.

A edição tem 18 páginas e inclui a lista dos itens publicados recentemente em nossos websites.



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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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15 de agosto de 2017

A Alma das Árvores

Do Início do Século 20, Um Livro de
Poemas Para Leitores de Todas as Idades

António Corrêa D’Oliveira




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Nota Editorial de 2017:

O amor humano às árvores é tão antigo
quanto a humanidade, e o poeta português
António Corrêa D’Oliveira foi um dos que
souberam expressar em forma de versos, no mundo
luso-brasileiro, o sentimento fraterno que nos une ao
reino vegetal e à natureza inteira. Ostensivamente
dirigido às crianças, o livro a seguir tem um poder
curativo sobre todo leitor atento, velho ou jovem.

Corrêa D’Oliveira nasceu em 1879 e viveu até
1960. Sua obra combina a mística cristã com o
princípio pagão e panteísta da unidade de todas as
coisas. O livro “A Alma das Árvores”, publicado em
1913,  ensina que o mundo sagrado está por todo lugar e
estimula o contato do leitor com sua própria alma espiritual.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável

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14 de agosto de 2017

O Mistério da Construção

Poesia em Prosa: Examinando a
Tarefa Sagrada do Pedreiro Livre

António Ramos Rosa




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Nota Editorial de 2017:

O poeta português Ramos Rosa nasceu em 17
de outubro de 1924 e viveu até setembro de 2013.

Selecionamos a seguir quatro trechos da
obra “O Aprendiz Secreto”, de António Ramos
Rosa, Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
Portugal, 2001, 80 pp. A página de cada fragmento
é indicada ao final do trecho, entre parênteses.

 (CCA)

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1. A Construção Circular

A construção será redonda porque redondo é o ser. Ela será uma frutificação da substância e, na sua multiplicidade, a unidade viva do desejo.

Todas as linhas da morada refletirão os enigmas, os turbilhões, os labirintos e os dilemas do construtor mas o núcleo da construção será uma pequena falha luminosa que a fará elevar-se para o cimo e para além de todas as determinações particulares do construtor.

E, assim, ao ritmo da construção, o sentido se forma num recomeço constante, não como um eco do passado mas como o frêmito novo de cada gesto construtivo que desperta, na materialidade da construção, a nascente viva e unificadora do ser. (p. 20)

2. O Espaço Solar da Realidade

A tranquila exaltação com que o construtor coloca cada pedra é uma consequência da maravilhosa insignificância do seu ato.

Se a morada é uma finalidade, o movimento que determina a construção é em si mesmo uma tentativa incerta que não tem atrás de si um fundamento ou a energia de um princípio. A espontaneidade ingênua de cada gesto liberta e regenera o construtor e cria nele a sua base móvel e o movimento arquitetônico que unifica e reúne em si os elementos esparsos das impulsões caóticas do ser. Num impulso vertical o construtor abre o espaço solar da realidade entre os flancos terrestres e carnais da construção e a vibração silenciosa do invisível espaço. (p. 22)

3. A Lucidez dos Gestos Construtivos

O movimento vertical da construção vem de muito longe, de um fundo sem fundo que a visão não capta mas que é a condição primeira da visibilidade. A noite desse fundo é a força que unifica e propaga preenchendo o vazio da pupila e abrindo-a ao mundo. Essa força é a força da imaginação e a possibilidade de ser o que ainda não se é. O construtor sente a angustiante iminência do por fazer e o vazio de uma suspensão em que o nada é a ruína absoluta de toda a esperança. Mas do fundo desse abismo negativo um movimento ascensional erige o incomparável à torre da sua construção. É então que ele encontra a forma do ser como se o longínquo se tornasse acessível na distância. E assim o ser a si mesmo se junta e todos os gestos construtivos serão como que os frêmitos do ser unido ao alento lúcido e claro do construtor. (p. 24)

4. A Abertura do Espaço Cósmico

A continuidade do tempo é a sucessão de presenças e ausências, de elevações e quedas, de desaparecimentos no seio do aparecer, de enxames de sombras nos círculos luminosos. O conhecimento desta dualidade leva o construtor a ter em conta o vazio e a sombra como condições da densidade e leveza da sua construção. Assim, na materialidade maciça do ser é preciso abrir concavidades e vazios para que o fluir do tempo se atualize na matéria com a musicalidade do ser. A graça e o encanto das formas resulta desse jogo de luzes e sombras, de plenos e vazios, de formas côncavas e convexas, de planos e curvas, de tonalidades suaves e de cores intensas. A morada será como uma concha adormecida com largas e baixas janelas abertas para o mar e os campos monótonos de sobreiros e olivais, e de um terraço liso e vermelho avistar-se-á também o mar e o horizonte e, à noite, o silencioso e cintilante instrumento musical [1] das estrelas como um vasto leque imóvel e rutilante, soberanamente aberto. Esta abertura do espaço cósmico fomentará a unidade que o construtor procura através da dualidade do tempo. A casa terá por isso a flexibilidade vegetal de uma planta e a transparência de um animal aéreo suspenso num voo largo e repousado, interminavelmente aberto à tranquilidade de um puro espaço.  (p. 43)

NOTA:

[1] No original: harmônio. (CCA)

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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12 de agosto de 2017

Nascimento e Desejo: Um Poema

Para Quando eu Nascer, Daqui a Quatro Horas

Michel Temer




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Nota Editorial de 2017

Como em outras oportunidades [1], Temer
demonstra no poema a seguir um conhecimento
da lei dos ciclos, que é central em teosofia.  

Cada aniversário constitui uma  experiência
potencialmente iniciática,  um renascimento,
um começar de novo. O ciclo de um ano de
vida possui uma energia própria, que pode
ser utilizada corretamente, inspirando uma
renovação regular do propósito da vida. [2]

A oração “Nascimento e Desejo” dirige-se ao
Senhor”. Em teosofia, o termo representa o eu
superior ou alma espiritual de cada indivíduo.

Senhor” pode significar ainda uma personificação
da lei do Carma e da Justiça,  com a qual o eu superior
está em harmonia. É perante a sua própria consciência, o
seu eu imortal, portanto, que o peregrino presta contas
e renova um compromisso de vida. Os versos a seguir
são coerentes com a filosofia esotérica clássica.

O poema é reproduzido de “Anônima Intimidade”, de
Michel Temer, Topbooks, 2012, RJ, 164 pp., pp. 163-164.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Nascimento e Desejo

Quando eu nascer, Senhor,
Daqui a quatro horas,
Pela sexagésima segunda vez,
Fazei com que eu nasça
Um outro homem.

Fazei, Senhor,
Com que a vida anterior
Às sessenta e duas vezes
Que nasci
Seja apenas referência
Para a existência
Que virá depois.

Que eu seja, Senhor,
Melhor.
Que eu viva para os outros,
Não para mim.
Que eu ame, Senhor,
Quem me ama.
E também quem me detesta.
Até os que me ignoram
Incluídos os que não me conhecem.

Que eu ame a todos, Senhor,
Que eu seja bom
Sem fazer da bondade
Uma virtude, nem pretensão
Mas que seja conduta natural.

Que eu seja honesto, Senhor,
Sem fazer da honestidade
Uma pregação.

Que eu compreenda os maus,
Os desonestos, os drogados
E os que traficam drogas
Os violentos e os insatisfeitos.

Que eu seja capaz, Senhor,
De, com bondade,
Extensão da Sua,
Fazê-los bons, honestos
Não drogados, pacíficos e satisfeitos.

Enfim, Senhor,
Que eu seja, no mundo,
A revelação da Sua presença.
Se não for assim, Senhor,
Melhor que eu não nasça pela sexagésima terceira vez.

NOTAS:

[1] Sobre a força dos ciclos na história do Brasil, veja em nossos websites os artigos “Democracia e Autoritarismo” e “A Democracia Social e o Império da Lei”, ambos de Michel Temer. A respeito da tarefa da alma imortal, também está disponível em nossos websites o poema “Gerações”. De autoria de Temer, ele parece abordar o compromisso sagrado que permeia várias encarnações.

[2] Veja o texto “O Lado Sagrado do Aniversário”, em nossos websites associados. Leia também “A Força de um Compromisso Sagrado”.

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10 de agosto de 2017

O Carvalho da Floresta

Havia na Floresta um
Roble de Raízes Colossais

Júlio Dinis




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Nota Editorial de 2017

Símbolo da vida universal, o carvalho ou
roble é sagrado entre os druidas e objeto de
reverência nas diferentes tradições religiosas,
incluindo a antiguidade grega e romana.  

O poema a seguir é reproduzido do livro
Poesias”, de Júlio Dinis, Grandes Clássicos
da Poesia, Publicações Europa-América, Mem
Martins, Portugal, 1999, 263 pp., ver pp. 149-153.

Com um sabor shakespeariano, “O
Carvalho da Floresta” está entre os
grandes poemas clássicos do idioma português.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Havia na floresta um roble cheio de anos,
Vestido de hera anciã, decano entre os decanos
Dos bosques do arredor. Raízes colossais
Prendiam-no à terra; ao ar descomunais
Os braços elevava, e ao vê-lo assim dir-se-ia
Que aos outros vegetais as bênçãos estendia.

Velho, e ainda a primavera o vinha requestar;
O outono desfolhava-o em último lugar;
Opunha ao sol do estio a fronde [1] espessa e bela;
Respeitava-o no inverno o raio da procela. [2]
Viu passar gerações após gerações
Em risos e em pranto, em festas e orações;
Viu crianças pedir-lhe a sombra grata e amena
Que, amantes ao depois, naquela mesma cena
Viu a falar de amor, e no seu tronco abrir
Duas iniciais que liam a sorrir;
E mais tarde ainda os vira, velhos, encanecidos,
Pedir-lhe em vão alento aos lânguidos sentidos,
A repousar ali. A coma erguida ao céu
De longe se mostrava envolta inda no véu
De névoas da distância. Ao regressar à aldeia,
Ansiava o lavrador por avistá-lo, e a ideia
De tudo quanto amava o vinha comover:
Do lar, do velho pai, dos filhos, da mulher.
Que olhos de tanto amor, de penas e esperanças
Lhe enviavam também saudosas as crianças
Ao deixarem a casa, a pátria, irmãos e mãe
Indo tentar porvir por esse mundo além!

Em que tempo nascera esta árvore gigante?
Que época viu crescer o arbusto vacilante,
Curvando-se por terra a cada viração,
Esse que já nem teme ameaças do vulcão?
Quem o pode dizer? Nas trevas se envolvia
A infância do colosso. E quando acabaria?
Que audaz raio do céu, que convulsão fatal
Por terra lançará o enorme vegetal?
Mas, ai, o que a tormenta e o tempo não consomem,
Muitas vezes destrói a ousada mão do homem;
Em vão a tempestade incólume o deixou:
O golpe de um machado um dia o derrubou,
E ao braço do homem cai, dos homens o amigo.
Ouvi a narração do caso, que eu prossigo.
É pela madrugada! hora que a amar induz;
Todo é verdura o campo, o céu é todo luz.
O roble colossal no tronco encarquilhado
Sente a seiva girar. Das aves o trinado
Se ouve na espessa copa, e ao festival clamor
Respondem num sorriso a borboleta e a flor.
Como um velho entretido a ouvir cantar os netos,
Que lhe passam nas cãs os dedos desinquietos,
Assim ele também, vulto austero e senil,
Se compraz a escutar a música de Abril,
Os trinos e o bater das asas na folhagem,
A turba jovial, da infância alada imagem.
De súbito cessou das aves o cantar;
Param, olham com medo o chão, o bosque e o ar.
No seio da floresta um som vago se escuta,
Como o rugir do mar quando nas praias luta.
O roble estremeceu, ouvindo: “Que será?
Que sinistro rumor é esse?” - Perto já
Se distingue melhor. É um travar de vozes
De alguns homens do campo, alegres e velozes.

O roble sossegou, e às aves disse assim:
- “Podeis ficar sem medo aqui ao pé de mim,
São amigos que vêm, pobres trabalhadores,
Sobre quem eu estendo os ramos protetores,
Quando, durante a sesta, o sol ardente cai.
Aves, não receeis. Amigos são, cantai.
Vede, pararam já. Tenta-os a fresca selva,
O machado, o alvião [3] pousaram sobre a relva.
Vão descansar decerto. Ergueram para aqui
O olhar; a gratidão bem claro nele vi.
Cantai, aves, cantai nos ramos da floresta,
Enquanto eu lhes protejo a procurada sesta.”

Assim disse o carvalho às aves, mas em vão,
Que nenhuma a cantar inda se atreve então,
Ou, se alguma o tentou, emudeceu no meio,
Que só para gemer lhe deu vigor o seio;
Parecem pressagiar um vago e oculto mal,
Como quando no céu preveem temporal.
Mas já ordens se dão; preparam-se os obreiros;
Reparte-se a tarefa; exercem-se ligeiros;
Já tudo está disposto, e pronto a uma voz.
Eis se dá um sinal… rapidamente após,
De um dos homens do bando o industriado braço
Lança em volta do tronco traiçoeiro laço.
E as aves a tremer!... “Doidas!” Assim lhes diz
O velho, sacudindo a secular cerviz:
“Das crianças é este um usual brinquedo:
Embaladas assim nos braços meus, sem medo,
Em jogos infantis se aprazem. Não fujais.
Doidas que sois! Dizei, do que vos receais?
Vê-las-eis cedo vir, e o peso é tão suave,
Que me alegra! A criança é pouco mais que a ave.
Não aves, não fujais, que são vossas irmãs,
Ligeiras como vós, e como vós louçãs!”

Fez-se ouvir de repente um som rápido e seco,
Que teve na floresta um temeroso eco.
O tronco estremeceu. As folhas sem vigor
Caíram pelo chão, quais lágrimas de dor.
As aves a gemer, das frondes sacudidas
Fugiam em tropel como ilusões perdidas!
No tronco, em fundo golpe, o ferro penetrou;
A árvore, ao senti-lo, um pouco vacilou,
Mas depois disse ainda às pobres andorinhas
Ocultas, a tremer, nas árvores vizinhas:

- “Foi doloroso o golpe! útil porém talvez.
O destro rachador derruba muita vez
Algum ramo já velho, inútil parasita,
E à fecundante seiva o curso facilita.
Agora foi mais fundo, e rijo o golpe foi,
E perto da raiz. Por isso mais me dói!
Errou talvez ao dá-lo a mão inexperiente.
O golpe foi cruel. Se foi! mas inocente.”

Eis que, ao primeiro golpe, um outro se seguiu,
E outro, mais outro e outro; e o eco os repetiu,
E as aves a carpir [4] do velho amigo a sorte.
Não se ilude ele já; ferido pela morte,
Falece-lhe o vigor; das achas ao brandir
Vacila, geme e ondeia! E próximo a cair.
Prossegue no entretanto a abominável obra,
Da turba afadigada o vozear redobra,
No íntimo do lenho, o ferro ímpio, cruel,
As fibras despedaça. Os homens em tropel
Arredam-se a distância, a fim que os não esmague
O gigante ao cair, e moribundo pague
A morte que lhe dão sacrílega e atroz.
“À obra, à obra”, então alto soa uma voz,
E todos lançam mão da preparada corda.
A triste ave da noite à vozearia acorda,
Solta um lúgubre pio. Um frêmito sutil
Nas folhas passa ao roble. A brisa foi de abril
Que veio ali dizer-lhe a extrema despedida?
Beijá-lo a última vez, saudosa e comovida?
Oscila, geme ainda, estala-lhe a raiz,
Solta como estertor de morto. Ouvis?... Ouvis?

Inclina-se para a terra, em queda suave, lenta,
Desce… desce e, descendo, a rapidez aumenta.
Até que com fragor na relva ao longe cai
O roble secular! Homens, folgai! Folgai!
Retumba na floresta o som que fez na queda,
O fragor do trovão nos ares arremeda,
E as aves, levantando o voo alto e veloz,
Às nuvens vão contar o caso iníquo e atroz;
E com sentido pranto, e em queixas magoadas,
Choram-no pelo bosque as comovidas fadas.
E a obra do senhor às mãos do homem caiu!
E a vida secular numa hora se extinguiu.
E os obreiros do mal saem dali cantando.
Chega logo depois um turbulento bando
De crianças, que a rir, o tronco sem vigor
Calcam, brincando. E após em práticas de amor,
Voa rápido o tempo a amantes e a esposos
Que ali falando vêm. Depois, velhos, saudosos
Do tempo que passou por eles em comum,
Sentam-se a conversar. Mas deles, ai, nenhum
Uma lágrima tem para desgraças destas.
Homens, que mal vos fez o velho das florestas?

1867

NOTAS:

[1] Fronde: folhagem, ramagem. (CCA)

[2] Procela: tempestade. (CCA)

[3] Alvião: picareta. (CCA)

[4] Carpir: chorar, lamentar. (CCA)

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Júlio Dinis, autor do romance “As Pupilas do Senhor Reitor”, é o nome literário do escritor português Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Viveu 32 anos incompletos: tendo nascido em 14 de novembro de 1839, morreu em 12 de setembro de 1871.

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Veja em nossos websites os artigos “A Magia das Árvores”, “O Decálogo das Florestas” e “O Poder de Cura do Eucalipto”. Leia os poemas “A Primeira Árvore”, de Hermes Fontes, “Velhas Árvores”,  de Olavo Bilac, “O Hino das Árvores”, de Olavo Bilac, “Uma Semente”, de Afonso Lopes Vieira, e “A Oração das Árvores”. Este último pertence à tradição popular e não tem autor determinado. Sobre a teosofia dos bosques, há também o capítulo dois da obra “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Bodigaya, terceira edição, 2007), que é intitulado “Conversando com a Floresta”.

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