21 de julho de 2017

Como se Fortalece uma Decisão da Alma

O Compromisso Prático de Melhorar a Si Mesmo

Carlos Cardoso Aveline




Considera-se em geral que a vitalidade do movimento esotérico ou teosófico depende da pureza do compromisso dos seus membros, que em alguns casos envolve diretamente a alma do indivíduo e invoca a sua relação com a lei da justiça universal.

Se essa ideia é correta, sempre que quisermos discutir e avaliar a real força do movimento esotérico será necessário examinar a vitalidade dos compromissos e intenções dos teosofistas, começando pelo nosso próprio exemplo. Os votos podem ser formais ou informais, isso não importa.

Samuel Pufendorf afirma que “um juramento é feito para dar um forte apoio à nossa fala e a todas as ações que envolvem a fala”, porque “é uma afirmação religiosa, pela qual renunciamos ao nosso direito” à compaixão divina, e “chamamos pelo castigo divino se não estivermos falando a verdade”. [1]

“Um juramento”, diz ele, “faz com que se acredite que há sinceridade ao invocar uma testemunha e um juiz severo” - o nosso eu superior, um instrutor divino, a lei universal. Achamos difícil acreditar que alguém possa ser tão materialista que evoca para si mesmo - se podemos usar termos teosóficos - a retribuição negativa da lei universal. 

No entanto, afirma Pufendorf, não há uma compulsão real em um voto feito diante de uma divindade na qual não se acredita, e pela qual não há nem medo nem respeito. [2] O compromisso só será real se for feito enquanto evocamos como testemunha alguma forma de inteligência divina na qual sinceramente acreditamos.

Pufendorf acrescenta:

“Esta é também a razão pela qual, se o indivíduo jura por falsos deuses que considera deuses autênticos, ele está indubitavelmente comprometido pelo voto, e se quebrar o seu compromisso estará de fato cometendo perjúrio.  Porque era a noção geral da divindade que ele tinha diante de si, sob qualquer forma externa particular; e portanto, ao cometer conscientemente perjúrio ele destrói, no que depende dele, a reverência [que deve haver diante do mundo divino].” [3] 

Como poderíamos explicar então o fato de que desde os anos 1880 muitos teosofistas romperam a promessa interior feita a si mesmos, embora ao fazê-la tenham invocado a presença secreta da Lei universal, e dos seus próprios níveis superiores de consciência?

Em tais circunstâncias, talvez seja inevitável deduzir que eles não acreditavam de fato na Lei, e não tinham uma ligação consciente suficientemente forte com os seus próprios eus superiores. Como resultado, o compromisso não tinha valor real, ou valor prático, para eles.

A vida é um professor severo. Não há dúvida sobre isso. No entanto os fracassos sempre podem ser curados, enquanto houver sinceridade consigo mesmo. E ainda quando o cenário de curto prazo for desfavorável, cabe lembrar que outras oportunidades se apresentarão em vidas futuras.

A Substância de um Compromisso

Para que sejam reais, o juramento, o voto e a palavra de honra devem ser pronunciados com uma intenção deliberada, afirma Pufendorf.

“...O cidadão certamente não fica ligado a um juramento”, acrescenta o pensador alemão, “se ele apenas o enuncia ao lê-lo ou pronuncia as suas palavras (na primeira pessoa do singular) na presença de outro indivíduo. Mas aquele que faz o procedimento externo de assumir seriamente um compromisso estará com certeza ligado ao voto por uma obrigação, seja o que for que estivesse passando pela sua cabeça enquanto ele assumia o compromisso. Porque toda a utilidade do voto na vida humana seria destruída, e desapareceriam todos os meios de alguém comprometer-se a uma obrigação pelo uso de palavras e símbolos, se uma tácita atitude de reserva pudesse evitar que a ação produzisse aqueles efeitos que é realizada para provocar.”

Pufendorf diz que os votos não criam qualquer obrigação nova, ou adicional. Funcionam como reforço de alguma obrigação que deve ser válida em si mesma. Nenhum voto de cometer ações erradas é legítimo. O efeito de um compromisso solene é anulado se o peregrino descobre que a ação a ser feita é fraudulenta, desonesta, ou moralmente errada.

Por outro lado, o juramento deve dar mais força a um dever viável, e não a alguma tarefa impossível.[4] Em filosofia, a consciência interna de cada um é o principal juiz das suas ações, dos seus compromissos e dos seus esforços para alcançar uma meta sagrada.

O Carma irá operar como uma lei de ação e reação diante de tudo o que eu faça nos níveis visíveis e invisíveis da vida. No entanto, cabe a mim ser responsável por meus compromissos, e nenhuma autoridade externa pode substituir minha responsabilidade no que diz respeito ao caminho espiritual. A prática jesuítica de obter autoridade sobre pessoas ao induzi-las a fazer votos religiosos não pode ser aceita em teosofia. O peregrino deve ser corretamente informado sobre a natureza e as implicações de assumir um sério compromisso consigo mesmo e com os seus níveis superiores de consciência. No entanto, nenhuma “autoridade” pode tomar uma decisão pelo peregrino em tais questões. Ninguém tem o direito de induzi-lo a esta ou aquela escolha. [5]

Naturalmente, a energia transformadora de um compromisso espiritual é bastante forte. Ela sacode as estruturas da rotina e do carma passado do indivíduo.

Administrar as ondas magnéticas de testes não é uma tarefa simples. A preservação da pureza e da força da decisão de expandir o contato com o eu superior requer um tipo específico de conhecimento prático. A partilha da experiência acumulada por diferentes peregrinos em várias circunstâncias pode ser útil a aqueles que conhecem a lei inevitável da autorresponsabilidade.

Uma Intenção que Renasce

A experiência histórica mostra que tanto no movimento teosófico como nos outros aspectos da vida, as decisões individuais baseadas em altruísmo precisam ser renovadas com regularidade.  

O compromisso no sentido de melhorar a si mesmo requer uma luta diária contra velhos hábitos, individuais e coletivos. Queiramos ou não, a estrutura das relações profissionais mudará de dentro para fora. As relações familiares e as amizades serão testadas e alteradas. A transfiguração é às vezes lenta, outras vezes súbita. O caminho do conhecimento divino abrange todas as dimensões da vida e traz formas desconfortáveis de mudança externa.

O progresso é com frequência invisível, enquanto os obstáculos chamam facilmente a atenção. Várias formas anuais e diárias de renovar a decisão sagrada podem ser praticadas de modo a gradualmente fortalecer a vontade.  

A obediência cega e o mero apego a este ou aquele procedimento ritualista serão basicamente inúteis. A semente de sabedoria - o compromisso de agir com intenção correta - deve ser preservada e protegida de formas constantemente renovadas.

Não há um manual de instruções sobre como administrar a vida depois que é tomada a decisão de buscar a sabedoria divina. A paciência de uma tartaruga é tão necessária quanto a velocidade de um relâmpago. O que fazer e como agir depende de muitos fatores. Em qualquer ocasião, o aprendizado da alma é mais importante que as atividades externas. O êxito ou fracasso no reino das aparências não significa coisa alguma para o compromisso interior. A derrota pessoal pode trazer lições sagradas. As vitórias com frequência abrem a porta para a indulgência e o fracasso.

Deixar de lado o apego ao conforto e concentrar-se no trabalho diante de si é algo decisivo para quem deseja preservar a sua lealdade à meta do autoaperfeiçoamento. Dois fatores ajudam o peregrino a permanecer humilde e a aumentar a sua capacidade de aprender: um deles é reconhecer a inutilidade de alguns sentimentos pessoais. O outro é praticar a auto-observação desde o ponto de vista da sua potencialidade sagrada.

O autoesquecimento purifica o modo como alguém olha a vida e prepara a alma para aprender a filosofia do altruísmo universal. No entanto, nada no caminho é tão fácil como o peregrino poderia esperar.

Durante muitos anos, depois da sua decisão de fazer o melhor possível, ele terá de identificar pacientemente e neutralizar a energia do egoísmo infiltrada nas suas intenções nobres, e nas de outras pessoas. O mesmo acontece com os seus próprios sentimentos altruístas e pensamentos elevados, e com os daqueles que o rodeiam. “Ninguém é inteiramente seu amigo, ninguém é inteiramente seu inimigo, todos são seus professores de um modo ou de outro”, diz a filosofia esotérica.

A ignorância espiritual se disfarça constantemente sob a aparência de uma profunda autenticidade. Nos indivíduos, assim como em grupos esotéricos e instituições religiosas, a deslealdade à alma espiritual usa centenas de máscaras elegantes. Cada vez que o peregrino sente orgulho do seu progresso, uma campainha de alarme deveria tocar para ele. Quando o desânimo surge, cabe lembrar das razões para estar feliz com a decisão de longo prazo de buscar o autoaperfeiçoamento.

Década após década, enquanto o peregrino pratica a arte de agir de modo correto, um velho Eu gentilmente morre, e o futuro Eu ganha terreno passo a passo. 

Este tipo de ressurreição avança a cada minuto e a cada hora. E também inclui várias encarnações, à medida que a Alma lentamente desenvolve um processo de unidade consciente com a lei universal.

NOTAS:

[1] Do livro “On the Duty of Man and Citizen According to Natural Law”, de Samuel Pufendorf, Cambridge University Press, Reino Unido, 1991, 183 pp., ver p.  80.

[2] “On the Duty of Man and Citizen According to Natural Law”, pp. 80-81.

[3] “On the Duty of Man and Citizen According to Natural Law”, p. 81.

[4] “On the Duty of Man and Citizen According to Natural Law”, pp. 81-82.  

[5] Veja em nossos websites associados os artigos “A Força de um Compromisso Sagrado”, “A Fraude da Escola Esotérica”, “Pledges in Theosophy, Real and Phony”, e “Whether Crosbie Broke His Vows”.  

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Veja também os artigos “A Escada de Ouro”, “A Motivação Correta”,  “Comentários à Escada de Ouro”, “As Sete Cláusulas de um Compromisso”, “O Significado de um Compromisso”  e “Examinando Sete Perguntas”.  Todos estão disponíveis em nossos websites associados. 

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19 de julho de 2017

O Valor das Coisas e das Pessoas

Onde Está o Teu Tesouro, Ali Está o Teu Coração

Carlos Cardoso Aveline




Indivíduos diferentes valorizam coisas diferentes, é claro.

Ainda quando veem valor nas mesmas coisas, na maior parte das vezes eles atribuem tipos diferentes de valor àquilo que apreciam em comum.

Por que motivo uma floresta tem grande valor para você: é por causa do preço da madeira? Talvez você valorize as árvores por outras potencialidades econômicas, mais corretas desde o ponto de vista ecológico.

Será que a floresta é valiosa para você porque ela desempenha papel central na preservação da vida tal como a conhecemos nesta civilização?

Ou talvez a floresta possua valor em si mesma, independentemente dos muitos usos práticos que ela tenha para a humanidade e demais espécies de seres vivos? Sabemos também que todos os níveis de valor de um objeto coexistem: é preciso saber a ênfase e o peso relativo de cada nível de apreciação.

Além do valor real de uma floresta, outros exemplos são possíveis e merecem ser examinados. As várias formas de valor são vistas desde diversos níveis de consciência. A importância física de algo pode ser muito diferente da sua importância emocional, ou mental, ou espiritual.

A profundidade do respeito que temos pelos outros seres depende do ponto de vista desde o qual a vida está sendo olhada. Você mede o seu próprio valor pelo número de aparentes amigos que você tem, ou pela firmeza da aprovação que você recebe da sua própria alma e da sua consciência?

A sua autoestima depende do poder de compra do seu cartão de crédito, e da quantidade de aplauso e elogios que você recebe todo mês? Há maneiras mais inteligentes de viver.

A ciência da ética fala de dois grandes níveis de valor.

No nível instrumental ou utilitário, a sua vida é importante porque você ajuda pessoas, é útil para a sociedade e faz bem ao seu país.

Sua esposa o faz feliz de várias maneiras; ela é extremamente valiosa. Seus filhos são parte da sua felicidade. Seus amigos, seus colegas, sua nação e mil outros fatores da vida contribuem para o seu contentamento; portanto são valiosos para você. E também o calor dos raios de Sol no inverno, a beleza de um pássaro que voa e a sombra de uma árvore no verão.

Neste nível do ser, o valor é instrumental. Se você for incapaz de ir além desta dimensão do valor, estará ainda fundamentalmente cego e surdo para a beleza da vida.

A sua esposa tem um valor intrínseco: a importância dela não pode ser medida pela quantidade de contentamento que ela faz você experimentar.

O mesmo se aplica aos filhos e à nação.

É pouco inteligente ter respeito pelas outras pessoas apenas na medida em que elas concordam com você. A função dos outros seres na sua existência não é fazer as suas vontades todas. Através deles, a Vida ensina a você várias maneiras de melhorar a si próprio.

Quando vemos o valor intrínseco de uma floresta, de uma nação, da amizade ou da capacidade de ser humilde, reconhecemos as dimensões elevadas e nobres do valor instrumental.

As duas coisas são inseparáveis.

É um privilégio ser útil ao crescimento interior dos outros. Nossos deveres são tanto materiais como espirituais. Há uma bênção em ter profundo respeito pelos nossos cocidadãos, e pelas florestas, pelos habitantes das florestas e por todos os seres.

Neste processo, nos tornamos irmãos conscientes Daqueles que estão muito mais adiantados que a nossa humanidade e no entanto mantêm um contato sutil com os seres humanos, para garantir que eles trilham o caminho da ética universal.

A Teosofia Segundo Jesus

Em todas as épocas, pensadores independentes apontaram sempre o rumo da evolução da alma. Desde o século 19, muitos têm questionado o sistema de valores de uma sociedade cujo verdadeiro deus - o centro da vida das pessoas - é o dinheiro.

Quando os valores materiais são vistos como o fator decisivo na vida, os valores morais e religiosos constituem uma questão de mera aparência, um disfarce para a ambição pessoal, um instrumento a serviço do egoísmo.

Erich Fromm mostrou a necessidade da escolha entre “ter” e “ser”. É evidente que em teosofia, coisas como liderança política, dinheiro, poder corporativo e posses materiais não têm importância em si mesmas. Elas não produzem real felicidade ou contentamento. No Evangelho segundo Mateus, Jesus ensina a teoria do valor adotada em teosofia clássica:

“O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, para aproveitar o tesouro, ele vende tudo quanto tem e compra aquele campo. E também o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; e que, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.” (Mt., 13:44-46)

Aquele mestre judeu, que nunca quis fundar uma igreja e menos ainda uma igreja luxuosa, ensinou também:  

“Não tentes reunir tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões dominam e roubam; mas reúne tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não dominam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt., 6:19-21)

O mesmo ensinamento é encontrado no Dhammapada e outras escrituras.  

Ao deixar de lado o apego a posses visíveis (dinheiro, aplauso, poder), o peregrino pode alcançar o tesouro celestial e invisível, o tesouro permanente, e também a pérola eterna da sabedoria universal.

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 

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18 de julho de 2017

A Agricultura do Espírito

Teosofia Ensina a Plantar
Ideias Novas em Lugares Limpos

Joana Maria Pinho




A vida simples que muitos ouvem seus pais e avós descreverem enquanto partilham momentos de família parece, por vezes, estar distante do tempo atual.

Porém poucas gerações nos separam da época em que a vida, apesar de apresentar dificuldades, tinha um ritmo humano e natural. A Terra e os mais velhos eram respeitados. O trabalho trazia valor. A disciplina era uma aliada da educação e do progresso.

Os indivíduos estavam mais próximos do ciclo solar e orientavam suas vidas não só pelo mapa da Terra, mas também pelo mapa do céu. As pessoas viviam o tempo, e o tempo não corria à sua frente como parece ocorrer atualmente em grande número de casos.

Hoje vive-se ao ritmo das máquinas, e a ditadura consumista está presente um pouco por todo o mundo. Produz-se e consome-se a um ritmo demasiado rápido. Este é o tempo dos bens e das relações descartáveis.

Apesar de existirem homens e mulheres que moldam sua personalidade conforme os acontecimentos externos, um número expressivo de indivíduos faz da verdade uma força que comanda suas vidas.

Carlos escreveu:

“O nosso dever é construir solidariamente uma cultura em que a sinceridade possa ser tolerada.”[1]

Uma vida simples abre espaço para que essa construção se expanda. A calma é fonte de entendimento e de comunhão com a verdade. À medida que avançamos no cultivo da tranquilidade, o autocontrole, o autoconhecimento e o autorrespeito amadurecem como frutos do esforço.

A mãe Terra alimenta nossos corpos físicos e dá-nos abrigo. Tudo o que precisamos no nível físico da existência é produzido por ela em conjunto com a vasta comunidade de seres minerais, vegetais, animais e humanos que a habitam. Os astros e as inteligências divinas auxiliam o processo de plantio e colheita. Assim como a Terra é um imenso ecossistema composto de diversos e pequenos ecossistemas, podemos vê-la como parte de um ecossistema ainda maior, o ecossistema universal.

O planeta alberga uma humanidade complexa e cada vez mais numerosa. Há muito que se estuda a capacidade de a Terra gerar alimento e recursos suficientes para satisfazer toda população. É hora de os indivíduos de boa vontade fortalecerem o altruísmo. Concentrando mente e coração naquilo que é correto, criamos soluções para os desafios presentes. 

A generosidade rege a existência. Enquanto o ser humano respeitar o planeta e a Vida, enquanto ele se guiar pela simplicidade, pela partilha e ajuda mútua, não faltará aos indivíduos o que eles necessitam para viver dignamente.

O problema não está na Terra, assim como o mal não está no Universo, mas surge do egoísmo. Um Mahatma escreveu:

“O verdadeiro mal surge da inteligência humana e sua origem está inteiramente no homem que raciocina e que se dissocia da Natureza. Só a humanidade, portanto, é a verdadeira fonte do mal. O mal é o exagero do bem, produto do egoísmo e da ganância humanos.” [2]

As sociedades estão muito focadas no crescimento econômico e material e pouco concentradas no desenvolvimento espiritual dos indivíduos. Isso é visível na dinâmica familiar de grande parte das famílias. Nada de material pode faltar às crianças. Dá-se tudo e mais alguma coisa, como se a felicidade das crianças dependesse do consumo de bens. Com isso os adultos tentam que os objetos façam o papel que eles próprios devem cumprir: acompanhar as crianças, e estimular nelas o melhor.

Precisamos educar e ser educados acima de tudo para a vida, e isso significa aprender e participar da agricultura do espírito. “Não só de pão vive o homem” (Mt 4: 4). É necessário despertar para a vida interior e para as necessidades espirituais do ser humano.

Farias Brito explica:

“…O conhecimento está para o espírito, como a nutrição para o corpo. (…) Há, pois, um pão do corpo e um pão espiritual. (…) Devemos trabalhar pelo conhecimento, pois é pelo conhecimento que o espírito se conserva e desenvolve.” [3]

O conhecimento sobre o qual Brito escreve é o saber alcançado pelo amor à verdade. O ser humano cresce em sabedoria caminhando com ética pela Terra ao mesmo tempo que eleva a consciência até o infinito. Para que a alma se expanda, precisamos nutri-la. O alimento para o corpo é produzido na Terra, enquanto o alimento da alma se cultiva no Céu, símbolo do eu superior.

As almas infantis esperam que alguém as alimente, já as almas maduras plantam e colhem seu próprio alimento.

“Luz no Caminho” ensina:

“O homem que quiser viver e agir na vida superior não pode ser alimentado com uma colher, como um bebê. Deve alimentar-se por si mesmo.” [4]

Mais do que alimentar a si mesmos, os agricultores do espírito alimentam o mundo, seguindo o conselho dado em “Luz no Caminho”:

“Não desejes plantar sementes para a tua própria colheita; deseja apenas plantar para que surjam frutos que alimentem o mundo. Tu és parte do mundo; ao alimentares o mundo, tu te alimentas.”[5]

O cultivo do espírito dá-se no território do autoesquecimento e da impessoalidade.

Os estudantes de teosofia que se esforçam por vivenciar os ensinamentos são alquimistas da natureza humana e agricultores do espírito. Os Mestres de Sabedoria dão indicações preciosas sobre o tema, entre as quais destaco as seguintes:

* “Ideias novas têm de ser plantadas em lugares limpos (….).” [6]

* “…O dever do teosofista é como o do agricultor; abrir os sulcos e semear os seus grãos da melhor maneira possível: o resto é com a natureza, e ela é a escrava da Lei”. [7]

* “Semeie grãos saudáveis e escolha seu solo, e o futuro o recompensará com colheitas inesperadas. Tenha fé, meu Irmão, e quando menos esperar seus olhos podem abrir-se para uma visão tão gloriosa que deslumbraria qualquer mortal comum.” [8]

* “Você criou felicidade, e felicidade será criada para você. A semente crescerá e florescerá e, sob a sombra benéfica do arbusto celeste plantado por suas próprias mãos, você mesmo sentará um dia (…).” [9]

* “…Doces serão os frutos da planta celeste da Compaixão e da Caridade.” [10]

* “…Um grão produzirá uma enorme quantidade na hora da colheita.” [11]

Sabemos das vantagens da agricultura biológica. Frutas e verduras livres de pesticidas químicos são fonte de saúde. Também na agricultura do espírito deve ser deixado de lado o uso de qualquer tipo de veneno, como a vaidade, a inveja, entre outros.

No cultivo que respeita a vida, as pragas agrícolas são combatidas usando métodos naturais e que preservam o meio ambiente. Assim, para se combater a ignorância deve ser usado o conhecimento, e ao orgulho pode-se aplicar a humildade.

Na ausência de atenção, a erva daninha do egoísmo pode invadir  até as plantações mais produtivas. Devemos arrancar essa erva pela raiz, com cuidado para que não caiam sementes na terra. “Luz no Caminho” ensina:

“Não vivas no presente nem no futuro, mas no eterno. Esta erva daninha gigantesca [do egoísmo] não pode florescer lá; a sua mancha na existência é eliminada pela atmosfera do pensamento eterno.” [12]

Há muito por pesquisar sobre a sabedoria milenar do cultivo da virtude. A vida de cada estudante é um laboratório alquímico. Sua existência, quando vivida como um terreno fértil de gratidão e de compromisso com o eu superior, gera a experiência necessária para que se cultive com responsabilidade o altruísmo.

Não vale a pena deixar para amanhã o que pode ser feito hoje. Plantar o bem hoje e sempre é fonte de paz. O plantio da sabedoria traz a vitória da Luz. 

NOTAS:

[1] Do texto “As Palavras Verdadeiras”, de Carlos Cardoso Aveline, que está disponível em nossos websites associados.

[2] Palavras de um Mahatma citadas no texto “A Vida Toda é Bela”, de Carlos Cardoso Aveline. Publicado em nossos websites.

[3] “Ensaio Sobre o Conhecimento”, texto de Farias Brito, p. 16. Veja em nossos websites.

[4] “Luz no Caminho”, de M.C.; tradução, notas e prólogo de Carlos Cardoso Aveline, The Aquarian Theosophist, 2014, 85 pp., p. 40.

[5] “Luz no Caminho”, de M.C., The Aquarian,  p. 83.

[6] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília,  vol. I, Carta 12, p. 87.

[7] “Cartas dos Mahatmas”, vol. II, Carta 111, pp. 206-207.

[8] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, segunda série, Carta 10, p. 181.

[9] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, segunda série, Carta 7, p. 175.

[10] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília,  segunda série, Carta 14, p. 186.

[11] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, segunda série, Carta 11, p. 183.

[12] “Luz no Caminho”, de M.C., The Aquarian Theosophist, p. 21.

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Veja também, em nossos websites associados, o artigo “Raja Ioga na Parábola do Semeador”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável

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12 de julho de 2017

O Teosofista - Julho de 2017





O pensamento de abertura da edição de julho afirma:

“Mais importante do que exigir alguma coisa é dar o exemplo.”

Na capa temos o início de um artigo sobre o papel da boa vontade na construção de um país, que vai até a página três. Em seguida, uma nota sobre a relação entre “O Espírito e as Circunstâncias”.

Na página quatro, temos “Vivendo a Luz Espiritual”. O tema “O Exagero é o Começo do Fim” é abordado na página cinco. À p. seis, “O Poder do Agora e o Processo do Carma”.

Estes são outros assuntos abordados em “O Teosofista” de julho:

* A Lei Que Rege o Nosso Globo;

* A Respiração das Florestas e o Ar Que os Humanos Respiram;

* A Decisão de Pensar Por Si Mesmo;

* Olhando Além da Ilusão;

* Ideias ao Longo do Caminho;

* Ensinamentos de um Mahatma: trechos das Cartas do Mestre de Helena Blavatsky; e

* Examinando a Tradição Popular: a Lenda das Cegonhas.

A edição tem 17 páginas e inclui a lista dos textos publicados recentemente em nossos websites.



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5 de julho de 2017

Preparando o Ponto Ômega

Quando as Linhas Positivas do Carma Convergem

Carlos Cardoso Aveline




Nas cartas dos Mestres de Sabedoria, um Mahatma dos Himalaias menciona as “linhas convergentes do carma” daqueles que partilham o esforço teosófico. [1]

O Carma tem inúmeros níveis ou linhas de acumulação. Elas podem avançar em direções diferentes ou podem convergir, de acordo com a energia dos ciclos individuais e coletivos.

O movimento teosófico tenta ser um núcleo e um ponto de encontro para aqueles que percebem o futuro humano como algo luminoso, e trabalham para tornar mais fácil o nascimento de uma civilização melhor. Este ponto de encontro não é burocrático: a sua substância é feita de uma afinidade superior e de ação altruísta.

Milhares de cidadãos de boa vontade vivendo em diferentes circunstâncias e em países e condições sociais contrastantes podem partilhar a mesma visão de mundo e alimentar a intenção comum de cooperar abrindo caminho para um futuro melhor da humanidade. As linhas individuais do nível superior do carma deles então convergem.

Falando em termos gerais, deste modo é preparado um certo nível do Ponto Ômega. Naquele “instante” especial do tempo, sobre o qual Pierre Teilhard de Chardin escreveu no século vinte, a centelha da fraternidade se transformará na chama da compreensão e a humanidade poderá despertar para a prática da ética universal.

Teilhard de Chardin escreve:

“… Devemos reconhecer a probabilidade rapidamente crescente de que estejamos nos aproximando de um ponto crítico em maturidade, no qual o ser humano, agora voltando-se por completo sobre si mesmo, tanto individual como coletivamente, terá alcançado ao longo do eixo da complexidade (e isso com toda a força do seu impacto espiritual) o limite extremo do mundo. E é então, se quisermos atribuir uma direção significativa à nossa experiência e enxergar até onde ela nos leva, que, segundo tudo indica, seremos obrigados a olhar naquela direção, para finalmente completar o fenômeno, a chegada definitiva do pensamento da Terra ao que chamei de Ponto Ômega.” [2]

Quando diferentes linhas de ação mental e emocional se reúnem no mesmo ponto elevado, a Concentração ocorre. O processo das “linhas convergentes do Carma” é, portanto, igualmente individual e coletivo.

Se alguém passa, digamos, quatro décadas ou quatro encarnações procurando pela sabedoria e sem obter resultados significativos, haverá um momento em que as inúmeras tentativas apontando para a mesma meta sagrada finalmente encontrarão umas às outras, expandindo-se mutuamente e transmutando-se todas em uma espécie de Ponto Ômega da linha de tempo de uma existência individual, ou ponto de esclarecimento da linha cronológica maior, que inclui diversas encarnações.

Este é um “momento eterno”.

O passado e o futuro se encontram em uma percepção transcendente de tudo o que aconteceu e acontecerá. A sabedoria é alcançada, e o peregrino passa por uma transformação substancial. Este é o motivo pelo qual se diz que nenhuma tentativa nobre é perdida jamais ao longo do caminho do conhecimento divino. Todas elas são passos preparatórios e são úteis.

No momento certo as unidades de energia latente de incontáveis tentativas passadas finalmente se reúnem devido à lei das “linhas convergentes do carma”. Elas então produzem Iluminação de acordo com o mérito acumulado pelo eu superior do peregrino. E algo semelhante ocorre nos aspectos coletivos da evolução humana. Cada fracasso é uma lição a ser compreendida em seu devido tempo, cada derrota ajuda a abrir caminho para a alma na direção da grande vitória, e o inverno mais rigoroso é uma porta a ser aberta no momento certo para a próxima primavera.

NOTAS:

[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 4 da primeira série.

[2] “Let Me Explain”, Teilhard de Chardin, textos selecionados e editados por Jean-Pierre Demoulin, um volume publicado por Collins, Londres, Reino Unido, 1970, 192 pp., ver p. 56. Leia também os livros “Em Outras Palavras”, de Teilhard de Chardin, Martins Fontes, SP, 2006, especialmente pp. 38-41, e “The Future of Man”, Teilhard de Chardin, publicado por Collins Sons, New York - London, 1964.

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Uma versão inicial do artigo acima foi publicada na edição de novembro de 2016 de “O Teosofista”, p. 12.

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