24 de agosto de 2016

O Futuro da Sociedade de Adyar

A Crise Institucional de 2007-2011
Abre Espaço Para Uma Renovação Profunda

Carlos Cardoso Aveline

Todas as portas se abrem, diante da lei do Carma  



“O segredo enganoso tem dado o
golpe mortal  em numerosas organizações.”

Um Mestre de Sabedoria [1]



Não há nada novo sob o Sol. A vida evolui em ciclos. Cada ação, certa ou errada, tem resultados naturais, que só podem ser postergados por um prazo limitado - antes de aparecerem à porta dos seus responsáveis.

Na Sociedade Teosófica de Adyar, Annie Besant obteve poder político nos anos 1890 graças ao fato de abandonar o caminho estreito e íngreme que leva à verdade, e que foi ensinado por Helena Blavatsky e os Mestres de Sabedoria.[2] O bom senso foi deixado de lado e, desde então, a lei do carma tem estado batendo na porta da Sociedade de Adyar com intensidades variadas.

Depois de diversas crises, que incluíram farsas messiânicas como um “retorno de Cristo” e outros eventos ainda piores, o sr. C. Jinarajadasa inaugurou em 1934 um ciclo de 70 anos de relativa estabilidade, que trouxe a Sociedade de Adyar até 2004. Neste ano, as batidas na porta ficaram outra vez mais fortes.

Foi em dezembro de 2003 que o dr. John Algeo, enquanto ainda era vice-presidente internacional de Adyar, publicou como autêntica uma coleção de maledicências contra a sra. Helena Blavatsky. Como agravante, tentou fazer o público acreditar que se tratava de confissões escritas por H.P.B. O fato funcionou como um acelerador cármico para o movimento todo, porque o forte magnetismo de H.P.B. - uma Iniciada - constitui o centro definitivo da aura do movimento teosófico.

Em resposta a uma carta minha, a presidente da Sociedade de Adyar admitiu em 2004 que os textos publicados pelo dr. Algeo eram “obviamente espúrios”. A sra. Radha Burnier (1923-2013) explicou que não havia sido consultada nem avisada sobre a sua publicação. Porém, ela absteve-se de tomar medidas práticas contra as falsificações promovidas pelo dr. Algeo.

Como resultado disso, em 2007 John Algeo estava ainda mais autoconfiante quando começou a sua operação para promover um “golpe de estado eleitoral”. Essa vez, a sua meta era derrubar a sra. Radha da presidência internacional da Sociedade. Ele foi derrotado. O fracasso, no entanto, foi apenas parcial, porque a crise institucional criada por ele ganhou raízes e se alastrou.  

1. Os Efeitos Destrutivos do Segredo Enganoso

A crise de poder provocada pelo dr. Algeo não chegou  a uma profundidade suficiente para que os líderes da Sociedade abram a porta para uma visão mais inteligente da Verdade e da lei do Carma. No entanto, nenhuma porta pode permanecer fechada diante da Lei.    

A política do segredo enganoso - inspirada por uma visão ingênua da teosofia - tem sido a tradição desde a morte de H. P. Blavatsky, em 1891. Como resultado disso, as batidas na porta - que ocorrem através de fatos - têm crescido gradualmente de intensidade. Desde 2008, as próprias paredes da Sociedade de Annie Besant estão estremecidas. A velha política segundo a qual a verdade deve ser aceita apenas quando é politicamente lucrativa já não é eficiente como meio de controlar e manter o poder político.

De acordo com alguns teosofistas de Adyar, o fato de que Radha Burnier foi a sétima pessoa a ocupar a presidência desde a fundação da Sociedade em 1875 conclui um ciclo setenário da casca externa e burocrática do movimento concebido por Annie Besant. Há um vácuo espiritual oculto sob a crise de poder. A situação desconfortável enfrentada pelos teosofistas de Adyar (e de outras agrupações) é mais profunda do que o seu aspecto político.

2. Contribuindo para o Processo Aeróbico

Por que motivos os websites independentes devem discutir a crise e a luta por poder ocorrida na Sociedade de Adyar?

Em primeiro lugar, a teosofia necessita um campo probatório em que as pessoas possam testar conscientemente o ensinamento em suas vidas e em seu trabalho. O movimento teosófico constitui este campo magnético, e a importância de Adyar é inegável para isso. Em todo o mundo, cerca de 80 a 90 por cento dos indivíduos que se consideram teosofistas estão de algum modo ligados a Adyar. De certo modo, a Sociedade de Adyar é decisiva para o movimento como um todo, na sua dimensão externa e visível. A exceção corre por conta daquele núcleo pequeno, interno, intangível, que reúne trabalhadores teosóficos cuja visão transcende toda forma externa.

Em segundo lugar, transparência é veracidade. Um diálogo honesto e um exame sincero das premissas e dos pontos de vista adotados são fatores importantes para quem quiser ter uma visão minimamente clara sobre o futuro do movimento.

As correntes cármicas de ação e reação seguem padrões similares na mente e na natureza. A decomposição anaeróbica de poluição orgânica nas águas de um rio estagnado tem mau cheiro por causa da ausência de oxigênio. A decomposição aeróbica de um rio com águas em movimento não provoca mau cheiro por causa da presença significativa de oxigênio.

No plano mental, a transparência e a veracidade são o oxigênio. A transparência permite que as pessoas vejam através das águas. Ela torna a vida possível nos rios e também nas mentes. É por isso que o lema do movimento teosófico afirma o fato simples e fundamental de que não há religião (ou política) mais elevada que a verdade. A vida é imperfeita, mas ela pode ser melhorada na medida em que houver boa-fé e abertura mental. Os teosofistas devem ser capazes de discutir os seus problemas abertamente. Caso contrário, serão escravos da astúcia, do engano e do jesuitismo. É um fato que as organizações costumam tomar medidas para sua autoproteção. Seus líderes frequentemente pensam que podem protegê-las impondo silêncio, mas a eficiência desta tática não dura muito tempo. A vida do movimento deve se discutida amplamente, sobre a base de um respeito compartilhado pela verdade - e pelo dever comum. 

Em terceiro lugar, não se pode dizer que a crise de Adyar é um assunto limitado aos seus membros. É muito tarde para pensar deste modo. Quaisquer muros que pareçam existir entre esta ou aquela associação são ilusórios. Sob as aparências de divisão institucional, o movimento é um só. Os líderes teosóficos devem ser capazes de vencer o medo político. A lógica das organizações não é a lógica da verdade, e é necessário fazer uma opção entre a vida interna do movimento e a sua casca externa.

3. Uma Crise de Luta Pelo Poder

Às vésperas do Congresso Mundial da Sociedade de Adyar em Roma, em julho de 2010, a sra. Betty Bland, seguidora de John Algeo e na época presidente da Sociedade nos Estados Unidos, organizou um encontro informal com alguns membros do Conselho Geral, isto é, a assembleia de secretários gerais ou presidentes em cada país.

A sra. Bland discutiu a situação com os líderes de Adyar na França, na Alemanha, na Suécia, na África do Sul, na Finlândia e em Portugal. O grupo decidiu questionar oficialmente a validade da eleição da sra. Linda Oliveira para a vice-presidência internacional, que ocorreu em 29 de outubro de 2008.

Pouco depois do Congresso de Roma, a sra. Betty Bland escreveu o seguinte na revista “Quest”, da ST de Adyar nos Estados Unidos:

“Enquanto eu estava lá [em Roma] tive a oportunidade de me reunir com a nossa presidente internacional da S.T., Radha Burnier. Embora frágil, ela manteve uma atitude surpreendentemente forte. Nossa conversa foi cordial, mas aparentemente ela foi influenciada por acusações maléficas que têm circulado pela Internet contra a seção norte-americana e especialmente contra mim. Seja como for, tivemos um bom diálogo e nos separamos em paz.” [3]

Uma pessoa experiente fez um resumo da situação. Com a condição de permanecer no anonimato, para evitar uma vingança política, foi-nos dito o seguinte em 2010:

“A conspiração contra a sra. Radha Burnier começou em 2007, envolvendo vários diretores internacionais da Sociedade e secretários gerais de vários países. Numa tentativa de tomar a presidência internacional, eles disseminaram falsas afirmações sobre a saúde da Presidente. Eles fracassaram, porque suas mentiras logo foram reconhecidas como tais. Mas não pararam de conspirar. Betty Bland e os seus apoiadores estão buscando agora novas metas.”

A mesma pessoa acrescenta:

“Aqueles que espalharam falsos rumores sobre a saúde da sra. Radha destruíram, moralmente, a sua condição de teosofistas. Os e-mails que eles mandaram para centenas de membros em todo o mundo eram parte de uma tentativa de destruir a própria substância da fraternidade dentro da ST.”

Enquanto isso, a oposição política, liderada pelos secretários gerais dos sete países indicados acima, está preparando pelo menos um candidato para a vice-presidência e, no futuro, para a presidência. O pré-candidato é o sr. C.V. K. Maithreya, que pertence a uma tradicional família de teosofistas na Índia. O sr. Maithreya tem vínculos com a Ordem Teosófica de Serviço (O.T.S.).  

A sra. Betty Bland, a sra. Kim Dieu (presidente da Federação Europeia), e a sra. Susan Kachula (presidente da ST na África do Sul) estavam na época entre os líderes mais ativos da oposição entre 2008 e 2010.

4. O Desafio de 2007-2011

Em 2011, a força da oposição já não era suficiente para obter quaisquer vitórias de curto prazo. Seus líderes provavelmente desejavam fortalecer suas posições com vistas ao futuro. É bem conhecido o fato de que, para muitos líderes de Adyar, os seus rituais maçônicos são muito mais “ocultos” que a Sociedade.

Não se passaram muitos anos desde que John Algeo e alguns dos seus apoiadores mais próximos provocaram a primeira dissidência por disputas de poder na “maçonaria teosófica” desde os tempos de Annie Besant. O dr. Algeo teve a bênção da sra. Radha para cumprir um papel central naquele “racha”, um processo - conforme se pode deduzir - que inegavelmente abriu uma fenda na aura magnética da Sociedade de Besant.

O ritualismo envolve grande quantidade de elementais, a maior parte dos quais é nociva à verdadeira teosofia na atual etapa da evolução humana, segundo H. P. Blavatsky advertiu. A divisão da aura maçônica na Sociedade de Annie Besant teve necessariamente consequências envolvendo elementais, talvez elementários. Agora, as mesmas pessoas responsáveis pela dissidência ritualística pareciam estar pensando em provocar a divisão em dois do “corpo externo” da Sociedade de Adyar. Há uma ligação cármica, portanto, entre a divisão da Ordem Maçônica “Le Droit Humain”, realizada anos antes, e o processo de crise institucional entre 2007 e 2011.

Qual é, então, podemos perguntar, a verdadeira profundidade da crise? A autoridade quase papal que todos os presidentes internacionais tiveram desde Annie Besant foi definitivamente destruída. No seu aspecto de organização que funciona autoritariamente e de cima para baixo, a Sociedade de Adyar está passando desde 2007 por uma implosão silenciosa, e ela acelerou-se após a morte de Radha Burnier em dezembro de 2013.

O fato de que a implosão ocorre lenta e gradualmente não é suficiente para que ela possa ser evitada. A causa central do processo está no fato de que as ilusões que estão na base da sua estrutura ritualista de poder “teosófico” ultrapassaram o seu prazo de validade e são claramente insustentáveis.

De 2014 em diante, a boa lei do carma convida os líderes da Sociedade de Adyar a abrirem os seus olhos e enxergarem além de qualquer luta de curto prazo pelo poder. Eles dispõem de tempo suficiente para olhar mais longe. Eles precisarão de uma certa coragem para aceitar os fatos, aprender com os erros e dar passos que levem a um diálogo aberto e a uma teosofia autêntica, que é a teosofia original. Caso contrário a paralisia espiritual e ética prosseguirá.

5. Cenários Futuros Para a Sociedade de Adyar

Em 1980, quando a sra. Radha assumiu a presidência, já era fácil ver que o ritualismo não tinha futuro. Desde então, ela tentou renovar a Sociedade de Adyar promovendo os ensinamentos de Jiddu Krishnamurti. No início, a situação pareceu evoluir favoravelmente. Os problemas começaram pela metade dos anos 1990. O real obstáculo, porém, era o esquema conceitual adulterado por Annie Besant e sua equipe. O problema central era, e continua sendo, o falso sistema de referências. 

Krishnamurti tentou libertar-se do ritualismo e da pseudoteosofia, mas o fez abandonando a teosofia como um todo. Falando de uma indefinida “terra sem caminhos”, ele rejeitou os principais conceitos teosóficos, inclusive as ideias de lei do carma, reencarnação, adeptado, discipulado, paramitas, tradição esotérica, e até mesmo ética. Os seus seguidores foram levados a um beco sem saída. A Sociedade de Adyar não está longe do mesmo beco.  

É importante deixar claro que a sra. Radha foi uma pessoa honesta. Ela era uma teosofista devotada e uma pensadora profunda que mereceu um grande respeito por parte de todos, embora nem sempre o tenha tido.

Ela fez o melhor que podia em todas as situações, e agiu bem em muitos aspectos. Ela tinha uma fina intuição e possuía um coração puro e nobre. Ela tentou fazer uma síntese entre Krishnamurti e a teosofia. No entanto, as armadilhas criadas por Maya [4] são tremendamente complexas durante o ciclo atual da evolução. A sra. Radha não soube ir além da estrutura “papal” de Adyar. Ao adotar Krishnamurti como sua referência central, ela estava de fato renunciando inconscientemente à Teosofia, em grande parte. Deste modo, enfraquecia ainda mais a sua ligação com o centro da aura magnética do movimento.

Está claro, a esta altura, que a tese segundo a qual “Krishnamurti é o avatar, afinal de contas” não faz sentido. Adotar Krishnamurti como referência central foi uma tentativa tímida de ver-se livre do período de Besant. Não funcionou. Qual é a saída? Já cresce o número daqueles que percebem um fato básico: o único futuro saudável que está disponível para a Sociedade de Adyar depende de ela voltar para a verdadeira Teosofia.

No entanto, não é suficiente abandonar os livros escritos por A. Besant e autores semelhantes. É necessário também libertar-se das estruturas de poder criadas pelos falsos clarividentes do período 1900-1934. Tais estruturas são baseadas em rituais “maçônicos”, “católicos” e “esotéricos”, e em dogmatismo supersticioso. O seu conjunto forma uma espécie de “papado esotérico”, um processo autoritário denunciado por antecipação na Carta de 1900. [5] O pensamento de Krishnamurti não é uma solução teosófica para o problema.

O bom senso aponta para a alternativa: não há necessidade de esperar mais um século, antes de voltar às linhas originais estabelecidas por H. P. Blavatsky e seus Mestres. É necessário, no entanto, compreender o verdadeiro significado da expressão “voltar para Blavatsky”.

“Voltar para Blavatsky” não é a mesma coisa que viajar no tempo e voltar para o século 19.

Não é um esforço para memorizar cada palavra escrita por H.P.B. Não é repetir sempre as mesmas citações dos livros dela. Voltar para Blavatsky na verdade é ir para a frente. É enxergar o futuro e resgatar a Teosofia como um fator vivo na vida diária do movimento teosófico. Isso inclui a tarefa de desafiar ativa e criativamente as diferentes formas de ignorância organizada, onde quer que elas estejam.

O dharma e a vocação do movimento incluem o dever de discutir os erros da ciência exata, da religião, da psicologia, da sociologia e da filosofia. O movimento deve ensinar o princípio da fraternidade universal. Deve não só torná-lo compreensível para milhões de pessoas ao redor do mundo, mas também convidar cada indivíduo a viver à altura deste ideal, que é o próximo passo histórico e evolutivo da humanidade atual. 

Naturalmente, a dimensão interna do movimento não pode ser ignorada. A real vitalidade da ação teosófica depende daqueles poucos cujo único objetivo na vida é trabalhar pelo bem da humanidade, e que esquecem, portanto, dos seus eus inferiores. H.P.B. e os Mestres nunca negaram a existência desta condição para o êxito individual e coletivo.

O movimento tem, pois, vários níveis de consciência. Para que haja uma vida interna correta, ele necessita um certo número de indivíduos que sejam sinceros aspirantes ao discipulado. Se quiserem alcançar esta condição, aqueles que ainda estiverem na Sociedade de Adyar devem ter-se libertado por completo do lixo formado pelas ilusões acumuladas sob a liderança de Annie Besant. Esta substância astral e mental é altamente tóxica, e deve ser removida com cuidado. O seu magnetismo tem efeitos negativos que agora vêm se tornando outra vez mais visíveis. Toda a atmosfera baseada nas falsidades “clarividentes” do período 1900-1934 deve ser eliminada pelas suas causas.

O momento atual encerra gradualmente a fase besantiana-ritualista na aura do movimento de Adyar. O impasse abre espaço para uma nova primavera da verdadeira teosofia.

Esta é sem dúvida, uma excelente notícia. No entanto, os odres velhos do dogmatismo não poderão conter o vinho novo da teosofia original. Há uma passagem do Novo Testamento que mostra a diferença entre forma e conteúdo, e demonstra a necessidade de um instrumento sempre renovado a serviço da Sabedoria sagrada:

“Ninguém coloca remendo de pano novo em roupa velha, porque um tal remendo rompe a roupa, e a parte rasgada torna-se maior. Nem se coloca vinho novo em odres velhos, porque neste caso se rompem os odres e o vinho se derrama, e os odres se estragam; mas o vinho novo é colocado em odres novos, e assim ele se conserva.” (Mateus, 9: 16-17)

A maçonaria “teosófica”, o krishnamurtianismo e a versão pseudoteosófica da Igreja Católica são todos odres velhos da fase besantiana. Outro odre velho é a visão papista do movimento teosófico. Por sua vez, a filosofia ensinada por Helena P. Blavatsky é hoje tão válida - e tão inovadora - quanto era em 1891.

O peso da responsabilidade sobre o futuro do movimento teosófico pertence aos milhares de estudantes anônimos que fazem um esforço diário em todo o mundo para expandir individualmente antahkarana - a ponte para o eu superior. Esta expansão é impossível dentro da estrutura conceitual ainda adotada pelos líderes de Adyar.

Entre 1875 e 1891, foi criada a base magnética do movimento teosófico de modo que ela pudesse ser basicamente sensível ao impulso original. 

Cada vez que o movimento teosófico é desorientado por ilusões, é necessário algum tempo para que tais erros destruam a si mesmos, antes que seja aberto espaço novamente para o seu Dharma e a sua Vocação essenciais. Isso acontece através de processos cármicos naturais. 

A visão não-burocrática e não-autoritária do movimento, tal como está descrita na Declaração de 1909 da Loja Unida de Teosofistas, é muito maior que a LUT de hoje. Ela pertence ao movimento como um todo, e não está limitada, de modo algum, à LUT como um organismo. Ela constitui uma verdadeira chave para o futuro. Embora pareça simples, a Declaração da LUT [6] é uma correta expressão do programa de ação original do movimento, que não foi definido por H. P. Blavatsky, mas através dela, por Aqueles Que Sabem. Esse programa de ação, baseado na verdade e na sinceridade, foi feito para durar.

NOTAS:

[1] Esta frase faz parte do texto completo da Carta de 1900, que jamais foi publicado pela Sociedade de Adyar, embora sua autenticidade seja informalmente admitida. O texto está publicado em português em nossos websites associados sob o título “A Carta de 1900, na Íntegra”, e tendo como nome de autor “Um Mestre de Sabedoria”. O texto completo apareceu pela primeira vez nas páginas 116 e 117 da edição de outubro de 1987 da revista “Theosophical History”, que na época era publicada em Londres. A versão incompleta e censurada da Carta de 1900 está publicada no volume “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, transcritas e compiladas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, 296 pp., 1996, pp. 106-107.

[2] Annie Besant adotou então o caminho largo e fácil dos ritualismos e da ilusão. Ela não percebeu que a Teosofia é inseparável da Ética. Sempre que a lealdade à Verdade é abandonada, o ensinamento se torna uma coleção de palavras vazias. Deste momento em diante, o ensinamento pode ser adulterado à vontade, de acordo com metas egoístas de curto prazo.

[3] Revista “Quest”, da ST de Adyar nos Estados Unidos, edição de Outono de 2010.

[4] Maya: a ilusão inerente ao mundo manifestado.

[5] Veja o texto completo da Carta de 1900, segundo indicado na nota [1] acima.

[6] A Declaração da LUT está disponível em nossos websites associados.

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O artigo acima foi publicado pela primeira vez em língua inglesa, no dia 18 de outubro de 2010, em nossos websites associados. Foi publicado em português no mesmo ano e atualizado em 2016. Título original: “The Future of the Adyar Society”. 

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Sobre a missão de Helena Blavatsky e do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a lei da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.


A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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A Filosofia do Aikidô

A Voz da Paz Pode Ressoar Como um Trovão
Que Arranca os Seres Humanos da Sua Apatia

Morihei Ueshiba

Morihei Ueshiba

  

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Nota Editorial de 2016:
 
Reproduzimos a seguir alguns pensamentos do livro
A Arte da Paz”, de Morihei Ueshiba (1883-1969), o 
fundador do Aikidô. O livro foi publicado por Edições
Coisas de Ler, em Lisboa, 2005, e tem 95 páginas. Os números
das páginas estão ao final de cada citação, entre parênteses.

A identidade interna do Aikidô com muitos aspectos da
filosofia esotérica clássica é fácil de perceber quando lemos
estes axiomas. Um Mestre de Sabedoria escreveu: “Esforcem-se
em direção à Luz, todos vocês, bravos guerreiros da Verdade,
mas não deixem que o egoísmo penetre em seu meio”. [1]

As metáforas militares fazem parte da tradição espiritual
de quase todas as nações: o Novo Testamento cristão e o
Bhagavad Gita hindu são dois exemplos entre muitos. O
aforismo 103 de “O Dhammapada” afirma: “Melhor que um
homem que vence em batalhas mil vezes mil homens, é aquele
que vence a si mesmo. Ele é, na realidade, o maior dos guerreiros.” 

Morihei Ueshiba ensina o mesmo princípio da sabedoria universal.

(Carlos Cardoso Aveline)

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* Acalenta e aperfeiçoa o espírito guerreiro enquanto serves o mundo; Ilumina o Caminho de acordo com a tua luz interior. (p. 42)

* O Caminho da Paz é muito vasto, refletindo o grande desenho dos mundos ocultos e visíveis. Um guerreiro é um santuário vivo do divino que serve esse grandioso desígnio. (p. 43)

* O teu espírito deverá estar em harmonia com o funcionamento do universo; o teu corpo deve estar em consonância com o movimento do universo; corpo e espírito devem ser um só, unidos com a atividade do universo. (p. 43)

* A Arte da Paz é o princípio da não resistência. Por ser não resistente é vitoriosa desde o início. Aqueles com intenções malévolas ou maus pensamentos são vencidos. A Arte da Paz é invencível porque não colide com nada. (p. 53)

* Não há disputas na Arte da Paz. Um verdadeiro guerreiro é invencível porque ele ou ela não disputa nada. Derrotar significa derrotar o espírito do conflito que abrigamos dentro de nós. (p. 53)

* Transcende os limites da vida e da morte, e então conseguirás fazer calmamente o teu caminho através de qualquer crise com que sejas confrontado. (p. 69)

* O teu coração está cheio de sementes férteis à espera de desabrocharem. Tal como uma flor de lótus floresce para desabrochar de forma esplêndida, também a interação faz com que a flor do espírito desabroche e dê frutos. (p. 28)

* Estuda os ensinamentos do pinheiro, do bambu, dos rebentos das ameixeiras. O pinheiro é verde, tem raízes firmes e veneráveis. O bambu é sólido, resistente, inquebrável. Os rebentos das ameixeiras são cheirosos e elegantes. (p. 29)

* Mantém sempre o teu espírito luminoso e claro como o vasto céu, o pico mais elevado e o oceano mais profundo, vazio de quaisquer pensamentos limitadores. (p. 29)

* Quando te começares a preocupar com o “bem” e o “mal” dos teus companheiros, estás a abrir uma porta no teu coração para que a malícia possa entrar. Testar, criticar e competir com os outros enfraquece-te e derrota-te. (p. 31)

* A Arte da Paz não é fácil. É uma luta até ao fim, o desfazer de desejos malévolos e de toda a falsidade. De vez em quando a voz da paz ressoa como um trovão fazendo sair os seres humanos da sua apatia. (p. 33)

* Encara qualquer desafio que esteja à tua frente. Quando um ataque aparece à tua frente, utiliza o princípio da “lua refletida na água”. A lua parece estar realmente presente, mas se tocares a água, não estará lá nada. Também o teu oponente não encontrará nada sólido para atacar. Tal como a luz da lua, envolve o teu oponente física e espiritualmente, até não haver separação entre vós. (p. 69)

* Os ataques podem vir de qualquer direção - de cima, do meio, de baixo; da frente, de trás, da esquerda, da direita. Mantém-te concentrado e serás intocável. (p. 70)

* Sê grato mesmo pelos reveses e pelas dificuldades. Lidar com os obstáculos é uma parte essencial do treino da Arte da Paz. (p. 70)

* A única cura para o materialismo é a limpeza dos seis sentidos (olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e espírito). Se os sentidos estiverem embaçados, a percepção fica afetada. Quanto mais afetada, mais contaminados ficam os sentidos. Isto prova a desordem no mundo e esse é o pior mal de todos. Purifica o coração, liberta os seis sentidos e deixa-os funcionar sem obstrução, e todo o teu corpo e alma brilharão. (p. 37)

* Há muitos métodos para chegar ao cimo e todos eles nos levam às alturas. Não há necessidade de nos guerrearmos uns com os outros - todos somos irmãos e irmãs que deveriam fazer juntos o Caminho, mão na mão. Mantém-te no teu Caminho e nada mais importará. Quando perderes o desejo por coisas que não têm importância, serás livre. (p. 39)

* Nunca temas quem te desafia, por mais imponente que seja. Nunca desprezes quem te desafia, por mais insignificante que seja. (p. 39)

* Os mais fortes nem sempre derrotam os mais fracos. Os pequenos podem tornar-se grandes se trabalharem constantemente para isso; os fortes podem tornar-se fracos se não o fizerem. (p. 40)

* A lealdade e a devoção conduzem à bravura; a bravura ao espírito de autossacrifício. O espírito de autossacrifício cria a confiança no poder do amor. (p. 40)

* Toda a vida é uma manifestação do espírito, a manifestação do amor. E a Arte da Paz é a forma mais pura desse princípio. A um guerreiro compete pôr termo a toda a discussão e contenda. O amor universal funciona de diversas maneiras; cada manifestação deve ser livre de se expressar. A Arte da Paz é a verdadeira democracia. (p. 38)

NOTA:

[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, 1996, 295 pp., ver Carta 20 da primeira série, p. 66.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na edição de janeiro de 2016 de “O Teosofista”.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto), visite a página do nosso e-grupo SerAtento em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo.


O link direto é o seguinte: 


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21 de agosto de 2016

O Feticídio é um Crime?

Teosofia Afirma que o Aborto
Tem Consequências Desastrosas

Helena P. Blavatsky 

O futuro da humanidade depende do respeito às crianças


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Nota Editorial:

Reproduzimos a seguir uma pergunta sobre
a prática do aborto,  feita por um médico norte-
americano ao jornal “The Theosophist”,  e a resposta de
Helena Blavatsky, que editava a publicação. A pergunta
e  a resposta foram publicadas pela primeira vez na Índia, 
na edição do  mês de agosto de 1883  de “The Theosophist”.   

(CCA)

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1. Pergunta de um Leitor:

Os artigos em seu jornal, intitulados “Suicídio é Crime?”, sugeriram-me fazer outra pergunta:

“Feticídio é crime?”

Não que eu, pessoalmente, tenha qualquer dúvida séria sobre a ilegalidade de tal ato, mas o costume prevalece com tamanha força nos Estados Unidos que há relativamente poucas pessoas que conseguem ver algo de errado nisso. Remédios para este propósito são anunciados e vendidos livremente; em “famílias respeitáveis”, a cerimônia é regularmente realizada todo ano e o médico da família que pensasse em se recusar a realizar tal trabalho seria peremptoriamente demitido e substituído por outro mais dócil.  

Conversei com médicos que não veem diferença entre produzir um aborto e administrar um remédio qualquer; por outro lado, há certos tratados contra esta prática, publicados por setores ortodoxos; mas a maior parte deles exagera tanto ao descrever as suas “temíveis consequências” que perde a capacidade de influenciar o leitor comum devido ao seu caráter absurdo.

Deve-se dizer que há certas circunstâncias em que a melhor coisa a fazer, tanto para a criança que vai nascer como para a comunidade em geral, é, aparentemente, que sua vinda ao mundo seja impedida. Por exemplo, no caso em que a mãe deseja intensamente a destruição da criança, o seu desejo provavelmente influenciará a formação do caráter da criança e a tornará, nos seus dias de maturidade, um assassino, um criminoso ou um ser para quem teria sido melhor “se nunca tivesse nascido”.

Mas se o feticídio é justificável, não seria então ainda melhor matar a criança depois de nascida, já que então não haveria mais nenhum perigo para a mãe?  E se é justificável matar as crianças, antes ou depois de nascerem, então surge a próxima pergunta:  “Em que idade e sob que circunstâncias é o assassinato justificável?”

Como a pergunta acima é uma questão de grande importância para milhares de pessoas, eu ficaria muito grato se ela fosse tratada do ponto de vista teosófico.

Um médico, membro da Sociedade Teosófica.

George Town, Colorado,
Estados Unidos da América.

2. Resposta de Helena Blavatsky

A Teosofia em geral responde: 

“Em nenhuma idade e nenhuma circunstância o assassinato é justificável!”

E a Teosofia oculta acrescenta:

“No entanto, não é nem do ponto de vista da lei, nem de qualquer outro argumento de um ou outro ‘ismo’ ortodoxo que a voz de alerta se levanta contra esta prática imoral e perigosa, mas sim porque, na filosofia oculta, tanto a fisiologia como a psicologia mostram as desastrosas consequências de tal ato”.

No caso específico, o argumento não lida com as causas, mas com os efeitos produzidos. Nossa filosofia chega ao ponto de dizer que, se o Código Penal de muitos países pune tentativas de suicídio, ele deveria, por coerência consigo mesmo, punir duplamente o feticídio como tentativa de “duplo suicídio”.

Porque, de fato, mesmo quando o aborto tem sucesso e a mãe não morre em consequência dele, ele encurta a vida dela na terra para prolongá-la numa triste proporção em kama-loka, a esfera intermediária entre a terra e a região do descanso, um lugar que não é o “purgatório de São Patrício”, mas um fato e um necessário lugar de parada da evolução no grau da vida.

O crime cometido reside precisamente na destruição propositada e pecaminosa da vida, e na interferência com as operações da natureza, portanto – na interferência com o CARMA. O pecado não é considerado pelos ocultistas como algo de caráter religioso, porque, na verdade, não existe uma presença maior de espírito e alma num feto, ou mesmo numa criança antes que ela adquira a autoconsciência, do que em qualquer outro pequeno animal. Nós negamos a ausência de alma, tanto no mineral quanto na planta ou no animal; e acreditamos que há apenas uma diferença de grau nestes vários casos.  Mas o feticídio é um crime contra a natureza.

Naturalmente, todos os tipos de céticos zombarão das nossas concepções e as chamarão de superstições absurdas e “tolices não científicas”. Mas nós não escrevemos para os céticos. Foi-nos pedido que déssemos a visão da Teosofia (ou melhor, da filosofia oculta) sobre o assunto, e respondemos à questão, até onde sabemos.

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Título original do texto: “Is Foeticide a Crime?”  Traduzido de “Theosophical Articles”,  H. P. Blavatsky,  Theosophy Company, three volumes, Los Angeles, 1981, ver volume II, páginas 335-336. 

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Veja em nossos websites associados o artigo “Impedir o Filicídio e Respeitar as Crianças”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto), visite a página do nosso e-grupo SerAtento em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo.


O link direto é o seguinte: 


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Abandonando Ilusões Sobre Mestres

N. C. Ramanujachary Descreve Sete
Tipos de Armadilhas a Serem Evitadas

N. C. Ramanujachary

Dr. N. C. Ramanujachary vive na
sede internacional da Sociedade de Adyar, na Índia


É oportuno olhar de frente para certos erros que os estudantes e membros da Sociedade Teosófica fazem em relação a Mestres, caindo em armadilhas preparadas por eles mesmos:

1. Tratar Mahatmas como “Deuses” no sentido purânico tradicional, isto é, praticando uma “adoração”, e tendo dificuldade para compreender que eles apontam para o caminho a percorrer. Assim se transformam “fatos” em “ideais”.

2. Antropomorfizar os Mahatmas, dando detalhes das suas vidas pessoais e moradias de um modo geralmente mundano.

3. Divulgar os seus nomes e falar dos seus “status ocultos” fazendo uma análise “estrutural” comum.

4. Não compreender a “Consciência Mahátmica” na sua natureza total e verdadeira, perdendo a percepção interna nas nuvens do “intelecto”.

5. Buscar a orientação e ajuda dos Mahatmas em situações de “medos pessoais” e desejar “favores pessoais”, esperando por libertação como uma concessão e uma graça dada.

6. Tentar alcançá-los “em nosso mundo”, e cair na armadilha das visões ilusórias (“maiávicas”).

7. Não compreender que o que deve ser feito é estar adequadamente preparado e cumprir diligentemente nossos deveres e responsabilidades.

O conhecimento sobre os mestres e o caminho até eles é parte da Ciência sagrada e secreta (Gupta, ou Oculta). Só uma parte do véu foi afastada, pelo simples fato de que os homens e mulheres intelectualizados se tornaram aptos a receber tal conhecimento. É preciso concentrar-se profundamente na espessa floresta do Mundo Invisível, através de “vontade e determinação pessoais”. 

O que foi dado através da literatura teosófica e dos comentários a ela é apenas uma Introdução, uma divulgação de ideias, e o estudante tem que ir além, escrevendo os próximos capítulos e completando a tarefa em seu próprio coração através dos seus próprios esforços.

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Membro da Sociedade Teosófica de Adyar desde 1958, o Dr. N. C. Ramanujachary vive na sede internacional da Sociedade de Adyar, na Índia, e tem livros publicados em mais de um idioma.

Vários artigos e obras de Ramanujachary estão publicados em nossos websites associados, e ele participa do e-grupo E-Theosophy, em Yahoo, que é coordenado pelos editores de “The Aquarian Theosophist”.

A nota acima foi traduzida da edição de maio de 2014 de “The Aquarian Theosophist”, e publicada pela primeira vez em português na edição de junho de 2014 de “O Teosofista”.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto), visite a página do nosso e-grupo SerAtento em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo.


O link direto é o seguinte: 


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19 de agosto de 2016

O Evangelho da Ética no Brasil

Um Líder Verdadeiro é Guiado Por Sua
Própria Consciência do que é Certo e Errado

Carlos Cardoso Aveline

Páginas de abertura de uma edição fac-similar da edição
de 1824,  formato de bolso,  da Constituição do Império do Brasil
 


Não sei se alguém já escreveu uma História da luta pela Ética no Brasil. Não seria má ideia. 
E talvez  seja oportuno  perguntar, antes de tudo:  

“De onde vêm o sentimento de ética que tantos cidadãos têm, e sua vontade de agir corretamente?” 

Rui Barbosa foi  um dos pensadores  brasileiros mais influentes no final do século 19 e início do século 20.  Ele escreveu o seguinte,  sobre o centro de paz e de sabedoria que há no interior da consciência humana:

“ ... O coração não é tão frívolo, tão exterior, tão carnal, quanto se cuida. Há, nele, mais que um assombro fisiológico: um prodígio moral. É o órgão da fé, o órgão da esperança, o órgão do ideal.  Vê, por isso, com os olhos da alma, o  que não veem os olhos do corpo. Vê ao longe, vê em ausência, e até no infinito vê.” [1]

Sem  dúvida, o coração e o sentimento de  boa vontade são uma fonte da Ética.

Rui Barbosa participou dos grandes debates sociais do seu tempo.  Ele combateu a corrupção na política, e  parece ter sido profético ao escrever, na sua famosa “Oração aos Moços”:

“Os presidentes de certas repúblicas são, às vezes, mais intolerantes com os magistrados, quando lhes resistem, como devem, do que os antigos monarcas absolutos.  (...) Os tiranos e bárbaros antigos tinham, por vezes, mais compreensão real da justiça que os civilizados e democratas de hoje.  (...) Bem praticou essa virtude Canuto, rei dos Vândalos,  que, mandando justiçar uma quadrilha de salteadores, e pondo um deles embargos de  que era parente do rei, respondeu: ‘Se provar ser nosso parente, razão é que lhe façam a forca mais alta’.” [2]

Quando a autoridade máxima não pune criminosos pelo fato de que são filhos,  parentes, compadres, ministros, secretários, amigos, companheiros, colegas ou assessores, a responsabilidade pelos crimes recai diretamente sobre  a autoridade.

É claro que no Brasil a luta pela ética na administração pública é muito anterior a Rui Barbosa. Começou com Antônio Vieira no século 17.[3]  E uma das obras curiosas que tenho em minha biblioteca  é uma edição em fac-símile da  Constituição brasileira de 1823,  jurada  pelo imperador Dom Pedro I  no dia  25 de março de 1824. 

Escrito cerca de um ano depois da independência de agosto 1822, esse documento máximo do país já estabelece o princípio da responsabilidade de qualquer chefe, na administração pública, em  relação aos crimes dos seus assessores. 

Diz o artigo 179, inciso XXIX (mantenho a ortografia original):

“Os Empregados Publicos são strictamente responsaveis pelos abusos, e ommissões praticadas no exercicio das suas funções, e por não fazerem effectivamente responsaveis aos seus subalternos.”

E o inciso seguinte dá uma arma democrática ao cidadão:

“XXX. Todo Cidadão poderá apresentar por escripto ao Poder Legislativo, e ao Executivo reclamações, queixas, ou petições, e expor qualquer infracção da Constituição, requerendo perante a competente Auctoridade a effectiva responsabilidade dos infractores.” [4]

Essas ideias e outras ideias da Constituição de 1824 são ainda perfeitamente atuais na primeira metade do século 21.

NOTAS:

[1] “Oração aos Moços”, Rui Barbosa, Ediouro, RJ, 88 pp., ver p.  39. 

[2] “Oração aos Moços”, Rui Barbosa, Ediouro,  ver pp. 77-78.

[3] Veja em nossos websites associados o artigo “A Ética de Antônio Vieira”, de Carlos Cardoso Aveline.

[4] “Constituição Política do Império do Brasil”, Ministério da Justiça, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, 1974,  edição fac-similar, formato de bolso, 74 pp.  O artigo 179, parágrafo XIX, abole o açoite, a tortura e demais maus-tratos de prisioneiros. No parágrafo XXI, o mesmo artigo determina que as penitenciárias serão seguras, limpas, e bem arejadas, separando os réus conforme a natureza dos seus crimes.

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O texto acima foi revisado pelo autor em agosto de 2016. 

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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