7 de dezembro de 2016

A União de Vencedores e Derrotados

Com Visão de Estadista, Temer
Defende o Bom Senso e o Respeito Pelo País

Michel Temer

Michel Temer e sua esposa Marcela



Nota Editorial de 2016:

O movimento teosófico necessita de países dirigidos por líderes sensatos, para que possa buscar com eficácia a verdade e trabalhar pela causa da fraternidade entre todos. O artigo a seguir, publicado pela primeira vez em 2003, ensina princípios básicos que facilmente são esquecidos; e quando isso acontece surgem as crises e os desentendimentos.

Marcando seus escritos pela busca do bom senso, Michel Temer escreveu em certa ocasião:

“A cultura política brasileira tende a entender governo apenas como Poder Executivo. E essa distorção tem de ser corrigida. O concurso dos Poderes Legislativo e Judiciário é fundamental para a manutenção da legalidade e da democracia. Sem isto, o Estado organizado juridicamente, o Estado de Direito, deixa de existir, com grande prejuízo para todos os cidadãos e atividades necessárias à melhoria da vida de todo o povo.” [1]

Temer é um defensor experiente do Estado de Direito, e os princípios que examina são válidos para o mundo lusófono como um todo. Sua abordagem do processo democrático e eleitoral não está presa a uma época específica. Este pensador da política tem o costume de afirmar ideias aparentemente óbvias, cuja profundidade é maior do que a superfície sugere. Colocá-las em prática é difícil, e constitui tarefa decisiva para países em que se busque viver com bom senso.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A União de Vencedores e Derrotados

Michel Temer


Democracia é regime político que se alimenta dos contrários. A controvérsia, a contrariedade, a contestação, são conceitos que a tipificam. Daí a situação e a oposição. A democracia acolhe na mesma esteira os que venceram eleições para governar e os que perderam, também para governar. Pode parecer estranha esta última frase, mas ela quer expressar exatamente o que denota. A oposição não existe para fazer oposição sistemática e permanente. Existe para contestar, indicando rumos que a situação, com plena consciência e senso de responsabilidade, poderá trilhar.

Aliás, só existe oposição nos Estados Democráticos de Direito. No absolutismo, os que contestavam agiam na clandestinidade. Queriam derrubar o rei. E só.

Na democracia, situação e oposição, portanto, governam. Para chegar-se a essa conclusão, é indispensável a distinção entre o momento político-eleitoral e o momento político-administrativo. No primeiro, os partidos disputam o voto do eleitor e se antagonizam com vistas à derrota do outro. O objetivo é vencer para governar. No segundo instante, o político-administrativo, está em pauta o interesse público. Agora, não há mais vencedores e vencidos. Todo esforço deve se voltar para a conjugação de esforços e a eficácia do governo. Eficácia significa normalizar políticas administrativas no interesse do homem, centro de toda preocupação governativa. Situação e oposição hão de se engajar nessa tarefa, sob pena de não estarem cumprindo suas funções no sistema democrático. Agir politicamente sob a motivação da destruição recíproca é trabalhar contra a sociedade.

Outro problema é a colheita de louros de uma possível administração eficiente. Situação ou oposição podem dela desfrutar. Quando a oposição faz acordos para aprovar leis ou políticas administrativas, haverá de saber usufruir dessas vitórias. Por conseguinte, a razão da integração de propósitos entre situação e oposição é o bem comum, o atendimento às expectativas e anseios da sociedade. A barganha, a política de emboscadas, a cultura do fisiologismo devem ser combatidas com vistas ao fortalecimento e consolidação de nossas instituições políticas e sociais.

A Constituição Federal, ao preceituar que o poder emana do povo, refere-se a todos aqueles que o obtiveram, tanto os candidatos da situação quanto os da oposição. E é evidente que o povo não confere poder a indivíduos para que estes impeçam a governabilidade, mas para que todos ajudem a governar. Essa é essência do mandato governativo.

Faço estas preliminares a propósito daqueles que, sendo da situação, convertem-se, agora, em oposição em face da vitória do Partido dos Trabalhadores em muitas localidades.[2] E começam a fazer a oposição tradicional na nossa cultura. Pensam simplesmente em se opor. Nada que possa ajudar entra nas cogitações dos partidos que não assumiram a primeira linha da vitória. Não lhes faço crítica direta. Afinal, sempre agiu assim a oposição brasileira. E não é da noite para o dia que conseguiremos extirpar as mazelas da nossa vida política, particularmente o mandonismo, o grupismo, o patrimonialismo, o fisiologismo. Valho-me, porém, da experiência na Câmara Federal. Quantas e quantas vezes chegamos a acordos na Câmara dos Deputados após exaustivas demonstrações de que, afinal, o que estava em jogo era o interesse público. Outras vezes, entretanto, tivemos de enfrentar uma oposição que sempre se opunha, sob o fundamento de que não era Governo e, portanto, só lhe restava contestar. O bom senso, a responsabilidade do dever bem cumprido e, sobretudo, o compromisso com a população devem inspirar a decisão de situacionistas e oposicionistas.

Por isso, urge mudar a concepção da prática política. Não podemos repetir o erro daqueles que sempre se opõem. E que, portanto, descumprem preceitos fundamentais da nossa Constituição.

As eleições livres têm aprimorado as nossas instituições. Essa última foi mais um passo em direção à racionalidade. Vimos um eleitor mais atento, mais crítico, mais exigente. Premiou, com seu voto, os bons administradores, sinalizou um desejo de mudança, e rejeitou os que considerou maus administradores.

Durante a campanha eleitoral, é certo, o nível do debate não foi o desejável. Foi-se ao nível pessoal; utilizaram-se expressões ofensivas e inadequadas. Mas o eleitor, nessa última eleição, torceu o nariz para esses fatos. Desaprovou-os, em um evidente sinal de amadurecimento.

Por essa razão, a maior vitória foi a de nossa democracia. Não se trata, nesse momento, de festejar ou de tripudiar sobre os perdedores. E nem é o caso de se revoltar com a derrota. O importante é cultivar o dever de participar. E cumprir a Constituição cujos princípios inspiraram este escrito.

NOTAS:

[1] Do livro “Democracia e Cidadania”, de Michel Temer, Malheiros Editores, SP, 2006, 288 páginas, ver p. 288.

[2] O presente artigo foi publicado pela primeira vez em 15 de julho de 2003.

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O artigo acima é reproduzido da obra “Democracia e Cidadania”, de Michel Temer, Malheiros Editores, SP, 2006, 288 pp., ver pp. 59-61.  

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6 de dezembro de 2016

Formando Bons Hábitos

A Criatividade na Teosofia da Vida Diária

Joaquim Duarte Soares



O caminho da sabedoria é fonte de paz e felicidade e começa com o conhecimento de si mesmo.

A filosofia esotérica ensina que aquilo a que chamamos personalidade, o quaternário inferior, é um aglomerado de skandhas, ou o conjunto de registos cármicos de vidas passadas. Os skandhas constituem a nossa herança cármica. Estão compostos pela soma de tendências, hábitos, defeitos e qualidades, e são ativados a cada nova encarnação. De um ponto de vista oculto, podemos dizer que somos filhos de nós mesmos.

Um dos efeitos do estudo sério da teosofia clássica e do esforço por viver o ensinamento é que passamos a desafiar a ignorância acumulada em nós próprios. 

O ser humano é complexo. Trazemos em nós hábitos e tendências que alimentam a ignorância, produzindo sofrimento desnecessário. Ao mesmo tempo, também possuímos em maior ou menor grau padrões energéticos sintonizados com a sabedoria e que produzem felicidade.

O desafio está em concentrar nossa energia e vontade naquilo que é positivo e deixar de alimentar o que é negativo. A arte de substituir hábitos nocivos por hábitos saudáveis é central na aprendizagem da sabedoria. [1]

Um pequeno poema intitulado “Hábito” (“Habit”, no original em inglês) descreve a importância de nos mantermos vigilantes em relação aos nossos hábitos:

“O hábito no princípio é apenas um fio de seda,
Belo como as delicadas teias aladas que balançam
Nos raios quentes de sol de um dia de verão;
Um riacho raso, ondulando sobre o seu leito;
O broto da planta, antes de suas raízes se espalharem;
Um espinho em teu caminho, ainda não endurecido;
Um filhote de leão que ainda não fareja a presa;
Uma pequena criança risonha obedientemente conduzida.
Cuidado! Esse fio pode prender-te como um grilhão;
Esse riacho se acumular num mar fatal;
Essa muda se transformar numa árvore cheia de nós;
Esse espinho, crescido e duro, pode ferir-te e trazer dor;
O filhote brincalhão revelar seus dentes assassinos;
A criança, um gigante, esmagar-te sob seus pés.” [2]

Ao adquirirmos consciência dos hábitos instalados e das suas consequências para nós e para os outros, temos a possibilidade de tomar a vida em nossas mãos e decidir qual o tipo de carma que queremos plantar a cada dia.

Avançar no caminho pressupõe o plantio de bons hábitos e de padrões vibratórios corretos. Devemos elevar-nos acima dos velhos skandhas da ignorância individual e coletiva. Este processo é probatório e contém múltiplos desafios e lições valiosas. O progresso acontece quando aprendemos com os erros e acertos enquanto perseveramos no esforço. O caminho é percorrido ao longo de várias vidas, no ritmo e no modo de cada um. Podemos ler no texto “Uma Batalha Diária”:

“A luta por agir de modo correto é simultaneamente física, emocional e mental. Deve-se estabelecer melhores hábitos. É necessário reduzir ou eliminar padrões errados de vibração. Ao preparar a si próprio através de intenções nobres, pensamentos adequados e ações justas, o indivíduo purifica seu instrumento - o eu inferior - e se liberta gradualmente de ilusões e sofrimentos desnecessários. Assim ele alcança uma paz que é interna, e não externa. O sofrimento humano será seu até o final, mas ele aprenderá a ser maior que a dor.” [3]

Desenvolvendo a capacidade de auto-observação, começamos a discernir os mecanismos psicológicos de apego a um variado conjunto de hábitos inconscientes que trazemos do passado. Esses elementos funcionam em nossa aura como bloqueios à expansão do magnetismo curativo do amor que emana do coração.

Passo a passo, vamos percebendo, não só mentalmente mas de forma vivencial, que nós não somos o nosso corpo, nem o que sentimos, nem o que pensamos.[4] A nossa “personalidade”, o eu inferior, é sim um valioso instrumento - o templo da Alma imortal. Nossa tarefa sagrada é purificá-lo para que nele brilhe a luz do Eu Superior.

O fato de que tudo é cíclico na vida é um aspecto a levar em conta em nossos esforços. Robert Crosbie afirma:

“O jeito de corrigir hábitos é reconhecer que os pensamentos errados irão retornar, e que mesmo os pensamentos que não são bem-vindos retornam obrigatoriamente devido à lei. Por isso, estabeleça um pensamento oposto - ou um sentimento oposto, ou comece uma ação na direção oposta. Continue fazendo isso da melhor maneira que puder, e finalmente você vai destruir o velho ciclo e estabelecer outro, novo.” [5]

Algumas linhas mais adiante Crosbie comenta:

“...É observando o retorno das impressões mentais que podemos corrigir os hábitos. Hábitos de qualquer espécie são criados por repetição. Na primeira vez que fazemos algo, ainda não há um hábito; mas se repetirmos a ação, e continuarmos repetindo, ela finalmente se tornará automática. Com o conhecimento da lei dos ciclos, os hábitos ficam dentro dos limites do nosso controle inteligente.”

Uma visão de longo prazo e uma meta elevada contribuem para aumentar o desapego em relação às marés e aos diferentes ciclos da vida. Mesmo pequenos passos dados são valiosos e todas as tentativas de viver um ideal altruísta são importantes. Nada se perde. O que importa é tentar, sempre.

Bons hábitos em relação a pensamento, estudo, alimentação e saúde, assim como a dedicação a uma causa nobre, abrem espaço para a vivência do que é bom, belo e verdadeiro. A cada dia, temos a possibilidade de viver interiormente a paz e a felicidade.

NOTAS:

[1] Vale a pena ler o texto “Vivendo na Atmosfera da Teosofia”, de Carlos Cardoso Aveline, que pode ser encontrado em nossos websites associados. 

[2] O poema, de autor anônimo, foi publicado na revista “Lucifer”, edição de maio de 1890, editada por HPB. (A palavra “Lúcifer” significa “portador da luz” e se refere ao planeta Vênus: foi distorcida na Idade Média por teólogos ignorantes.) O original em inglês do poema está disponível em nossos websites.

[3] O texto foi escrito por C. C. Aveline e está publicado em nossos websites.

[4] A ideia está colocada em um trecho de Robert Crosbie que encontramos no artigo “A Ioga do Dever”, de C. C. Aveline. 

[5] Reproduzido do artigo “Os Ciclos dos Hábitos”, de Robert Crosbie, que pode ser lido em nossos websites associados.

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O artigo acima é reproduzido da edição de maio de 2015 de “O Teosofista”, pp. 16 a 18.

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3 de dezembro de 2016

Chelas e Chelas Leigos

Testes, Perigos e Oportunidades no Caminho Espiritual

Helena P. Blavatsky

Visão parcial de uma escultura de H. P. Blavatsky, feita por Alexey Leonov


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Nota Editorial:

O artigo a seguir foi traduzido do volume
I, pp. 308-314, de “Theosophical Articles”,
H.P. Blavatsky, Theosophy Company, Los
Angeles, 1981, edição em três volumes. O texto
foi publicado inicialmente no Suplemento  da
revista “The Theosophist”, na Índia, em julho
de 1883. Título original: “Chelas and Lay Chelas”.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Como a palavra Chela, entre outras, já foi introduzida pela Teosofia na nomenclatura da metafísica ocidental, e a circulação da nossa revista está sendo constantemente ampliada, será correto dar uma explicação mais clara sobre o significado deste termo e as regras do Chelado – pelo menos para benefício dos nossos membros europeus, se não dos orientais. Um “chela” é alguém que se ofereceu como aluno para aprender na prática “os mistérios ocultos da Natureza e os poderes psíquicos latentes no homem”. O instrutor espiritual a quem ele propõe a sua candidatura é chamado na Índia de Guru; e o verdadeiro Guru é sempre um Adepto na Ciência Oculta. Um homem de profundo conhecimento, exotérico e esotérico, especialmente este último; alguém que colocou a sua natureza carnal sob o controle da Vontade; que desenvolveu em si mesmo tanto o poder (Siddhi) de controlar as forças da natureza, como a capacidade de descobrir os segredos dela com a ajuda dos poderes do seu próprio ser, antes latentes, mas agora ativos - este é o verdadeiro Guru.

Oferecer-se como candidato ao chelado é bastante fácil. Transformar-se em um Adepto é a mais difícil tarefa que um homem poderia empreender. Há um grande número de homens que “nasceram” naturalmente poetas, matemáticos, mecânicos, estadistas, etc., mas é praticamente impossível que alguém nasça naturalmente como um Adepto. Porque, embora ouçamos falar de tempos em tempos - raramente - de alguém que tem uma capacidade extraordinária, inata, para adquirir conhecimento e poder oculto, no entanto este indivíduo tem que passar pelos mesmos testes e provações, e deve realizar o mesmo autotreinamento que qualquer outro aspirante menos favorecido. Nesta questão, é completamente verdadeiro o fato de que não há caminho especial algum pelo qual possam viajar os favoritos.

Durante séculos a seleção de chelas - fora do grupo hereditário dentro do gon-pa (templo) - tem sido feita pelos próprios Mahatmas dos Himalaias a partir do contingente, numeroso no Tibete, de místicos naturais. As únicas exceções têm ocorrido no caso de ocidentais como Fludd [1], Thomas Vaughan, Paracelso, Pico della Mirandola, Conde de St. Germain, etc., cuja afinidade de temperamento com esta ciência celestial forçou - pouco mais ou menos - os distantes Adeptos a entrar em relações pessoais com eles, e os capacitou a adquirir proporções pequenas ou grandes da verdade total, conforme as possibilidades dos seus contextos sociais. No livro IV de Kiu-Te, capítulo sobre “as Leis de Upasanas”, nós vemos que as qualificações esperadas de um chela eram:

1.Perfeita saúde física;  

2.Absoluta pureza mental e física;

3.Inegoísmo de propósito; caridade universal; piedade por todos os seres animados;

4.Sinceridade e fé inabalável na lei do carma, independentemente de qualquer poder que possa interferir; uma lei cuja operação não pode ser obstruída por nenhuma intervenção, nem pode ser levada a desviar-se por orações ou cerimônias propiciatórias exotéricas;

5.Uma coragem indômita em qualquer emergência, mesmo quando há perigo de vida.

6.Uma percepção intuitiva de que se é um veículo da manifestação de Avalokitesvara, ou Atma Divino (Espírito);

7.Calma indiferença em relação a (mas também uma justa apreciação de) tudo o que constitui o mundo objetivo e transitório, em sua relação com as regiões invisíveis.

Estas, pelo menos, devem ter sido as recomendações para alguém que aspirasse ao perfeito chelado. Com a única exceção do primeiro ponto, que em casos raros e excepcionais pode ser modificado, tem-se insistido invariavelmente em cada um destes pontos, e todos eles devem ter sido mais ou menos desenvolvidos na natureza interna do chela através de ESFORÇOS SEM AJUDA, antes que ele possa ser realmente colocado à prova. 

Quando o asceta, em sua evolução autônoma - esteja no mundo ativo ou fora dele -, houver colocado a si próprio, de acordo com a sua capacidade natural, acima de (e portanto tiver passado a ser um mestre de seus) - (1) Sharira - corpo; (2) Indriya - sentidos; (3) Dosha - erros ou falhas; (4) Dukkha - sofrimento; e estiver pronto para tornar-se um com seu Manas - a mente; seu Buddhi - intelecto ou inteligência espiritual; e Atma - a alma mais elevada, isto é, espírito... Quando ele estiver pronto para isso, e ainda mais, para reconhecer em Atma o governante supremo do mundo das percepções, e na Vontade a mais alta energia (poder) executiva, então ele poderá, de acordo com as regras consagradas pelo tempo, ser levado mais adiante por um dos Iniciados. Poderá então ser mostrado a ele o misterioso caminho em cujo longínquo final é ensinado ao chela o discernimento infalível de Phala, os frutos das causas produzidas, e ele poderá aprender os meios para alcançar Apavarga - a emancipação da dor dos nascimentos repetidos (em cuja determinação o ignorante não pode influir), e assim evitar Pratya-Bhava - a transmigração.

Mas desde o advento da Sociedade Teosófica, uma de cujas árduas tarefas foi acordar de novo na mente Ariana a memória adormecida da existência desta Ciência e daquelas capacidades humanas transcendentes, as regras para a seleção de chelas ganharam de certo modo uma pequena flexibilidade. Muitos membros da Sociedade, vendo os pontos acima comprovados na realidade, pensaram acertadamente que se outros já haviam alcançado a meta, eles também poderiam atingi-la percorrendo o mesmo caminho, caso estivessem interiormente preparados - e pressionaram para serem aceitos como candidatos. Como seria uma interferência sobre o Carma negar a eles a possibilidade pelo menos de começar - e como eles eram tão insistentes - foi-lhes concedido o que queriam. O resultado tem sido muito pouco encorajador até o momento, e foi com o objetivo de mostrar a estes infelizes a causa da sua derrota, assim como para alertar a outros sobre o perigo de avançar impensadamente em direção a um destino similar, que foi dada uma ordem no sentido de que este artigo fosse escrito. Os candidatos, embora amplamente advertidos com antecedência para não fazê-lo, começaram errando ao olhar com egoísmo para o futuro e perder de vista o passado. Esqueceram que não haviam feito nada para merecer a rara honra da seleção; nada que justificasse a sua expectativa de tamanho privilégio; e que não podiam orgulhar-se de nenhum dos méritos enumerados acima. Como homens do mundo egoísta e sensual, fossem casados ou solteiros, comerciantes, empregados civis ou militares, ou membros das camadas intelectualizadas, eles haviam estado em uma escola voltada para fazer com que se identificassem com a natureza animal, e não para desenvolver suas potencialidades espirituais. E no entanto cada um e todos eles tiveram a vaidade suficiente para supor que em seu caso seria feita uma exceção à lei estabelecida há incontáveis séculos, e como se, de fato, a sua pessoa fosse um novo Avatar! Todos esperavam receber ensinamentos sobre coisas ocultas, e esperavam receber poderes extraordinários porque - bem, porque haviam ingressado na Sociedade Teosófica. Alguns haviam sinceramente decidido corrigir as suas vidas e renunciar às suas más práticas; devemos fazer-lhes justiça.    

No começo todos foram recusados, começando pelo próprio presidente da S.T., o coronel H.S. Olcott; e com relação a este cavalheiro não há mal em dizer que ele não foi aceito como chela enquanto não comprovou, por mais de um ano de trabalho devotado e com uma determinação inabalável, que poderia ser testado com segurança. Então vieram reclamações de todos os lados - de hindus, que deveriam compreender melhor a questão, e de europeus, que, naturalmente, não tinham condições de saber nada sobre as regras. O clamor era que, se pelo menos alguns teosofistas não tivessem a possibilidade de tentar, a Sociedade não poderia persistir. Todas as outras características nobres e inegoístas do nosso programa eram ignoradas: o dever de um homem para com o seu próximo, para com seu país, seu dever de ajudar, esclarecer, encorajar e elevar os mais fracos e menos favorecidos que ele; tudo era esquecido na corrida insana pelo adeptado. A busca de fenômenos, fenômenos, fenômenos, ressoava por todos os lados, e os fundadores eram dificultados no seu trabalho real e molestados insistentemente para que intercedessem junto aos Mahatmas, contra os quais eram feitas, na verdade, as queixas, embora os seus pobres agentes tivessem que receber todas as bofetadas. Finalmente, veio o recado das autoridades mais elevadas no sentido de que uns poucos, entre os candidatos que mais pressionavam, poderiam ser aceitos, e isto com base no que estas pessoas haviam declarado.  

O resultado da experiência mostra talvez melhor do que qualquer quantidade de explicações o que o chelado significa, e quais são as consequências do egoísmo e da temeridade. Cada candidato foi avisado de que deveria esperar durante anos, em qualquer caso, antes que a sua adequação estivesse comprovada, e de que ele deveria passar por uma série de testes que trariam para fora tudo o que havia nele, fosse bom ou mau. Quase todos eram homens casados e por isso foram designados de “chelas leigos” - uma expressão nova em línguas ocidentais, mas que tem há muito tempo seus equivalentes nas línguas asiáticas. O chela leigo é apenas um homem do mundo que afirma seu desejo de tornar-se sábio nas coisas espirituais. Virtualmente, cada membro da Sociedade Teosófica que assume o segundo dos nossos três “Objetivos Declarados” é um chela leigo, porque, embora não esteja entre os verdadeiros discípulos, tem a possibilidade de tornar-se um deles, já que passou através do limite que o separava dos Mestres, e colocou-se, de certo modo, no seu campo de observação. Ao ingressar na Sociedade e comprometer-se a ajudar no seu trabalho, ele fez um voto de que agiria em alguma medida em consonância com aqueles Mahatmas, por cuja ordem a Sociedade foi organizada, e sob cuja proteção condicional ela permanece. O ingresso é portanto uma apresentação; todo o resto depende inteiramente do próprio membro, e ele não deve nunca esperar nem a mais distante aproximação à “boa vontade” dos nossos Mahatmas, nem de qualquer outro Mahatma no mundo - se algum deles consentisse em ser conhecido - sem que o fato tenha sido conquistado por mérito pessoal. Os Mahatmas são servidores, não árbitros da Lei do Carma. O CHELADO LEIGO NÃO DÁ PRIVILÉGIO A NINGUÉM, EXCETO O PRIVILÉGIO DE TRABALHAR PARA OBTER MÉRITO, SOB A OBSERVAÇÃO DE UM MESTRE. E o fato de aquele Mestre ser visto ou não pelo chela não faz qualquer diferença no resultado: seus bons pensamentos, suas boas palavras e seus bons atos darão frutos, e suas más atitudes também. Contar vantagem sobre chelado leigo, ou falar disso a todo o mundo, é o caminho mais seguro para reduzir a relação com o Guru a um mero nome vazio, porque é evidência inegável da sua vaidade e da sua inadequação para um progresso futuro. Durante anos nós temos ensinado por toda parte um axioma: “antes de desejar, faça por merecer” intimidade com os Mahatmas.

Há uma lei terrível operando na natureza, uma lei que não pode ser alterada, e cuja ação esclarece o aparente mistério da seleção de certos “chelas” que se tornaram tristes exemplos em relação à moralidade, nestes últimos anos. O leitor lembra do velho provérbio – “deixe que fiquem quietos os cães que estão dormindo”? Há um enorme significado oculto nele. Nenhum homem ou mulher conhece sua força moral até o dia em que essa força é testada. Milhares de pessoas passam pela vida de modo muito respeitável porque nunca são postos à prova. Este é um truísmo, sem dúvida, mas extremamente pertinente neste caso. Aquele que decide tentar o chelado desperta, por este mesmo ato, e leva a um grau de desespero, cada paixão adormecida de sua natureza animal. Porque este é o começo de uma luta pelo poder em que nenhuma trégua deve ser dada ou recebida. É, de uma vez por todas, “Ser ou não Ser”; a vitória significa o ADEPTADO; o fracasso, um Martírio ignóbil; porque cair vítima da luxúria, orgulho, avareza, vaidade, egoísmo, covardia, ou qualquer outra das tendências inferiores é de fato ignóbil, se for medido pelo padrão do que é verdadeiramente humano. O chela é chamado a enfrentar não só as más inclinações latentes na sua natureza, mas também todo o conjunto de poder maléfico acumulado pela comunidade e pela nação a que ele pertence. E isso porque ele é uma parte integral daqueles agregados, e os fatores que afetam tanto o homem individual como o grupo (cidade ou nação) reagem um sobre o outro.  Nesta instância a luta dele pela bondade destoa do conjunto da maldade em seu meio ambiente, e atrai a fúria deste conjunto contra si. Se ele estiver contente de conviver com seus vizinhos e ser quase como eles são - talvez um pouco melhor, ou pior que a média - pode ser que ninguém o perceba. Mas se for sabido que ele conseguiu detectar as zombarias falsas da vida social, sua hipocrisia, egoísmo, sensualidade, cupidez e outras más características, e que decidiu elevar a si mesmo a um nível mais alto - ele será imediatamente odiado, e cada natureza má, fanática ou maliciosa mandará a ele uma corrente de força de pensamento opositora.  

Se for intrinsecamente forte ele se verá livre disso, do mesmo modo como um nadador poderoso atravessa veloz a corrente que arrastaria a outro mais fraco. Mas, nessa batalha moral, se o chela tiver uma só falha oculta - faça ele o que fizer, ela virá à luz do dia. O verniz das coisas convencionais com que a “civilização” nos cobre deve ser retirado até a última camada, e o Eu Interior, nu e sem o menor véu para esconder a sua realidade, é exposto. Os hábitos da sociedade que mantêm os homens até certo ponto dentro de alguns limites morais e que os levam a prestar homenagem à virtude parecendo ser bons, quer sejam bons ou não - estes hábitos tendem então a ser todos esquecidos; estas restrições e limites tendem a quebrar-se completamente pela tensão e pelo esforço do chelado. O chela está agora em uma atmosfera de ilusões - Maya. O vício assume sua expressão mais sedutora, e as paixões tentadoras tentam levar o aspirante inexperiente às profundezas da degradação psíquica. Este não é um caso como o descrito por um grande artista, em que Satã é visto jogando uma partida de xadrez com um homem e apostando sua alma, enquanto o bom anjo protetor deste homem fica a seu lado para aconselhá-lo e assisti-lo. Porque o conflito é entre a vontade do chela e a sua natureza carnal, e o Carma proíbe que qualquer anjo ou Guru interfira até que o resultado seja conhecido. 

Com o caráter intenso das fantasias poéticas, Bulwer Lytton idealizou esta situação em seu livro “Zanoni”, uma obra que sempre será elogiada pelos ocultistas; enquanto que em seu livro “Strange Story” [“Uma História Estranha”] ele mostrou com igual talento o lado negro da pesquisa oculta e os seus perigos mortais. O chelado foi definido há algum tempo por um Mahatma como “um solvente psíquico, que consome toda impureza e deixa apenas o ouro puro”. Se o candidato tiver latente a cobiça ou inclinação por dinheiro, ou por tramas políticas, por um ceticismo materialista, por um exibicionismo vaidoso, por palavras e declarações falsas, crueldade ou gratificação sensual de qualquer tipo, os germes quase certamente se desenvolverão; e o mesmo ocorrerá, por outro lado, com tudo o que diz respeito às qualidades nobres da natureza humana. O homem real vem para fora. Não será uma completa loucura, então, que alguém deixe o caminho suave da vida comum para escalar os penhascos, sem uma razoável certeza de que tem em si a substância adequada? Bem diz a Bíblia: “Assim, pois, aquele que julga estar em pé, tome cuidado para não cair” [2], um texto que os supostos chelas deveriam estudar bem, antes de atirar-se de cabeça ao combate! Teria sido muito bom para alguns de nossos chelas leigos se eles tivessem pensado duas vezes antes de desafiar os testes. Nós sabemos de vários fracassos lamentáveis em um período de 12 meses. Um ficou mal da cabeça, rejeitou sentimentos nobres expressados poucas semanas antes, e tornou-se membro de uma religião que ele havia recentemente provado, com desdém e de modo irrespondível, que era falsa. Outro tornou-se delinquente e fez desaparecer o dinheiro de seu empregador - que também era teosofista. Um terceiro entregou-se a grossa libertinagem, e confessou o fato com lágrimas e soluços inúteis, ao Guru que havia escolhido. Um quarto envolveu-se com uma pessoa do sexo oposto e abandonou seus amigos mais queridos e verdadeiros. Um quinto mostrou sinais de aberração mental e foi levado ao tribunal com acusações de conduta vergonhosa. Um sexto matou-se com um tiro para escapar às consequências da criminalidade, na iminência de ser descoberto! E assim poderíamos prosseguir com mais exemplos. Todos estes eram aparentemente buscadores da Verdade e, no mundo, passavam por pessoas respeitáveis. Externamente, eram altamente elegíveis como candidatos ao chelado, segundo as aparências; mas “por dentro tudo era podridão e ossos de cadáveres” [3]. O verniz do mundo era tão grosso que escondia a ausência de ouro verdadeiro no interior, e com o “solvente” fazendo seu trabalho, o candidato comprovava a cada momento ser apenas uma figura pintada de ouro, mas cuja substância era de lixo moral, do início ao fim....

Até aqui nós abordamos, é claro, apenas os fracassos entre os chelas leigos; mas também têm havido êxitos parciais, e estes estão passando gradualmente pelos primeiros estágios da sua provação. Alguns estão se tornando úteis à Sociedade e ao mundo em geral através do bom exemplo e da boa palavra. Se eles persistirem, será bom para eles e bom para todos nós: as chances são ameaçadoramente contrárias a eles; mas ainda assim “não há Impossibilidade para aquele que QUER”. As dificuldades no chelado nunca serão menores enquanto a natureza humana não mudar e um novo tipo de ser humano não surgir. São Paulo (Rom. VII, 18-19) poderia estar pensando em um chela quando disse: “Querer o bem está ao meu alcance, não porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero”. E no sábio “Kiratarjuniya”[4], de Bharavi,  está escrito:

                            “Os inimigos que se erguem dentro do corpo,
                            Difíceis de derrotar – as más paixões –
                            Devem ser vigorosamente combatidos; quem os derrota
                            É igual àquele que conquista mundos inteiros” (XI, 32).



[Suplemento de “The Theosophist”, julho de 1883]


NOTAS:

[1] Robert Fludd, místico inglês do século XVI, médico e Rosa-Cruz, que viajou pela Europa e tinha uma visão panteísta do mundo. (CCA)

[2] I Coríntios 10:12. (CCA)

[3] Mateus 23: 27-28. (CCA)

[4] “Kiratarjuniya” - poema que descreve o combate entre Shiva, disfarçado de um Kirata ou habitante das florestas e das montanhas a leste do Hindustão, e o príncipe Arjuna. (CCA)

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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Quatro Regras de Diplomacia

Visconde de Figanière





Nota Editorial:

O diplomata e pensador português Visconde de Figanière (1827-1908) foi amigo pessoal de Helena Blavatsky e colaborador das revistas teosóficas que ela editou. Seus escritos são citados em “A Doutrina Secreta”. Ele é o grande pioneiro do movimento teosófico em língua portuguesa.

Verdadeiro cidadão planetário, Figanière nasceu nos Estados Unidos e foi representante diplomático de Portugal no Brasil, na Rússia, na Inglaterra, na Espanha e na França. Seu romance “Palmitos”, publicado em três volumes, está ambientado no Brasil do século 19 e foi escrito em inglês enquanto morava na Rússia.

Figanière é mais conhecido por sua obra “Estudos Esotéricos - Submundo, Mundo e Supramundo”, de 1889. O livro que publicamos a seguir mostra a sua filosofia ética da vida e dos assuntos de Estado, e possui interesse teosófico.

A obra funciona em parte como metáfora; especialmente na sua parte principal, que vai até a página 80. A chave de leitura consiste em saber que o mundo interno e o mundo externo funcionam como espelhos um do outro.

Ao trilhar o caminho da sabedoria, todo peregrino percebe pouco a pouco que não “possui” uma alma imortal, mas, ao invés disso, pertence a ela.

A alma já existia quando ele nasceu e continuará viva quando terminar sua existência. O peregrino passa a perceber a si mesmo como um representante do seu eu superior no mundo externo. O governo a que deve ser leal é o reino da sua própria alma.  

Assim como no plano da política de Estado o representante de um país precisa ouvir sua consciência sobre o modo correto de agir, cada indivíduo dotado de autoconhecimento opera nas diferentes dimensões do mundo externo como um representante autorresponsável da consciência mais elevada e essencial que há em si, e trata de agir à altura.   

(Carlos Cardoso Aveline)

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Quatro Regras de Diplomacia

Visconde de Figanière


Discurso Preliminar

Dos diversos ramos do serviço publico, o diplomático é sem dúvida aquele em que ao agente é concedida maior liberdade no modus operandi. O que sobretudo se lhe pede é dar boa conta de si e dos negócios que lhe são cometidos. Isto depende em grande parte dos expedientes que adoptar, e das qualidades da sua pessoa. Aqui pois não há campo para regras absolutas.

Os deveres, esses são definidos, sendo de todos o primeiro, bem servir à pátria; mas no modo de os cumprir dá-se ampla margem; e, exceto no tocante ao estilo dos escritos, pode ser questão para alguns se a palavra regra é aplicável aos argumentos fundamentais em que se divide este trabalho, cujo fim é meramente sugestivo, não doutrinal, e sem ideia de esgotar a matéria.
(…)


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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


Para ingressar no SerAtento, visite a página do e-grupo em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo. O link direto é este:   


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30 de novembro de 2016

As Ondas de Acontecimentos

A Liberdade e a Iluminação
Dependem de Hábitos Corretos

Carlos Cardoso Aveline



A Lei do Carma não trabalha com fatos isolados. Ela geralmente se manifesta através de ondas de eventos.

O buscador da verdade deve ter paciência para enfrentar as ondas de carma que a vida manda de volta para ele como resultado das suas tentativas de fazer o melhor possível na ciência da ação correta. Avançar no caminho da sabedoria atrai mais luz, mas também coloca em movimento tendências antigas de ignorância, própria e alheia, cuja existência talvez estivesse esquecida.

O primeiro estágio no tratamento das dificuldades deve ser, tanto quanto possível, “uma paciência que nada pode perturbar”.  

Dificuldades e oportunidades vêm juntas. A combinação de tempo e esforço produz experiência acumulada. Deste modo nossa visão das coisas melhora, as potencialidades positivas passam a ser vistas e surge a ocasião para tomar a iniciativa.

Abandonar erros é tão importante quanto promover a ação certa. Para alcançar a sabedoria, precisamos levar em conta que a ilusão depende dos hábitos mentais.

O nível de exatidão no modo como alguém enxerga um fato qualquer é inseparável do grau de precisão com que a pessoa examina outros aspectos da realidade. Portanto, se você bloquear da sua consciência uma visão precisa de alguma coisa, estará abrindo a porta para a autoilusão subconsciente nas outras áreas da vida.

Todos os seus olhares são interdependentes. Você pode negar um fato porque ele é emocionalmente doloroso, ou porque está apegado a algum tipo de satisfação imaginária ou sentido de segurança que a aceitação do fato irá destruir: isso não importa. Uma mentira faz com que surja outra mentira. Cada ilusão produz duas ou três mais. E uma visão verdadeira atrai outra.

Se você olha honestamente para um fato, já vê com mais realismo outros dez acontecimentos. Quando as luzes estão ligadas, as coisas feias e bonitas ficam visíveis e a ética da verdade vence, embora alguns possam lamentar isso.

Ondas inteiras de ilusão, relativas a todos os tipos de fatos interligados podem ser desmascaradas durante o mesmo segundo. Neste momento grandes grupos de verdades interconectadas revelam-nos horizontes imensos. Quando esta vivência paradoxal é demasiado ampla para ser descrita em palavras, ela é chamada de “iluminação”. E depois disso cabe ao peregrino comprovar que seu conhecimento é real.

A Paz de um Oceano

Ao ser testado pela vida, preserve a consciência do coração. Não tenha pena de si mesmo. Não lamente as “circunstâncias difíceis” nem pense que a vida é injusta. Desvencilhe-se do mal-estar psicológico causado pelos aborrecimentos que parecem “perseguir” você “sem que mereça”.

Instalado na paz incondicional, verá sem esforço a Causa Única das perturbações e o caminho para eliminá-la. Não há problema ou dificuldade na vida que não sirva para desafiar o apego à rotina, a busca de comodidade e os esquemas emocionais que reproduzem aspectos pouco iluminados do passado.

Você deve aproveitar a oportunidade. Examine com um olhar honesto os acontecimentos. Mantenha a visão impessoal diante dos vários tipos de crises fabricadas pelo eu inferior através da ansiedade, do medo, da ambição e de outras emoções semelhantes. Descubra a paz imensa de um oceano de sabedoria que prossegue além do horizonte.

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Uma versão anterior do texto acima foi publicada na edição de março de 2016 de “O Teosofista”, pp. 8-9.

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