20 de junho de 2018

O Mistério do Autotreinamento

Questionando a Necessidade
de Autodisciplina na Vida Diária

Carlos Cardoso Aveline




Quando um peregrino adota para sua vida determinadas regras de autodisciplina, a tradição mística afirma que ele deve obedecer “sem reservas e sem demora” aos princípios de conduta que fazem parte do caminho para a sabedoria.

A vigilância é indispensável, porque o atraso involuntário e a displicência na disciplina facilmente se tornam hábitos.

À medida que um indivíduo subestima a importância de uma prática constante da ação correta, ele começa a considerar o esforço como “desnecessário” e até mesmo como tolice. Qualquer alerta por parte da sua consciência de que é preciso manter a disciplina sagrada será então descartado como algo “demasiado rígido” e que de fato “não faz sentido”.

É precisamente porque muitos aspectos da disciplina diária parecem cansativos, desimportantes e talvez ridículos, que a sua prática cuidadosa e consciente gera um magnetismo mais elevado, e produz verdadeira autodisciplina.

O pessimismo e a preguiça são dois aspectos “elegantes” do mesmo tipo de ignorância.

Por outro lado, o autorrespeito, o autoconhecimento e uma vocação de vitória dão ao peregrino a força e a decisão necessárias para ser severo consigo mesmo, e para fazer verdadeiro progresso.

Cabe ao buscador da verdade levar em conta estas palavras de um Mestre de Sabedoria:

“Já foi dito a você (…..) que o caminho para as Ciências Ocultas tem de ser trilhado laboriosamente e percorrido com perigo de vida; que cada novo passo nele, que leva à meta final, é rodeado por armadilhas e espinhos cruéis; que o peregrino que se aventura por ele é obrigado primeiro a confrontar e vencer as mil e uma fúrias [1] que guardam seus portões e sua entrada adamantinos [2] - fúrias chamadas Dúvida, Ceticismo, Desprezo, Ridículo, Inveja e finalmente Tentação - especialmente a última; e que aquele que quiser ver mais além tem primeiro de destruir este muro vivo; deve ter um coração e uma alma vestidos de aço e uma determinação de ferro, que nunca falha, e no entanto deve ser amável e gentil, humilde, e deve ter expulsado do seu coração toda paixão humana, que leva ao mal.” [3]

É fácil criticar e ridicularizar a prática estável de pequenos atos de autocontrole e autodisciplina. No entanto, este esforço humilde e aparentemente desprezível constitui um fator central, decisivo, na busca da sabedoria divina. A modesta disciplina pode desafiar e desmantelar vastas estruturas de ignorância acumulada.

“Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”, afirma Mateus 20:16. E o capítulo 41 do Tao Teh Ching ensina:

“A virtude superior parece como um vazio (vale);
O branco puro parece como manchado;
O grande caráter tem a aparência de insuficiente;
O caráter sólido parece não ter firmeza;
O alto valor parece contaminado.” [4]

Aceitar a aparência do tolo é uma defesa eficaz para o aprendiz bem informado. As ações mais corretas podem parecer uma completa tolice.

As pessoas desorientadas procuram apresentar-se como sábias satisfazendo habilmente a opinião dos outros. Os amigos da verdade, por sua vez, deixam de lado o consenso artificial e o mero hábito. Abandonando a média das opiniões do momento, eles buscam conhecer a verdade em primeira mão.

NOTAS:

[1] Fúrias - na mitologia clássica, divindades femininas que puniam crimes, instigadas pelas vítimas, e vingavam os deuses. (Nota da edição brasileira de “Cartas dos Mahatmas”)

[2] Adamantinos - isto é, feitos de diamante. (Nota da edição brasileira de “Cartas dos Mahatmas”)

[3] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes. Coordenação editorial da edição brasileira, Carlos Cardoso Aveline. Ver volume 2, Carta 126, p. 274.

[4] “Laotse, the Book of Tao”, versão do chinês para o inglês de Lin Yutang. A obra está incluída no volume “The Wisdom of China and India”, edited by Lin Yutang, The Modern Library, Random House, New York, USA, 1955, 1104 páginas. Ver página 606.

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O artigo “O Mistério do Autotreinamento” foi publicado dia 20 de junho de 2018.

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13 de junho de 2018

O Teosofista - Junho de 2018




O artigo que abre a edição de junho tem como título “Atitude Construtiva e Moderada”. A ideia central é que a ação correta é feita com respeito a todos, inclusive os adversários.

Na página três, temos “Os Sentidos da Alma: Todos os Aspectos da Sabedoria Reforçam Uns aos Outros”. À página quatro, “Viver Mais e Melhor: Permanecendo Aberto à Aprendizagem”.

Em seguida, “O Preço da Independência” afirma que pensar por si mesmo com otimismo é como subir morro acima por um caminho íngreme.

A edição inclui ainda os seguintes temas:

* Tratar Com Respeito o Espelho - o presidente de um país reflete algo da alma de cada cidadão, e por isso não vale a pena tratá-lo com desrespeito;

* Ideias ao Longo do Caminho - o Universo Como Uma Cooperativa Ilimitada de Almas;

* De Sílvio Romero, Sobre  Presidencialismo e Parlamentarismo - fragmentos de um livro de 1893, recentemente publicado em nossos websites;

* Ensinamentos de um Mahatma - 13, uma Compilação das Cartas do Mestre de Helena Blavatsky;

* O Uso das Nossas Energias; * A Filosofia de Sherlock Holmes; * Largando a Crença na Negatividade; e

* Os Capítulos Quatro a Seis do “Tao Teh Ching”,  na versão que Lin Yutang fez da obra chinesa.

A edição possui 15 páginas e inclui a lista dos 19 itens publicados recentemente em nossos websites.



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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível em nossos websites associados.

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8 de junho de 2018

Parlamentarismo e Presidencialismo

Na República Brasileira:
Cartas ao Conselheiro Rui Barbosa

Sílvio Romero

Sílvio Romero (foto) escreveu a obra “Parlamentarismo e
Presidencialismo” poucos anos depois da proclamação da República



Nota Editorial de 2018:

Nascido em 21 de abril de 1851, Sílvio Romero ou Sylvio Romero viveu até 1914.

Na obra clássica “Parlamentarismo e Presidencialismo”, da qual reproduzimos a edição de 1893, o leitor encontra lições decisivas e constatações fundamentais para o Brasil do século 21.

Como por exemplo:

* “A república precisa de mais tino, mais respeito à lei, mais liberdade, mais sentimento do dever, mais largueza de ânimo, mais espírito de concórdia, mais fraternidade.” (p. 31)

* “Sempre e sempre se verifica a eterna realidade: quando um povo abdica de sua vontade, os espertos apoderam-se dela, ou, melhor, substituem-se a ela e as ditaduras se aparelham nos cantos escusos da história.” (p. 74)

Buscando o melhor, Romero propõe uma visão realista do povo brasileiro. Às páginas 64-69, ele desmonta em sua obra o mito segundo o qual o brasileiro é sempre e necessariamente pacífico e honesto:

* “Essa teoria propala que nós os brasileiros somos o povo mais brando, mais sensível, mais terno de índole, mais meigo de gênio, que se conhece sobre a terra. Entre gentes assim, dizem, o despotismo com as suas crueldades não poderá jamais levantar a cabeça e pôr as garras de fora. É a tese. Nossos patrícios nos perdoem; não acreditamos nesta cantiga; é uma antiquada loa, que não está de acordo com os fatos. ” (p. 65)

* “Amicus Plato, sed magis amica veritas.” [1] (“Platão é meu amigo, mas a amizade da verdade é ainda mais importante.”) (p. 65)

Sílvio Romero denuncia o “otimismo de opereta”. Ele desmascara a hipocrisia e ressalta a necessidade de cumprir os deveres, antes de aproveitar dos direitos:

* “Se existe fenômeno que salte aos olhos de qualquer observador, ainda o mais descuidoso e superficial, é a indiferença real do povo brasileiro pelos seus deveres políticos. Note-se que dizemos deveres e o fazemos propositalmente. O brasileiro, desde o capadócio das vilas do interior (…) até os mais enfatuados doutores das academias e das secretarias, que vivem perpetuamente a discretear sobre o governo e seus atos, o brasileiro é o ente que mais fala em tal ordem de assuntos; porém, é só como objeto de palestra e meio de desfastio; não é que ele tome a sério as necessidades públicas e esteja disposto a cumprir o seu dever cívico, o dever de cidadão que se sente um fator na república, na vida do país, na direção da pátria. Na hora do trabalho, da ação, do exercício do direito, do cumprimento do dever, quase todos esfriam, retraem-se, desaparecem.” (pp. 72-73).

* “… O compatrício, por via de regra, em se lhe metendo um cargo nas mãos, tende logo a abusar. Em quase todos esses galhardos liberalões, esses guapos democratas, esses denodados tribunos, que aí se pavoneiam, acha-se o estofo tétrico de outros tantos tiranetes, outros tantos déspotas; ficai certo.” (p. 68)

* “… Este último [o regime presidencialista] é já de origem o mais corruptível, por mais que essa plutocracia mude de trajos e troque de nomes. Esse banqueirismo governativo não passa de uma aristocracia do dinheiro, de um patricialismo do capital, a mais viciada e bastarda de todas as aristocracias.” (p. 58)

* “O presidencialismo há de vacilar sempre entre o despotismo dos presidentes trêfegos e as revoltas perniciosas dos espíritos revolucionários. O parlamentarismo, com sua marcha moderada e suave, é a forma mais perfeita do conservadorismo progressista.” (pp. 139-140)

Na primeira frase do livro, Sílvio Romero se refere à Constituição de 24 de fevereiro de 1891, de cujo preparo Rui Barbosa - um admirador do modelo presidencialista norte-americano - participou de modo decisivo. [2]

(Carlos Cardoso Aveline)


NOTAS:

[1] Frase com frequência atribuída a Aristóteles. (CCA)

[2] Veja por exemplo “Realidades e Ilusões no Brasil, Parlamentarismo e Presidencialismo e Outros Ensaios”, Sílvio Romero, Ed. Vozes, 324 pp., 1979, p. 36. (CCA)

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O livro “Parlamentarismo e Presidencialismo” foi publicado em nossos websites associados dia 8 de junho de 2018.

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6 de junho de 2018

Observando o Astral de um País

Cidadãos Atentos Preservam a
 Qualidade da Atmosfera Psíquica

Carlos Cardoso Aveline




Fica claro, nas Cartas dos Mahatmas, que as circunstâncias em que deve agir um movimento filosófico ou teosófico são profundamente influenciadas pela atmosfera astral da cidade e do país em que a ação se desenvolve.

Um Mestre de Sabedoria participou pessoalmente de várias reuniões místicas em Londres, por volta de 1860, e afirmou que a atmosfera psíquica pestilenta da cidade no século 19 era impeditiva de reuniões ocultas dedicadas a uso de poderes.

Diz a Carta 11 de “Cartas dos Mahatmas”, escrita em 1880:  

“A maior e mais promissora destas escolas [ocultas] na Europa, o último esforço feito nesse sentido, fracassou claramente há cerca de vinte anos em Londres. Foi uma escola secreta para o ensinamento prático da magia, fundada com o nome de um clube, por uma dúzia de entusiastas sob a direção do pai de lorde Lytton. Ele reuniu com este objetivo os mais apaixonados e os mais empreendedores, assim como alguns dos mais adiantados conhecedores de mesmerismo e ‘magia cerimonial’, tais como Eliphas Levi, Regazzoni e o copta Zergvan-Bey. E, no entanto, na pestilenta atmosfera de Londres, o ‘Clube’ teve um final prematuro. Eu o visitei meia dúzia de vezes e percebi desde o princípio que nada poderia resultar dali. E esta é também a razão por que a S.T. britânica não dá praticamente um só passo adiante. Seus membros pertencem à Fraternidade Universal, mas só de nome, e gravitam no melhor dos casos para o quietismo, uma paralisia completa da alma. São intensamente egoístas em suas aspirações e colherão apenas a recompensa de seu egoísmo.”[1]

Neste trecho o Mestre usa palavras simples para indicar um sério perigo oculto situado diante de todo cidadão. O egoísmo - largamente presente na atmosfera astral das cidades - pode fazer com que o fato de ser teosofista se torne apenas nominal.

Há uma relação viva e uma troca incessante de energia entre a aura de cada estudante de teosofia e a aura do seu país e da cidade e nação em que mora.

A Pressão Atmosférica da Consciência

A luta entre a atmosfera urbana dos grandes centros e a aura pessoal do estudante de teosofia é abordada no texto “A Pressão Atmosférica da Alma”.[2]

O fato de que o movimento teosófico vive em uma camada própria do astral e tem um território sutil que é especificamente seu foi analisado no artigo “Construindo um Continente de Pensamento”. [3]

Os vários níveis de atmosfera mental egoísta habitam as suas próprias regiões do astral, ou suas faixas vibratórias. Estes mundos diferentes convivem o tempo todo, pulsando em transmutação constante. Diante deles, o estudante deve exercer vigilância.

Todo país tem, portanto, uma atmosfera psíquica de vários níveis, e existe nas Cartas dos Mahatmas uma valiosa descrição da paisagem astral da Índia do século 19.

Na carta 112, vemos que os Mestres estão “impedidos de usar quaisquer poderes anormais que possam interferir no Carma” da Índia e de qualquer outra nação. No entanto, os Raja- Iogues esperam estimular “por meios adequados e normais o zelo daqueles que estão atentos”.  

Algumas linhas mais abaixo, referindo-se à Índia, o instrutor escreveu:

“… Devemos confessar que a palavra patriotismo agora dificilmente possui qualquer força elétrica junto ao coração indiano. A ‘terra-berço das artes e das crenças’ está fervilhando de seres infelizes, precariamente atendidos, e atormentados por demagogos que têm tudo a ganhar com tramoias e descaramentos. Nós sabíamos tudo isto em relação à massa, mas nenhum de nós, arianos, havia sondado as profundezas da questão indiana como fizemos ultimamente.”

Tendo dito isso, o Mestre prosseguiu:

“Se for possível simbolizar coisas subjetivas com fenômenos objetivos, posso dizer que à visão psíquica a Índia parece encoberta por uma neblina cinzenta e sufocante - um meteoro moral - a emanação ódica do seu estado social vicioso. Aqui e ali brilham pontos de luz assinalando uma natureza ainda de certo modo espiritual, uma pessoa que aspira e luta pelo conhecimento mais elevado. Para que o farol do ocultismo [indiano] possa em algum momento ser acendido outra vez, estas faíscas espalhadas devem ser combinadas para formar sua chama. E esta é a tarefa da S. T., esta é a parte agradável do seu trabalho, na qual nós ajudaríamos com grande satisfação, se não fôssemos impedidos nisso e lançados para trás pelos próprios supostos chelas.” [4]

Fica claro nestes trechos, em primeiro lugar, que o mapa astral dos países é observado pelos Mestres. A geografia da alma e o mapa do carma são visíveis para eles.

É fácil perceber que a visão geral do Iogue sobre a Índia se aplica aos países ocidentais, e que a situação não melhorou desde o século 19.

É inegável no século 21 que a grande “massa” da população está infeliz e desorientada, e que os próprios candidatos ao discipulado, além de pouco numerosos, afastam em parte a influência superior devido à sua ingenuidade.  

Cabe ao movimento teosófico, segundo indica o Mestre, reunir as luzes isoladas de eus superiores que se erguem acima da ignorância espiritual média e da cegueira moral. Há uma neblina sufocante encobrindo cada nação.

Não é difícil calcular como está hoje a situação nas dezenas de países e nos vários continentes em que a Loja Independente de Teosofistas tem seus leitores e amigos.

Sabemos, no entanto, que onde as circunstâncias são mais difíceis, há mais mérito no esforço. É sempre possível trabalhar pelo melhor e pelo mais elevado, e a vigilância e bom senso são duas ferramentas fundamentais para o aprendiz. Não precisamos receber Cartas de Mestres em nosso século, mas podemos compreender as Cartas recebidas no século 19, e agir à altura.

O Depoimento de Farthing

A Segunda Guerra Mundial foi uma catástrofe física, moral e astral. O teosofista inglês Geoffrey A. Farthing (1909-2004) escreveu, no depoimento autobiográfico feito em diálogo comigo, que durante toda a segunda Guerra a teosofia “desapareceu da sua cabeça”.

Ele afirmou:

“Pouco depois do começo da guerra eu entrei para o exército. Então, outra vez, algo interessante ocorreu. Todo o meu exuberante interesse em Teosofia desligou-se imediatamente como se uma luz fosse apagada e não tive mais interesse no assunto até cinco anos mais tarde, quando terminou a guerra.” [5]

Este é um exemplo prático de como em áreas conflagradas, em cidades e territórios cujo astral está tingido de ódio, medo e outros sentimentos paralisadores da consciência, a percepção teosófica da vida pode ser “varrida do mapa”, entrar em um pequeno pralaya, sofrer um apagão, passar por um eclipse.  

Sabendo disso, será interessante calcularmos como está atualmente o astral das grandes capitais brasileiras, ou das metrópoles ao redor do mundo em que há atentados terroristas, intolerância, consumo de drogas em larga escala, antissemitismo, racismo e outras formas de decadência moral.

A geografia oculta das nações é uma área de estudo decisiva em teosofia.

Portugal, país altamente florestado, é marcado pela cultura das pequenas aldeias e cidades; mas também em Portugal o desafio da atmosfera sutil é similar.

No Brasil, há inúmeras cidades pequenas e florestadas. Mesmo no Distrito Federal há comunidades de pequeno porte espalhadas pelo ambiente natural. Nas capitais, como São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou Porto Alegre, a atmosfera psíquica é mais pesada. Em Curitiba, conhecida por suas soluções urbanísticas ecologicamente inteligentes, temos uma certa reserva moral da nação, em um espaço comum desenhado de modo humano.

Para purificar dentro do possível o clima sutil, e para preservar sua própria atmosfera pessoal, familiar e caseira, o estudante de filosofia deve estar alinhado incondicionalmente com a paz, a harmonia e o diálogo, na sociedade em que vive. A discordância é parte da vida, o ódio é inadmissível, e a hipocrisia leva ao ódio.  

A Loja Independente defende a luta pela ética na política.

Os políticos desonestos devem ser responsabilizados perante a lei. O Brasil viveu dois impeachments presidenciais desde que foi aprovada a Constituição de 1988, e isso é muito positivo. Os impeachments foram feitos em paz, com ordem, através de procedimentos legais e democráticos, sem ódio, violência ou desprezo pelas autoridades estabelecidas.

O Centro da Aura de um País

A qualidade da atmosfera oculta em que vivemos é um dos motivos para evitar revoluções e revoltas.

O astral do Brasil é desnecessariamente envenenado quando, devido a uma propaganda política pouco ingênua, milhões de pessoas passam a querer o mal do presidente e de outros políticos.

Se o povo todo já praticasse uma ética pura, abstendo-se de mentiras e falsidade, seria fácil purificar a política. O que se viu nos anos recentes do Brasil é que colocar políticos na prisão não basta. Como diz o Dhammapada, o ódio não se extingue pelo ódio: o ódio se extingue pelo amor - isto é, pela fraternidade. Na formulação do primeiro objetivo do movimento teosófico - constituir um núcleo de fraternidade universal - seria correto substituir a palavra “fraternidade” pela palavra “respeito”.

Um respeito universal por todos os seres é a ideia.

Deixando de lado as distorções provocadas pela raiva e pela ingenuidade, percebemos que os políticos são a expressão do povo. Um povo “revoltado” ataca o seu próprio espelho, alimentando o círculo vicioso da frustração. É o sentimento construtivo que resgata um país do pântano da imoralidade - e do rancor.

Na estrutura oculta de uma nação, o presidente e a presidência da república são o centro da aura do país e como tal precisam ser respeitados. A parte de uma população que odeia o presidente está odiando - sádica e masoquistamente - o centro da aura do seu próprio país.

Poucos sabem disso. Poucos percebem este fato. Formar um círculo de ódio em torno do chefe de estado é profundamente antiteosófico.

Círculos de ódio têm a ver com a prática do vudu e de bruxaria antievolutiva. Constituem algo abjeto e não possuem qualquer afinidade real com a luta pela ética na política. O esforço pela ética só possui legitimidade quando se abstém de rancor ou vingança, e quando é feito de modo impessoalmente respeitoso para com todos, como mandam a lei e a Constituição do país em que se vive.

Por isso o Mestre menciona em uma de suas Cartas o fato de que o criminoso Charles Guiteau, assassino de um presidente dos Estados Unidos, “lançou em confusão e embaralhou os destinos de milhões de pessoas”.[6] Ou seja, Guiteau feriu covardemente não só o presidente, mas atacou o centro da aura do seu país.

No Brasil, tivemos no final do Império, em 1889, o desrespeito para com Dom Pedro II. [7] Foi o primeiro episódio de uma série.

As campanhas sistemáticas de insultos pessoais contra presidentes e outros líderes políticos equivalem a tentativas de assassinato moral - às vezes bem-sucedidas - e causam um prejuízo extremo à geografia moral da nação em que ocorrem. Quando uma parte do povo cospe no espelho, é como se cuspisse para o céu. O que vai, volta.

A realimentação do pensamento negativo torna mais difícil manter uma compreensão teosófica das coisas. A percepção fraterna da vida desaparece - como no caso de Farthing - sem nenhum aviso ao estudante de teosofia. Ele não percebe necessariamente que sua consciência mudou para pior.

Quando uma nação enfrenta uma tempestade astral, vários teosofistas menos experientes sentem que é mais difícil aceitar a doutrina teosófica do não-enfrentamento político, e lembrar que a verdadeira batalha ocorre na alma, e não nas ruas, nem no combate neurótico entre diferentes estratégias de propaganda enganosa.

As parcelas mais atentas do povo não devem fugir da verdadeira batalha na alma, nem cair na tentação de desafiar autoridades vivendo uma “indignação” com isso ou aquilo. Foi abordando este tipo de mobilização popular furiosa que Dostoievsky escreveu o romance “Os Endemoniados” (“Os Possessos”), cujo título é por si mesmo bastante revelador.   

Cabe à Loja Independente evitar tanto quanto possível o processo do “eclipse teosófico” ou “apagão da consciência mística” que pode ocorrer quando o astral de um país é tomado por pensamentos negativos, pela busca cega de prazer, pelo desânimo, pela raiva e pelo seu companheiro inseparável, o medo.

A teosofia celebra a vida. Ela busca a paz social, enquanto seus adversários frequentemente procuram a confusão, a luta entre as classes, e a conflagração dos países. Assim, o ataque a prédios públicos, a interrupção de estradas, os atos de terrorismo e a destruição de meios de transporte não são atos exclusivamente político-sociais, econômicos e criminosos, que custam fortunas ao país em que ocorrem.

São também ataques astrais.

Visam destruir o centro da aura do país e atacam o todo da sua aura, instilando novos níveis de raiva e frustração e tornando difícil para alguns teosofistas - talvez especialmente os situados em grandes centros urbanos - manterem uma clara percepção do trabalho dos Mestres.

Preservar a Atmosfera Psíquica

Quando a “luta pela libertação do povo” se aprofunda ao ponto de haver grande violência, o sangue derramado envenena ainda mais o plano astral do país. Assim, quando há num país um presidente moderado, que não estimula o ódio mas o diálogo e o entendimento, deve-se ver em tal atitude não um sinal de fraqueza, mas de força moral. A energia ética e humanista é invisível externamente. É superior e elevada, mas provoca irritação nos adoradores da violência e do pensamento negativo.

O dever moral do teosofista é ficar do lado da vida e do respeito. O ódio passa, e a Lei permanece. A Lei é a regra da fraternidade impessoal e da justiça. O teosofista deve eliminar da sua vida qualquer sintonia com a política do rancor. Sua tarefa inclui desmascarar as lutas de poder que manipulam a ingenuidade do povo e ameaçam a qualidade da atmosfera psíquica da cidade e do país em que vive, ou onde nasceu. [8]

A missão teosófica é defender a paz e a harmonia, e não o desrespeito pelas leis. Vivendo em comunidades cuja vida astral está sob a influência de sentimentos pouco elevados, os teosofistas precisam usar uma certa dose de força de vontade para olhar para o mundo desde o ponto de vista da fraternidade universal.

O movimento teosófico é retrátil, como um acordeão. Tem a capacidade de se retrair. Ele encolhe e se expande conforme os ciclos. Se necessário, uma Loja teosófica realista deve optar por encolher no seu tamanho visível, e não por encolher sua visão da vida. Nem no mais infeliz dos momentos históricos um teosofista pode aceitar ou apoiar a política da raiva.

Permanecendo indiferente às marés da ignorância organizada, o movimento teosófico autêntico cresce de modo real, sem perder em qualidade ética e verdadeiro conhecimento. Estes dois fatores dependem da força moral de cada estudante de filosofia. A meta de uma boa loja teosófica não é “obter mais seguidores”, mas permanecer fiel à consciência interior e partilhar conhecimentos através do critério da afinidade.

O que temos a dizer é:

“Bem-aventurados os que mantêm o coração e a mente puros em meio a uma comunidade desorientada, e procuram irradiar a paz.”

A Loja Independente busca funcionar como um ponto de luz e fraternidade, o que implica uma certa dose de rigor no modo como se olha os fatos. A LIT respeita reverentemente o verdadeiro centro da aura do movimento teosófico moderno. Ela sabe que tem o dever de estimular um respeito pelo centro da aura dos países em que seus textos, publicações e websites são lidos em vários idiomas.

A LIT promove uma boa vontade em relação à lei, às autoridades, à luta pela ética através da vontade de buscar o melhor. A teosofia ensina a prática do respeito - físico, mental e emocional - por todos os seres. Desses princípios não se deve abrir mão.

Ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo. Todos aprendemos com todos. Os cidadãos são alunos e mestres uns dos outros, e o amor pela verdade deve ser preservado sempre no centro da alma, seja qual for a maré das compreensões humanas no momento em que estamos vivendo.

NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, volume I, pp. 75-76.

[2] Clique e veja: “A Pressão Atmosférica da Alma”.

[3] Examine o texto “Construindo um Continente de Pensamento”.

[4] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, volume II, carta 112, pp. 218-219.


[6] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, volume I, carta 70C, p. 332, inclusive uma nota de pé de página.

[7] Clique para ler “A Filosofia de Dom Pedro II”.

[8] Veja o artigo “A Teosofia e os Conflitos Sociais”.

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O texto acima foi publicado pela primeira vez dia 06 de junho de 2018.

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Veja em nossos websites associados os artigos “A Guerra Mundial em Nossas Mentes”, “Quando os Pinóquios Perdem Poder” e “Rompendo a Manipulação Mental”.


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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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