31 de março de 2015

O Devanear do Teósofo

Um Poema Sobre os Ciclos Cósmicos
Que Marcam a Vida no Planeta Terra

Múcio Teixeira


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Nota Editorial de 2015:

O poeta Múcio Teixeira nasceu em
Porto Alegre em 13 de setembro de 1857 e
viveu até 8 de agosto de 1926. Amigo pessoal do
imperador-filósofo D. Pedro II, Múcio foi um dos
principais pioneiros do pensamento teosófico no Brasil.

Escrito em 1915, o poema “O Devanear do Teósofo” é
claramente inspirado nas obras de Helena P. Blavatsky,
sobre cuja vida e obra Múcio também escreveu um poema.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A meu filho Múcio




“Os corpos, que são aglomerações de
moléculas, seriam assim os análogos das
vias-lácteas e das nebulosas resolúveis.”

(Paul Gibier)



O Devanear do Teósofo

Depois do pensamento libertar-me
Da ação do peso, a fim de que espedace
Os pesados grilhões do cativeiro
Que me prendem à terra, livremente
Poderei, lá de cima, examiná-la,
Cravando o olhar do espírito nas rochas
Imóveis, entre as ondas movediças
Dos oceanos profundos, que separam
Continentes, nações, e fauna e flora.

Terei do macrocosmo a ideia exata,
Partindo das sementes às florestas,
Indo do grão de areia às cordilheiras,
Até chegar do protoplasma ao homem
E do homem ao núcleo do planeta,
Onde o berço encontrei e espero a tumba,
Para nela deixar o corpo inerte
Quando minha alma sacudir as asas
No largo voo de existência nova.  

Mas, sem sair desta planetosfera,
O microcosmo sondarei, buscando
Encontrar nele o ser real, ou antes
O terceiro princípio, que, por cima
Da matéria e da força, como um fluído,
Do Universo animado é parte ativa. [1] 

A forma dos Oceanos e das terras,
Confirmando o que ensina a História Oculta,
Diz que cada período cosmogônico
De vinte e cinco mil e centos de anos
Determinado pela astronomia
Na semestral precessão dos equinócios,
Assiste a pavorosos cataclismos,
Multiplicando universais dilúvios,
Uns pelas águas, outros pelo fogo, [2]
Permanecendo o mundo equilibrado,
Sempre a girar vertiginosamente.

Estamos num período em que os gelos,
Cuja espessura se acumula agora
Em cinquenta quilômetros no Ártico,
Ou no Austral, onde a fremir se partem
Num desmoronamento monstruoso;
Blocos de gelo enormes, qual se fossem
Dezenas de Itatiaias [3] sobrepostos,
Precipitam-se, lá, varrendo os mares,
Se arrastando e rolando com as águas,
Raspando os continentes, e levando
Nessa enxurrada as rochas de granito.

A água salgada espuma sobre tudo,
Exceto alguns planaltos solitários,
Que são os Ararats das novas Arcas;
E um silêncio completo se alevanta
Sobre a humana grandeza, sepultada
Num cemitério de cidades mortas!...

Só séculos depois irão surgindo,
A pouco e pouco, juncos oscilantes,
Arbustos verdes, árvores frondosas,
Florestas virginais, aves e feras;
Novos homens, cabanas e rebanhos,
Casas, cidades, com prisões e templos,
Hospitais e quartéis, tendas e escolas,
Prostíbulos, bordéis e lupanares.

De novo nascerão reis e poetas,
Juízes, sacerdotes e guerreiros,
E ladrões, e mendigos e avarentos;
Crianças louras e mulheres lindas,
Curiosas aquelas, estas falsas,
Ardentes, voluptuosas e ciumentas,
Prometendo, sem dar, uns paraísos
De onde os tristes Adões são sempre expulsos...

Começarão de novo as duras guerras,
Revoluções, duelos, e combates
Peito a peito, ou no fundo das trincheiras,
Negros túneis fatais por onde passam
Os sinistros comboios do extermínio!...
Mas das passadas gerações extintas
Nada mais restará: nem um poema,
Nem as estátuas dos heróis e gênios;
Entrementes no azul do firmamento
O mesmo sol há de dourar os dias
E a mesma lua pratear as noites.

Somente a análise espectral nos mostra
A analogia que há entre as estrelas
E as almas imortais, umas e outras
Presas pelas correntes invisíveis
De uma lei de harmonia, que se estende
Do ovo da crisálida à falena, [4]
Do grão ao fruto, da raiz à fronde, [5]
Do indivisível glóbulo de um átomo
À incalculável dimensão dos astros!

(Rio, 1915)


NOTAS:

[1] O indivíduo humano encontra em si os princípios que servem de base para o universo inteiro. “Acima” do plano da matéria e do plano da energia está o akasha, a luz astral, que Múcio Teixeira chama corretamente de terceiro princípio do universo. Como se verá por outros trechos deste poema, Múcio escreve em parte inspirado pelo estudo de “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky. Mas ele também usa de liberdade artística e emprega sua imaginação poética, não adotando um enfoque sempre técnico da cosmogênese e da geologia teosóficas. (CCA)

[2] Ensinamento de “A Doutrina Secreta”. (CCA)

[3] “Itatiaia” é um nome de origem indígena e significa “penhasco cheio de pontas”, “pedra pontuda”.  É no elevado  Maciço do Itatiaia que se situa o Pico das Agulhas Negras, com 2.791metros,  na fronteira entre os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. (CCA)

[4] “Falena”. Borboleta noturna. (CCA)

[5] Fronde: folhagem dos ramos de uma árvore. (CCA)


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O poema “O Devanear do Teósofo” é reproduzido do volume “Terra Incógnita”, de Múcio Teixeira, Casa Duprat Editora, São Paulo, 1916, 407 pp., ver pp. 189-193.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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