3 de maio de 2013

A Tarefa à Nossa Frente

O Propósito Essencial do Movimento
Teosófico Vai Muito Além do Curto Prazo

Carlos Cardoso Aveline




“A alma do ser humano é imortal,
e o seu futuro é o futuro de algo cujo
crescimento e esplendor não têm limites.”

(“The Idyll of the White Lotus”, M. Collins,
Cap.  8, p. 114, Quest Books, 1974. Há uma
tradução menos precisa da frase na edição brasileira,
“O Idílio do Lótus Branco”, Ed. Pensamento, p. 83.)


“….. Digam-me se sou demasiado otimista
quando afirmo que se ... [o Movimento Teosófico]
sobreviver e permanecer leal à sua missão e aos seus
impulsos originais ao longo dos próximos cem anos,
digam-me, repito,  se vou demasiado longe ao
asseverar que, então,  a Terra será um paraíso no
século vinte e um, se comparada com o que é agora!”

(Frase final de H.P. Blavatsky na obra  
“A Chave da Teosofia”, publicada em 1889.)



Nas últimas linhas de “A Chave da Teosofia”, Helena P. Blavatsky vê uma relação direta entre a situação do movimento teosófico, de um lado, e a situação do carma humano e da civilização da nossa humanidade, de outro. O movimento é para ela um fator causal: o estado da civilização pertence ao mundo dos efeitos.

A importância oculta da afirmação de H. P. B. é grande. Ela revela a natureza magnética do vínculo entre o movimento teosófico e a humanidade. O movimento é um processo coletivo, dinâmico, não-burocrático, que possui sementes ativas de atividade buddhi-manásica, isto é, de consciência universal, impessoal, transcendente, eterna.[1] A humanidade é a terra na qual as sementes são lançadas. Se o tipo correto de grão é semeado de modo eficiente, no tempo devido começará a colheita.

A frase de H. P. B. menciona a responsabilidade oculta do movimento em relação à humanidade. O dever é invisível para o mundo convencional, mas a tarefa para a qual ele aponta é inevitável, porque faz parte do processo da evolução humana. Está, portanto, na própria essência do movimento, na sua substância na luz astral, na sua aura.

O fato de que ajudar a humanidade em seu conjunto é uma vocação central do movimento teosófico é claramente colocado em várias passagens de “Cartas dos Mahatmas” e de “Cartas dos Mestres de Sabedoria”.[2] A ideia também está registrada no primeiro objetivo do movimento, que é “criar um núcleo da fraternidade universal”.

É verdade que um número variável de indivíduos poderá negar - mais em suas ações práticas do que em palavras - que este é o propósito central do movimento. Há aqueles que se comportam como se este dever sagrado fosse apenas um slogan de propaganda e uma frase bonita a ser repetida para impressionar o público.

No entanto, o movimento só pode ter vida interna real na medida em que se mantiver em harmonia com sua própria natureza magnética, cuja substância é feita de ética e sabedoria.   

A vitalidade do movimento não depende do poder material ou do número maior ou menor de seus associados. 

Se em uma ocasião qualquer o movimento tem menos vitalidade do que deveria e alguém busca identificar a fonte do problema, bastará examinar a quantidade de motivação altruísta que há em seus membros. Neste exame o observador deve começar verificando o seu próprio grau de altruísmo.

Quando na balança das motivações a intenção altruísta é fraca, a meta de longo prazo é esquecida e o movimento passa a ter uma sub-existência. Então ele cai numa vida vegetativa, e seus membros se refugiam na rotina, nos rituais, na tradição cega, ou na busca de “novidades” instantâneas.  

Para o cumprimento da sua tarefa de longo prazo, o movimento necessita de indivíduos que tomem medidas práticas para expandir os seus Antahkaranas, ampliando o contato com os seus eus superiores ou almas espirituais. Isso requer autodisciplina. Mas é deste modo que eles se capacitam para assumir de fato sua corresponsabilidade pelo futuro humano. 

O número aritmético de tais indivíduos é de importância secundária. Em geral, um único cidadão decidido ajuda mais do que milhares de cidadãos indecisos. No entanto, a decisão da alma não pode ser apressada. Tudo tem o seu ritmo natural. Uma caminhada de dez mil quilômetros começa com o primeiro passo.

Os Poucos que trabalham pela humanidade podem estimular o despertar interior de muitos outros. Este processo está ocorrendo em escala mundial, mas sua rapidez depende do Carma. O progresso humano se dá por milênios. Embora o despertar tenha começado a tomar impulso e ganhar velocidade em 1875, os seus resultados não são necessariamente visíveis, ainda.

Para os estudantes de teosofia original, é um privilégio estimular o processo pelo qual um número crescente de indivíduos se harmoniza com os novos tempos, marcados pela necessidade de autorresponsabilidade e de cooperação sem fronteiras, em escala planetária. Há desafios, é claro. Para alcançar sua meta, o movimento esotérico deverá superar o apego à rotina. Isso não ocorre da noite para o dia. Visto coletivamente e a longo prazo, este esforço vai abrindo espaço para o surgimento do sexto tipo ou etapa evolutiva da atual humanidade. 

Na obra “A Doutrina Secreta”, este tipo humano é chamado de “sexta-sub-raça da quinta raça-raiz”.  

A palavra “raça”, aqui, abrange pessoas de diferentes cores de pele, povos, classes sociais, culturas e etnias, e se refere a características de muito longo prazo. O novo “tipo” ou “sub-raça” da atual raça-raiz estará apto para viver conscientemente a fraternidade universal. O respeito à vida é uma chave para chegar a esta consciência. Os cidadãos pioneiros do futuro reconhecem a fraternidade universal como uma lei e um fato, e trabalham para que a prática do fratricídio seja abandonada no momento certo.   
  
O dharma dos teosofistas não é fazer um esforço para impedir mudanças geológicas graves através de ativismo ou militância social.

É verdade que os efeitos das mudanças climáticas e ambientais serão menos dramáticos se a consciência planetária e ecológica expandir-se mais rapidamente. Esta é uma meta nobre a ser apoiada. Mas os ciclos geológicos são inevitáveis. Eles fazem parte da evolução humana e planetária e constituem uma necessidade. O dever teosófico é alcançar uma compreensão dos desafios geológicos atuais desde o ponto de vista da filosofia esotérica, e partilhar esta compreensão de modo a acelerar o despertar interno da humanidade.

O planeta é setenário. Os sete níveis da sua consciência estão inevitavelmente interligados, e na primeira metade do século 21 já é possível perceber que está ocorrendo uma transição multidimensional. 

Graças à sua filosofia universalista, o movimento esotérico opera, ou deveria operar, em níveis superiores da mente da humanidade. No entanto, as suas velhas estruturas e formas de ação estão se tornando disfuncionais. Os novos métodos de agir ainda não apareceram, ou estão na primeira fase do seu surgimento. 

A perda de vitalidade das formas antigas do trabalho teosófico se expande simultaneamente com a crise externa da civilização materialista. Estes dois processos ocorrem ao lado da aceleração dos eventos geológicos por toda parte.   

Está tudo sincronizado no processo da vida planetária. O desafio é agir construtivamente, de dentro para fora, de modo pioneiro. Cada estudante deve decidir por si, enquanto ajuda e é ajudado pelos seus colegas de caminhada.  

Um Mestre de Sabedoria escreveu sobre a responsabilidade dos Poucos em relação ao conjunto do carma humano:

“A crise atual que está abalando os alicerces da S.T. [Sociedade Teosófica] é uma questão de perdição ou salvação para milhares; uma questão de progresso ou retrocesso da raça humana; da sua glória ou desonra, e para a maior parte desta raça, de ser ou não ser, de aniquilação, realmente – e se a sua L.L. [Loja de Londres] pudesse ao menos entender, ou mesmo suspeitar disso, talvez muitos de vocês olhassem para a própria raiz do mal, e em vez de seguirem aparências e decisões científicas falsas, vocês se poriam a trabalhar e salvariam a situação…”. [3]

No século 21, o trecho acima se aplica a cada grupo de teosofistas sinceros que estudam os ensinamentos originais e tratam de expressá-los em sua vida diária. Ao refletir sobre o princípio da responsabilidade estabelecido nas linhas acima e no parágrafo final de “A Chave da Teosofia”, podemos escolher duas questões para meditação e contemplação:

* Há mesmo uma relação de causa e efeito entre, A) o processo de preservação e expansão do movimento teosófico de acordo com o seu Impulso Original, e B) a necessária autorrenovação da civilização de hoje em direção à ética universal e ao altruísmo?

* Qual é a melhor maneira pela qual cada um de nós, e todos nós, podemos TENTAR ser úteis neste processo unificado e permanente de criação, preservação e renovação, que ocorre a longo prazo e principalmente no plano causal?

NOTAS:

[1] No sentido essencial, o movimento teosófico abrange todas as pessoas de boa vontade que transcendem os sectarismos religiosos, nacionais, políticos ou filosóficos, percebendo a sabedoria universal e procurando vivenciá-la. Há teosofistas que não pertencem a qualquer associação teosófica, e há membros das sociedades teosóficas que não são teosofistas.

[2] As duas obras estão publicadas pela Editora Teosófica, de Brasília. Em nossos websites associados pode-se ler “A Carta do Grande Mestre”, que tem como nome de autor “Um Mahatma dos Himalaias”.  

[3] “Cartas dos Mahatmas”, volume II, Carta 136, p. 315.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto).  


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