10 de junho de 2020

O Clube dos Silenciosos

 Buscando a Felicidade na Ausência de Barulho

Malba Tahan





Depois de oferecer-me um de seus deliciosos cigarros egípcios, o silencioso e taciturno filósofo retomou a palavra e contou-me o seguinte:

- Como todos sabem, tenho a velha mania de viver no silêncio. O criado que me serve é mudo, e o único ruído que posso tolerar, por vezes, é o marulhar suave da água no fundo do meu narguilé. Devo dizer ainda que esta casa, erguida no centro de grande parque, foi construída por um notável arquiteto especializado em “habitações sem ruído”. As paredes, portas, tetos, pisos e vidraças são impermeáveis ao som.

Disponho, além do mais, de um apartamento subterrâneo, mobilado com todo o conforto, onde me recolho nos dias de trovoada ou temporal. Bebo água em copos de papel (o cristal é estridente, insuportável!), só uso talheres com cabo de borracha e minhas refeições são servidas em pratos de galalite. Detesto os pássaros que me perturbam com seus gorjeios, mas admiro as borboletas pequeninas que voam sem ruído!

Foi, pois, com grande satisfação que recebi a notícia de que existia nesta cidade um delicioso centro social denominado “Clube dos Silenciosos”, do qual podiam participar todos aqueles que tivessem aversão ao ruído. Era exatamente o meu caso!

Por intermédio de um amigo, apresentei-me, com boas credenciais, candidato a um lugar de sócio, a fim de poder frequentar livremente a confortável e magnífica sede do Clube.

Não sou vaidoso; mas, dada a minha indiscutível paixão pelo silêncio, estava certo, ou melhor, certíssimo de que seria admitido, por aclamação, no “Clube dos Silenciosos” e convidado, no fim de poucas semanas, para um cargo de prestígio na Diretoria dessa notável agremiação.

Em dia previamente marcado fui solenemente recebido, estando os “Silenciosos” reunidos em Assembleia Geral. Ninguém pode avaliar o silêncio que reinava no Clube. Basta dizer que as salas eram forradas de grossos tapetes de veludo e aos sócios não era permitido pronunciar a menor palavra, tossir, espirrar, ou mesmo respirar com entusiasmo fora do normal.

Na parede principal havia um valioso quadro no qual se admirava uma singular “Paisagem polar”. Procura o talentoso artista reproduzir na tela uma região ideal, situada muitas léguas para além da Groenlândia, onde todos os anos, segundo verificou o Prof. Brethazik, reina um silêncio absoluto durante um período de seis meses! Aquela visão inesperada do País do Eterno Silêncio deixou-me deslumbrado.

Ao chegar ao grande salão - sem ferir o profundo silêncio que dominava - senti-me profundamente constrangido ao notar que todos os sócios olhavam para mim, assombrados, os olhos esbugalhados de espanto. Alguns chegaram a levar as mãos aos ouvidos como se os atormentasse, naquele momento, uma algazarra infernal que eles não podiam suportar!

- Esses homens são loucos - pensei. - Aqui entrei sem causar o menor ruído e ainda não pronunciei uma sílaba sequer! Por que insistirão eles em tapar os ouvidos no meio deste silêncio?

Sobre um alto estrado, forrado de cortiça clara, erguia-se uma grande mesa. A poltrona do centro era ocupada pelo impassível Presidente e, a seu lado, tomava lugar o secretário do clube. Procurando exprimir-me por meio de gestos - pois não queria com o som de minha voz perturbar o delicioso silêncio do recinto - dei a entender ao ilustre Presidente que desejaria ter a honra de ser admitido no Clube dos Silenciosos.

Vi repetir-se, com ligeiras variantes, aquela estranha cena que o imaginoso Padre Blanchet descreve em seus “Apóstolos Orientais”.

O Presidente mostrou-me um copo cheio de água, quase a transbordar, querendo de tão simbólica maneira explicar-me que, estando o Clube com o seu número completo, não podia admitir um novo sócio. Tomei, sem hesitar, de uma pétala de rosa que se achava sobre a mesa, e coloquei-a delicadamente sobre a superfície da água que enchia o copo. Todos compreenderam que eu queria, com tal gesto, explicar que, com boa vontade, haveria ainda um lugar para mim naquele ilustre cenáculo! O Presidente, porém, com um olhar cheio de impaciência que me surpreendeu, despejou (e isso sem fazer o menor ruído) toda a água que enchia o copo, deixando apenas no fundo a pétala que eu havia colocado. Isso feito deitou o copo sobre a mesa. Compreendi, no mesmo instante, o que ele queria significar com tal proceder: “A sua aceitação no quadro social acarretaria a saída de todos os outros sócios, e, consequentemente, a queda e o desaparecimento do nosso Clube!”

Retirei-me nessa tarde do Clube sem saber como explicar o meu fracasso, pois seis horas antes eu fora informado de que havia duas vagas entre os associados. A alegação feita inicialmente de que o quadro do Clube estava completo não passava de uma desculpa atenciosa de que a Diretoria havia lançado mão para recusar-me. Havia, portanto, em relação ao meu caso, algum outro motivo muito grave que, por delicadeza, o Presidente se abstivera de declarar na presença dos sócios.

Mas que motivo seria esse, afinal?

Resolvido a esclarecer aquele intrincado mistério, escrevi, nesse mesmo dia, ao Presidente, pedindo, em termos enérgicos, uma explicação, insinuando que para a minha recusa não podia existir pretexto ou desculpa que fosse aceitável. Desafiei que houvesse no Clube, apesar da severidade de seus estatutos, um “silencioso” que fosse mais apaixonado e mais intolerante do que eu na nobre campanha contra o ruído que avassala o mundo.

O meu criado mudo (com sapatos de sola de seda) levou a carta, escrita, aliás, com uma pena de fabricação especial, que desliza sobre o papel liso ou áspero sem fazer o menor ruído.

Uma semana depois, recebi do Secretário do “Clube dos Silenciosos” uma resposta, redigida em termos cheios de cativante gentileza, cuja leitura fez desmoronar todas as ilusões da minha vida de silencioso. Dizia o ilustre missivista que eu não podia ser aceito no “Clube dos Silenciosos” por ter provado, perante todos os sócios, ser um apaixonado apreciador do detestável ruído e que, portanto, nessas condições, jamais seria um apologista do silêncio ideal. “Pois o senhor - acrescentava o digno Secretário dos Silenciosos - teve a coragem de vir à sede de nosso Clube trazendo, no bolso, um desses barulhentos e infernais relógios europeus!”…

Só então compreendi tudo. Lembrei-me dos gestos desagradáveis de espanto e de horror com que os “silenciosos” haviam acolhido a minha chegada ao salão de honra.

É que entrara comigo, sem que eu pudesse perceber, o ruído, a barulhada - a tortura enfim!

Sim, meu amigo, é espantoso!

Para aqueles homens habituados ao silêncio absoluto, o tique-taque do meu minúsculo relógio de algibeira era um barulho ensurdecedor.

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O conto “O Clube dos Silenciosos” está publicado nos websites associados desde o dia 10 de junho de 2020. Foi reproduzido do livro “Maktub!”, de Malba Tahan, 11ª Edição, 1964, Ed. Conquista, Rio de Janeiro, 220 pp., ver pp. 111-116. A ortografia foi atualizada.

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Leia mais:

* “O Silêncio”.

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